O EURO É UM DESASTRE MESMO PARA PAÍSES QUE FAZEM TUDO DE ACORDO COM AS REGRAS – por MATT O’BRIEN
joaompmachado
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(Martin Leissl/Bloomberg)
O euro é um desastre mesmo para países que fazem tudo de acordo com as regras.
Matt O’Brien, The euro is a disaster even for the countries that do everything right
Washington Post, 17 de Julho de 2015
O euro pode ser mesmo bem pior que a bancarrota.
Isto, pelo menos, terá sido o caso para a Finlândia e para os Países Baixos, que têm actualmente crescido menos do que a Islândia desde 2007. A Islândia, devemos recordá-lo, era um país falido em 2008.
Agora, é verdade que a Finlândia e os Países Baixos tiveram a sua boa parte de problemas económicos, mas aqueles deveriam ter sido regíveis. Nenhum país é um caso bicudo, e ambos fizeram o que foram supostos terem de fazer. Ou seja, seguiram as regras, mas os resultados foram na mesma uma verdadeira catástrofe. Isso é assim porque o próprio euro é que é uma verdadeira catástrofe. Ou, se quisermos ser polidos, a moeda comum é “imperfeita, e sendo imperfeita é frágil, vulnerável, e não permite obter todos os benefícios que dela se esperava obter.” Esta é a afirmação de Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu nesta quinta-feira.
Então, o que é que lhes aconteceu? Bem, apenas a ocorrência de más notícias económicas. É apenas um pequeno exagero dizer que a Apple tem posto de joelhos a economia da Finlândia. Os seus dois produtos de exportação mais importantes foram os telefones Nokia e os produtos de papel, mas como sublinhou o seu antigo primeiro-ministro Alex Stubb, o iPhone matou o primeiro e o iPad matou o segundo. Agora, o caminho normal para compensar tudo isto seria cortar nos custos ou seja seria desvalorizar a sua moeda, mas o problema é que a Finlândia não tem moeda própria que possa desvalorizar. A Finlândia tem o euro.
Portanto, a Finlândia em vez de desvalorizar a sua moeda teve de cortar nos seus custos, teve de cortar nos salários, o que não a leva muito longe mas provoca também enorme prejuízos económicos, uma vez que terá de despedir trabalhadores para os obrigar a aceitar cortes salariais.. O resultado tem sido uma recessão bem mais longa do que qualquer outra que esteja na memória dos finlandeses, mais longa mesmo que a grande recessão dos anos 90. Não terá ajudado, é claro, que as regras do euro tenham obrigado o governo da Finlândia a cortar no seu orçamento na mesma altura em que tudo isto tem estado a acontecer.
Tem sido uma história diferente na Holanda. Os seus produtos são mais que competitivos no exterior – o seu excedente comercial atinge o valor absurdo de 10 por cento do PIB – mas é a sua despesa interna que constitui um problema. A Holanda está perante uma enorme bolha imobiliária, alimentada, em parte, pelo facto de que os pagamentos de juros são totalmente dedutíveis nos impostos, que são assim deflacionados em cerca de 20 por cento. Isso é, as famílias holandesas estão com uma dívida maior do que qualquer outra pessoa na zona euro. Em cima disso, houve a habitual austeridade para impedir a recuperação de ser elevada ou mesmo de existir. De facto, o nível do PIB da Holanda era ligeiramente menor no final de 2014 do que era no final de 2007. Isto é muito melhor do que na Finlândia, cuja economia se contraiu em cerca de 5,2 neste mesmo período, mas, como se pode ver no gráfico abaixo, a economia islandesa entretanto teve já uma taxa de crescimento de 1,1 por cento relativamente ao valor de 2007.
Agora, é muito difícil ter feito muito pior do que o que foi feito na Islândia. Basicamente esta economia transformou-se num hedge fund que se desmoronou em 2008. Os seus bancos faliram, o seu governo teve que ser resgatado, a sua moeda caiu cerca de 60 por cento. Não foi só isso, mas, entre 2009 e 2014, a Islândia teve que fazer uma austeridade que foi o dobro da aplicada nos Países Baixos e 12 vezes tanto quanto a que foi aplicada na Finlândia. E se tudo isto não fosse suficiente, a grave situação económica de Islândia igualmente inclui o alto nível de endividamento dos agregados familiares e os controles de capitais que impediram as pessoas de movimentarem dinheiro para fora do país e dissuadiram a sua movimentação interna.
Mas apesar de tudo isto, a Islândia tem gerido economicamente a situação e de tal modo que os seus dados económicos ultrapassam os valores alcançados pela Finlândia e pelos Países Baixos. Como é isso possível? Bem, não pertence à zona euro. Tem a sua própria moeda, a coroa. E tanto quanto as pessoas da Islândia foram prejudicadas ao perderem 60 por cento de seu poder de compra em bens importados quando a coroa caiu a esta taxa, o certo é que esta queda ajudou a economia de Islândia a tornar os seus bens mais competitivos no exterior. Isto foi o bastante para se conseguir que o que poderia ter sido uma má depressão tenha sido apenas uma má recessão e nada mais que isso.
O euro, veja-se bem, faz o oposto. Os países não podem desvalorizar as suas moedas ou descer as suas taxas de juro ou mesmo gastar mais quando entram em depressão e deste modo permanecem em depressão. Tudo o que podem fazer é cortar nos salários, na despesa, e cortar então nos salários é ainda um pouco mais de penitência pelas transgressões económicas que podem ter ou não cometido. A camisa de forças que é o euro, por outras palavras, transforma problemas ordinários em problemas extraordinários (Finlândia) e problemas extraordinários em problemas históricos.
The euro is a capricious god, meting out punishment to sinners and saints alike.
E isso pode acontecer cumprindo ou não as regras do euro.
Matt O’Brien, Washington Post, The euro is a disaster even for the countries that do everything right. Texto disponível em: