UMA LIÇÃO AMERICANA À EUROPA VINDA DOS ANOS 30 – por MATT O’BRIEN – montagem de JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1

Selecção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

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Uma lição americana à Europa vinda dos anos 30

Não importa o quê, a Grécia irá sofrer por muitos anos [1]

 Matt O’Brien, No matter what, Greece will suffer for years

Washington Post,  30 de Junho de 2015

matt o'brien depressão - I

Se tiver estado a esfregar os olhos pode não ter percebido. Mas em Novembro passado, houve um momento de boas notícias para a Grécia. Novos dados económicos revelaram  que a economia da Grécia tinha realmente parado de se contrair  no início de 2014. Este facto seria o fim de um período de seis anos de longa recessão. Estes seriam dias tranquilos – sim, houve mais do que um aviso – de crescimento económico, 25,9 por cento de desemprego, e uma zona euro que parecia ter sobrevivido ao pior.

Desemprego na Europa

matt o'brien depressão - II

Desemprego jovem:

Em Abril de 2015, 4.746.000 pessoas jovens (menores de 25 anos) estavam desempregadas na UE28, dos quais 3,168 milhões  pertencem à zona  euro. Em comparação com Abril de 2014, o desemprego dos jovens diminuiu de  478 000 na UE28 e de  270 000 na zona euro. Em Abril de 2015, o desemprego entre os jovens foi de 20,7% na UE28 e de 22,3% na zona euro, em comparação com 22,5% e 23,9% respectivamente em Abril de 2014. Em Abril de 2015, as taxas mais baixas foram observadas na Alemanha (7,2%), Dinamarca e Áustria (ambas 10,1%), e a mais elevada na Grécia (50,1% em Fevereiro de 2015), Espanha (49,6%), Croácia (45,5% no primeiro trimestre de 2015) e Itália (40,9%).

Verificou-se, contudo,  que a depressão de Grécia estava ainda longe de ter desaparecido, esta estava, afinal, ainda bem perto. A sua  taxa de desemprego é basicamente a mesma que antes, o país está a regressar à recessão  e espera-se entrar em incumprimento da dívida pública dentro de poucas horas, talvez provocando uma saída da zona Euro dentro de alguns dias.

É possível, mas extremamente improvável, que a Grécia encontre  uma maneira de evitar entrar em incumprimento. Mesmo se assim não acontece, poderia ainda alcançar um novo acordo,  com a Europa e evitar uma crise que seria mesmo pior. Mas eles têm somente alguns dias para o conseguir fazer. Os gregos estão a caminhar para as urnas no próximo domingo para decidir de se querem aceitar novos cortes sobre as  pensões e taxas mais elevadas de IVA em troca de mais – da mesma  Europa – e  se votam não, eles saltarão da zona euro .

Seja o que for que acontecer agora, penso ser  impossível não reconhecer que a história grega será uma  tragédia económica que ultrapassa e de longe tudo o que a moderna civilização ocidental  já sofreu . Cada um de nós  pode ver  tudo isto  facilmente no gráfico acima , que eu modifiquei e retirei da revista The Economist. Comparem-se  os últimos anos de Grécia com o  que se considerou  ser a referência  da catástrofe económica: os E.U. durante a Grande Depressão.

Alguns dados da Grécia retirados do The Economist:

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matt o'brien depressão - IV

Agora, a economia de Grécia caiu apenas um pouco menos do que a América caiu então — cerca de  27 por cento no seu ponto mais baixo  — mas a maior  diferença entre os dois é a tendência para a retoma das respectivas economias. Os E.U., como se pode ver, subiram rapidamente uma vez que  FDR desvalorizou o dólar e  começou a aumentar a despesa pública. Somente o duplo golpe da austeridade orçamental e da politica monetária restritiva  prematura os fez saltar da sua trajectória de crescimento em 1937.

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matt o'brien depressão - IX

A Grécia, porém, ficou sem  nada a não ser a austeridade orçamental  e a restrição monetária. Realmente não  há ninguém para poderem  culpar além de si mesmos no que diz respeito à situação presente.  O governo grego, afinal, não  tinha a ideia de quanto é que tinham andado a gastar durante o boom, por isso tiveram  que reduzir  o seu défice  estrutural – ou seja, sem  o  pagamentos dos juros  da dívida  – de 20 por cento do PIB potencial. (Como ponto de comparação, os EUA “apenas” cortaram  cerca de 3 por cento no mesmo período).

Mas igualmente problemático  tem sido o Banco Central Europeu, não vê a depressão, não ouve falar de  nenhuma abordagem  sobre a depressão  na sua  formulação de políticas. Cada passo da crise, é debatido de tal forma que quando se decide, faz-se muito pouco, faz-se muito tarde, tarde demais, antes de decidir: sim, tem sido assim. E isso sem contar as vezes em que  piorou as coisas por aumento de taxas quando se aconselhava a descida das mesmas,  como o fez duas vezes em 2011 para acabar com a inflação que já estava  ultrapassada. As coisas estão melhores agora que o BCE  começou a comprar títulos dos países, mas mesmo isso não tem ajudado a Grécia uma vez que eles foram excluídos do programa.

É tudo isto foi feito com muita dificuldade em nome de querer salvar o euro, de manter a zona euro.  mas no fundo dentro do estilo japonês da década perdida. Certamente, os preços gregos têm estado a descer ao longo do ano até agora o que estamos  simultaneamente perante a doença e a sua cura. Isso é assim, porque salários  mais baixos  ajudaram Grécia a melhorar a sua posição em termos de competitividade  ao mesmo tempo que torna mais difícil pagar a dívida ou a carga  da dívida. Se o BCE apenas mantivesse  a inflação em torno dos 2 por cento, assim a Grécia poderia fazer descer os seus salários s relativos sem ter que estar realmente a reduzi-los e  o país poderia realmente recuperar dentro de uma geração.

matt o'brien depressão - V

Mas este não é o mundo em que vivemos, e  é por isso que a Comissão  Europeia pensa  europeu que a regressão da Grécia, assim como o seu colapso, será desagradável, brutal, e a durar por   muito tempo. Como se pode ver na linha a ponteado, a Comissão estima que a economia da Grécia ainda ficará  24 por cento abaixo de seu pico de  pré-crise no final de 2016. A este ritmo poderia ser necessário chegar a  2024 ou perto desta data para que Grécia atinga o valor do PIB ao nível do que tinha em 2007.

Por outras palavras,  a Grécia está somente a meio caminho da sua Grande Depressão.

Matt O’Brien , Washington PostNo matter what, Greece will suffer for years, texto disponível em :

http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2015/06/30/no-matter-what-greece-will-suffer-for-years/

This story was adapted from a November 2014 article. 

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[1] Reproduzimos aqui o artigo de O’Brien alargado com excertos de um grande texto sobre a crise dos anos 30 nos Estados Unidos  por ele indicado e acrescentámos  estatísticas mais recentes sobre a Europa . Dai o termos colocado como titulo nosso Uma lição americana à Europa vinda dos anos 30, quando o título do artigo de  Matt  O’Brien é Não importa o quê, a Grécia irá sofrer por muitos anos.

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