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CARTA DO RIO – 63 por Rachel Gutiérrez

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Por ter ouvido um amigo poeta referir-se a um poema que lhe “aconteceu”, senti vontade de contar como aconteceu, quando eu já estava com cinquenta anos, o meu primeiro poema.

 Foi dias depois de uma simples conversa de bar, em Copacabana, com uma amiga cantora e um compositor, ambos da chamada música “erudita”. Havíamos criticado o excesso de romantismo das letras de muitas canções, (os nossos lieder), que insistem em falar em flores, luar e corações apaixonados quando, dizíamos, poderiam ser mais realistas, mais ousadas, capazes de refletir ou comentar a contemporaneidade, suas tristezas e mazelas. Temas românticos, concordávamos, já estavam esgotados. Foi então que me lembrei de relatar o enredo de um conto que minha irmã havia esboçado sobre a peripécia de uma manequim, ideia que lhe ocorrera após discussões a respeito do destino das mulheres, numa reunião do nosso grupo feminista.

O compositor ficou muito entusiasmado e me desafiou a escrever a letra para uma canção que ele comporia. Assustada, aleguei que jamais fora capaz de escrever versos, portanto, não podia me atrever. Mas ele argumentou: – você sabe escrever, deve ser capaz sim, escreva sobre isso em versos, por que não? Experimente, tente! E minha amiga cantora insistiu: – Não custa tentar, escreva!

   Nada prometi, não quis me comprometer. Mas o desafio estava feito, senti-me instigada, aquilo me fez bem e mal, passou a me atormentar. Eu sempre amara a poesia, lia poemas em voz alta e sabia de cor versos e mais versos. Meus queridos Rilke e Fernando Pessoa sempre estiveram ao alcance da mão. Mas, escrever um poema ou a letra de uma canção? Teria eu essa capacidade, ou até mesmo um tal “direito”? Durante vários dias a lembrança daquela conversa muito me perturbou.

Enfim, certa tarde em que me encontrava na Biblioteca Nacional, lendo numa edição bilíngue os Sonetos a Orfeu, de Rilke, comecei a pronunciar baixinho os versos, em alemão, para sentir-lhes o ritmo e as sonoridades.  E aqueles sons foram me embalando, me embalando até que de repente senti necessidade de escrever, peguei papel e lápis e os versos sobre a manequim foram jorrando, sem rasura, sem nenhuma correção. Um estranho milagre: o poema saiu pronto.

 Meus primeiros versos foram então publicados, semanas mais tarde, num tabloide feminista e constam de uma antologia editada em 1990 pelo grande Massao Ohno, de São Paulo. A antologia se intitula: Mulheres (in) Versos, e o poema é:  A Maneca.

 Três anos depois, o mesmo Massao Ohno publicou meu primeiro livro de poemas: Comigos de Mim.  E um segundo: Cantares, foi publicado pela Booklink, do Rio de Janeiro, em 2002.

Também gosto de contar que minhas duas coletâneas de versos resultaram do que eu chamo de surtos poéticos porque os poemas de ambas foram escritos em poucos dias, numa espécie de “tempestade criativa”, coisa que só me acontece muito raramente. Considero-me, por isso, poeta bissexta, além de tardia.

E, é claro, serei sempre grata ao compositor e à cantora que me desafiaram a escrever versos para uma canção, desencadeando o que até hoje me assombra. Aliás, preciso dizer que aquele primeiro poema, afinal, nunca chegou a ser musicado pelo compositor que o solicitara, mas muito depois, uma jovem e talentosa amiga, que estudava na Escola de Música Pró-Arte do Rio de Janeiro,  musicou A Teia, um poema dos Comigos de Mim.

E quando passei o ano de 1992 na Europa, principalmente em Paris, lá conheci outro jovem compositor de São José do Rio Preto, agora bastante conhecido que, inspirado na minha Maneca escreveu um balé, sua primeira obra para orquestra.

Eis o poema, que A Viagem dos Argonautas, em outra ocasião já publicou:

         A Maneca

 

Seu nome era Maria

mas ela não queria,

queria ser Simone, Carla

Bianca ou Bia.

 

Iria ser Maneca, iria ser

Boneca. Teria – o Sucesso!

 

Fez tudo o que podia

(e até o que não devia)

Ah! De quanta cama

se pavimenta a Fama!

 

Até que enfim, um dia

Maria

(Simone em codinome)

pensou ter atingido

 

 a glória

de artista – o centro da Revista!

 

Depois de tanta pose

de todo o corpo em closes

e cada vez mais perto

daquele centro aberto

a câmera captou

a sua nudez toda.

 

Simone, ou Maria

ansiosa, abre a revista.

Só dela estava à vista

a Vulva, sem mais nada.

 

Maria enlouquecida

subiu, do prédio, a escada

e, de onde é linda a vista

voou para a calçada.

 

E nada disso, nada

saiu noutra revista.

 

Nota: Os personagens desta história verdadeira são:

minha irmã: Edda Gutiérrez; o compositor: Nestor de Holanda Cavalcanti; a cantora: Patrícia Endo; a jovem compositora e autora de uma outra canção: Denise Videira; o jovem compositor e autor do balé A Maneca: Maury Buchala Filho, aos quais sou infinitamente grata.

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