CARTA DO RIO – 154 por Rachel Gutiérrez

Quantas vezes nós, os das gerações mais antigas, fomos, somos e seremos levados a exclamar tristemente que o mundo que conhecemos não existe mais? A Europa que tive o privilégio de descobrir aos 20 anos, e que relembrei em Cartas anteriores, tornou-se alvo de atentados terroristas cada vez mais frequentes e assustadores. A França vive em estado de alerta máximo desde que “ataques com tiros e explosões deixaram 129 mortos em Paris, na pior violência a atingir a França desde a Segunda Guerra e apenas dez meses depois da carnificina no semanário satírico Charlie Hebdo”; e depois do que aconteceu em Nice, em cidades da Alemanha, e na pacata Manchester inglesa, agora:

 “um ataque terrorista deixou sete mortos e 48 feridos na noite deste sábado (3) em Londres. Uma van atropelou pedestres na London Bridge, cartão-postal da cidade, e pessoas foram esfaqueadas no Borough Market, mercado próximo à ponte.”

Que mundo é esse? Quando, e em que outra primavera poderei escrever, despreocupadamente, que Londres está toda verde, toda florida, as árvores pouco podadas são frondosas, protetoras; as flores colorem as sacadas, os jardins, os parques, que se sucedem, um após o outro, cada vez mais verdes, generosos pulmões da cidade cujo ar parece puríssimo, como  o fiz na  Carta 52, de 26 de maio de 2015 ?

Naquela feliz temporada, depois de visitarmos Colchester e Bath, passamos alguns dias na França e pude registrar que

de volta à nossa amada Londres, para tomarmos o avião para o Brasil, ainda tivemos tempo de conhecer algumas lojas do Selfridges e de voltar ao Mercado do Covent Garden, onde a vida é agitada e alegre. A Primavera continuava no ar.

 Infelizmente, neste último sábado, num outro mercado, o mais popular Burough Market, pessoas foram esfaqueadas em um restaurante e tiros foram disparados no local.

 “Após uma reunião extraordinária de seu comitê de segurança neste domingo, May” (a Primeira Minista Theresa May) “disse que o país enfrenta ‘uma nova forma de ameaça’, na qual os autores dos atentados ‘copiam uns aos outros’ e se inspiram em ‘uma ideologia do mal do extremismo islâmico’.”

E pensar que a minha intenção era a de escrever sobre as outras cidades da Itália, que visitamos com razoável segurança no mês de abril. Mas devo confessar que naquela viagem, ao nos aproximarmos de multidões de turistas, como em Veneza, na maravilhosa Piazza San Marco, no domingo de Páscoa, ou, dias mais tarde, nas cercanias do Duomo de Florença, o temor de algum ataque terrorista não deixou de nos assombrar.

No entanto, apesar da quantidade incalculável de turistas, foi justamente na mesma Piazza San Marco de Veneza que, por estar por acaso sozinha, saboreando com calma um “café americano” (já que o expresso italiano me parece forte demais), tive uma espécie de epifania, um autêntico maravilhamento quando os sinos da Igreja começaram a tocar. Voltou-me, intacto, um poema de Rilke que traduzi há muitos anos e que pareceu ilustrado pelo que acontecia naquele mágico instante: pássaros se agitaram em revoada e circundaram a torre da Catedral. Recitei, então, para mim mesma:

como os pássaros,

alguns que moram nos grandes sinos

dos campanários

súbito, pela retumbância

são desalojados e impelidos em seu voo

no ar da manhã

e escrevem a bela forma de seu susto

ao redor das torres:

 

não podemos permanecer em nossos corações

quando os sinos soam. *

 

Há muita beleza ainda neste nosso mundo. Deixemos de lado, por ora, os terroristas.

Esse poema do austro-tcheco Rainer Maria Rilke, foi uma homenagem do poeta à uma pintora (e autora de um de seus melhores retratos) Lou-Albert Lasard, sua grande amiga e,  por algum tempo, vizinha em Munique. Uma gentileza, talvez um galanteio, como quem oferece uma flor. Dessas delicadezas era feito o poeta.  De mais poetas, assim, precisamos na terra dos homens.

*O poema (nessa minha tradução) já apareceu em meu livro Cantares (2002) e também aqui, divulgado pelos  amigos Argonautas.

 

2 comments

  1. Jose Oliveira

    Em vez de carpir lágrimas sobre o leite derramado, seria muito mais interessante e construtivo reflectir sobre as causas profundas desses atentados. Talvez assim pudéssemos concluir que têm todos alguma relação com as guerras de agressão que esses países ocidentais têm orquestrado contra muitos países árabes e da África Negra. Não se trata pois de coisas que simplesmente acontecem a pessoas que tiveram azar. Por este caminho talvez se possa chegar a algum remédio. Sem isso é impossível e a escalada vai intensificar-se.
    Não esbanjámos…. Não pagamos!!!!!!!!

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  2. agomesmarques

    Rachel, minha querida amiga, a tua invocação de algumas cidades europeias, que recordo com muitas saudades e sempre com vontade de voltar, vai obrigar-me a escrever algo sobre alguma delas – talvez Veneza.
    Agora, vou partilhar mais esrta tua carta com os meus amigos no «facebook».
    Grande abraço do
    António

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