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Introdução a três textos esclarecedores de que a situação actual na União Europeia é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas – por Júlio Marques Mota I

Falareconomia1

Texto de Júlio Marques Mota

 

Três textos esclarecedores de que a situação actual na União Europeia  é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas

1. Nota Introdutória

Em férias quanto menos textos melhor, quer pelo lado de quem os compila ou escreve, quer pelo lado de quem os lê.

Porém, um amigo meu alertou-me há já alguns dias para o fato de Portugal estar a ser considerado na Alemanha um país de sucesso no quadro das políticas desenhadas pela Troika. A central de intoxicação de Bruxelas (Berlim, Frankfurt e Washington), não para de produzir mentiras. Há sempre quem se disponha a divulga-las sem uma menção de pequena crítica que seja e, há ainda quem queira servir e se queira servirdestas instituições, na campanha de divulgação das mesmas mentiras sob múltiplas formas, via televisão, via grandes jornais ou revistas.

Ao saber disto, acabei por ficar irritadoe  pedir ao meu editor a publicação de três textos, dois de Bill Mitchell e um de Margarida Antunes, em que o último já fora editado pelo blog como exemplos de  desmantelamento desse tipo de mentiras. Razão de tudo isto são as mentiras publicadas sob a chancela do FMI ouainda a campanha desencadeada por TheEconomist, a revista neoliberal inglesa-verdadeira referência mundial e que na verdade tão belos textos tem publicado sobre a crise-  que sempre que pode destila neoliberalismo por todas as suas letras e a um nível que nada tem a ver com o prestígio de que goza, textos estesdesmistificados por Bill Mitchell.

Mas a leitura destes textos de Bill Mitchell levanta algumas interrogaçõescuriosas. Textos simples, de leitura rápida, o que nem sempre acontece com este extraordinário economista, questões simplese de respostas ainda mais fáceis de entender.Em dois pequenos artigos faz-se uma viagem ao mundo sujo do neoliberalismo, da montagem das suas mentiras, da ideologia subjacente nas  suas respostas, e aparece tudo tão evidente que uma só interrogação se levanta: como é possível que homens de suposto elevado gabarito técnico, recuso-me a dizer de elevada idoneidade, cometam tais erros e prossigam na defesa de políticas que não têm nenhuma justificação científica? Como é possível que nem sequer se interroguem sobre as razões que levam aos resultados obtidos ao longo de anosde austeridade a fio,e que são o contrário do que eles mesmos esperavam? Ao fazer estas perguntas, lembro-mede um velho combatente americano na Europa com a invasão na Normandia, que se perguntava: sendo os alemães pessoas de elevada formação cultural e científica, como é que foi possível ter-se chegado aqui,à barbárie mais absoluta que se possa imaginar?

Bill Mitchell acusa as altas autoridades do FMI de negligência intelectual, mas no contexto da crise grega ser negligente num tempo que deixou o mundo suspenso, só pode ser profunda desonestidade intelectual ou mesmo maldade e nunca ignorância ou simples negligência. Lembram-se do nosso Vitor Gaspar, exactamente promovido a alto-quadrodo FMI, o homem de mão doneoliberalismo em Portugal,o que falhava todas as projecções e passava às seguintes como se nada tivesse acontecido. Chamá-lo de ignorante? Nem pensar. Então de quê? De maldade, poderíamos dizer, parafraseando Domenico Mário Nuti.De ganância, também, acrescentemos nós. Um outro exemplo emblemático é-nos dado pelosegundo homem mais forte da zona euro. Vitor Constâncio. Há dois ou três anos proferiuuma conferência em Atenas, onde faz uma crítica intelectualmente séria sobre os defeitos da arquitectura da zona euro para chegar à seguinte conclusão: não há que mudar de rumo, há que seguiro caminho traçado. E o caminho traçado levou à noite de 12-13deJulhoonde se transformou a Europa numa colónia alemã.

Curiosamente a linha de ataque para a capitulação da Grécia naquela noite foi desencadeada a partir da bazuka de MarioDraghi utilizada não para atacar os mercados especulativos mas sim a banca grega e através dela asfixiar lentamente a economia grega. Uma basuka utilizada mês após mês contra o povo grego, uma vez que se tratava de disparar fortemente contra a banca grega e contra a economia grega.Um simples gráfico sobre a banca grega e a sua asfixia vale por páginas de descrição do ataque assassino que foi desencadeado a partir da Troika e pelo BCE, à margem da letra dos Tratados, acrescente-se. A morte lenta dos bancos gregos promovida pelo BCE é o que aqui se vê neste gráfico. E sem banca não há economia que recupere. Salvem-se os bancos alemães e franceses, o resto é irrelevante, é o que se pode dizer e é o que foi feito.

Gráfico I) O comportamento do stock de bancos gregos

 

Mas voltemos à nossa questão: o que move os homens que definem, aplicam ou exigem que sejam por outros aplicadas, as políticas sem sentido em termos de saída da longa depressão,  que têm sido desenhadas por Schauble e por Draghi- Juncker aqui não é citado porque serve apenas de puro  elemento de decoração.Falámos em maldade e ganância e mantemos o que dissemos.

Recentemente um antigo ministro da Islândia referindo-se à Grécia afirma:

“Mas, em vez admitir os malogros e suportar os custos [das suas políticas], os líderes europeus procuraram bodes expiatórios. São ávidos de uma execução. “Alguém deve pagar”, pensam, e punem omais vulnerável entre eles. É quase uma história bíblica.

Se perdoassem todas as dívidas da Grécia, as consequências não seriam também destrutivas como o querem fazeracreditar. Teme-se antes que o exemplo possa fazer escola. A importância da punição da Grécia resulta da força do modelo: poderia servir de exemplo para outros membros fracos da zona euro.

Aí está a fina palavra da história: as lições que é necessário saber, os exemplos que são dados. Trata-se de crimes, sanções e o poder de definir o crime; trata-se também da identidade do que é responsável e do género de punição que éapropriada.

(…)

A variedade de forças, que estão em jogo neste conflito, abriu um espaço para debater as verdadeiraspolíticas, económicas, éticas e a problemática da plutocracia ocidental. De modo algum ficosurpreendido com o facto deque o mundo das instituições reajadesta maneira quando o governo decidiuconsultar o povo, organizando um referendo democrático. Aplaudi os Gregos por esta decisão e juntei-meaos milhões dos que condenam as actuações antidemocráticas e abomináveis dos guardasdo capitalismo – tudo isto me faz lembrar de maneira desagradável o passado colonial da Europa.

Depois de se tersofrido o crash financeiro de 2008, enfrentámos o ataque. Como antigo membro do governo, fiqueichocada pela maldade dos governos da Grã-Bretanha e dosPaíses Baixos, quando apoiaram os grandes bancos europeus e os fundos abutres no seu ataque contra o nosso país. Isto significava o caminho a uma guerra. Os seus comportamentos nada tinhama ver commodos de civilização.

Colocámos esta questão emreferendo popular, oque se revelouarma decisiva. A superioridade política da democracia directa não pode ser posta em causa facilmente.

Todo este processotem naturalmente uma dimensão épica. De novo, são os Gregos com a sua democracia. Ainda uma vez mais.

Ögmundur Jónasson

 

(continua)

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