Texto de Júlio Marques Mota
(conclusão)
Gráfico II) Evolução do rendimento dos Bunds (de maturidade de 10 anos) e do Saldo Orçamental alemão
Na linha do que se escreve no sítio Zero Hedge, poderia ser esta a maior ironia em toda a tragicomédia grega: que, depois de tudo o que se tem passado, de tudo o que tem sido dito e feito, a dor que a periferia tem sofrido, a destruição económica e social a que a periferia tem estado sujeita, tem como contrapartida os ganhos da Alemanha, tanto quanto os custos dos empréstimos contraídos por Berlim têm, por razões da crise grega, caído, permitindo ao país equilibrar o orçamento pela primeira vez em mais de quatro décadas enquanto os Estados devedores da zona euro sofriam efeitos devedores e foram forçados a viver em situação de extrema dificuldade? Olhe-se para os dois gráficos acima e cada leitor que tire as suas conclusões.
Como se vê, o problema da crise na Europa não está apenas na existência de psicopatas sociais à frente dos destinos dos diferentes países ou das Instituições Europeias. O problema está no modelo que gera e ratifica estes comportamentos, está nas estruturas que se reproduzem na base exactamente destas políticas, a lembrar o 18 de Brumário acima citado. Podem tirar as pessoas que têm conduzido o processo que no quando dos mesmos tratados haverá sempre gente para as substituir e continuar a defender as mesmas políticas. Dito de outra forma, não se trata de haver gente boa ou má, trata-se sim da existência de um modelo que levou 30 anos a ser construído meticulosamente, gerando as “circunstâncias” a que alude Marx. É esse modelo que primeiro que tudo deve ser posto em questão e depois, só depois, os seus múltiplos responsáveis e praticantes, maiores ou menores, tanto se faz. A não ser assim, e dou apenas um exemplo, lembremo-nos do triste debate entre António Costa e Seguro, em que a Europa passava ao lado e onde António Costa afirmava a sua confiança no plano fantasma de Juncker, lembremo-nos de Almeida Santos a dizer que Costa era o homem que nos ia trazer o crescimento (!) e penso que iremos assistir a um debate do mesmo género entre António Costa e Passos Coelho, onde seguramente se irá falar apenas de aspectos colaterais, irrelevantes mesmo para a saída da crise1. Como se esta dependa apenas de pessoas singulares.
A noite de 12-13 de Julho foi extraordinariamente importante para podermos afirmar que a transformação da Europa num espaço de dominação alemã tira ou dever tirar quaisquer veleidades de compromissos no quadro da actual estrutura de poder a nível europeu. Os compromissos devem-se então tornar impossíveis. O drama de Syriza mostra-o: querer permanecer no euro e recusar a austeridade levou ao colapso, levou Tsipras a claudicar estrondosamente. Naturalmente assim, porque querer permanecer no euro e querer políticas expansionistas é querer resolver a quadratura do círculo. E Schauble e Merkel fizeram-no saborear a amargura de uma derrota total quando in extremis Syriza apresentou como proposta sua, a que tinha sido a proposta dos credores no mês anterior, em Junho2. Não, essa já não serve, presumo, terá sido essa a resposta que lhe foi dada pelos credores. Agaora, queremos ainda mais austeridade que em Junho. A linha de ruptura foi pois bem traçada.
Curiosamente, é a própria Alemanha de há cerca de 80 anos que nos dá um exemplo espantoso do perigo que pode haver na concepção dos compromissos com os inimigos reais de tudo o que é Democracia3. Como assinala Adam Tooze:
Os nazis não hesitaram em associar força e resultados saídos das urnas de voto. Por todo o país, a Primavera de 1933, o partido nazi e os seus aliados nacionalistas desencadearam uma vaga de violência feroz dirigida sobretudo contra os comunistas, os sociais-democratas e a pequena minoria judia alemã. Inexplicavelmente, os sindicatos socialistas abusaram na sua crença ao ponto de pensarem que poderiam cooperar com o governo de Hitler. Juntaram-se mesmo a Hitler e a Gobbels para fazerem do 1º de Maio uma festa nacional do trabalho: pela primeira vez o dia do trabalhador era uma festa nacional pública. No dia seguinte esquadrões de camisas castanhas, tomaram de assalto as sedes dos sindicatos e encerraram-nas. Confiscaram neste assalto centenas de milhões de Reichsmarks, sob forma de bens materiais e de fundos de solidariedade.
A sequência é depois escrita com sangue por toda a Europa.
Somos pois levados a pensar que as saídas da crise são incompatíveis com compromissos com as cliques que estão actualmente no poder. Syriza mostra-o bem ao ter que aceitar o acordo daquela noite. Uma lição para toda a gente quanto ao que cada país pode esperar dentro do sistema euro. Simplesmente, porque não se mexe na estrutura do sistema que gera estas lógicas de poder. O problema é estrutural, apenas isso, e é incompatível com soluções que nada mais são do que pura cosmética. Porque o problema é estrutural, achámos por bem voltar a publicar o texto quase que aterrador, de Margarida Antunes, em que se mostra como é que as lógicas criadas e por Bruxelas produzidas e impostas sobre os mercados de trabalho podem ser entendidas como expressões de fundo que conduziram ao desastre total em que nos situamos hoje, podem constituir as “circunstâncias” a que alude Marx. Com este texto temos uma bela ilustração da tese de Marx, que a autora até talvez desconheça, de como é que “as circunstâncias” e as elites “dirigentes” que as desenvolveram foram sendo criadas e formadas respectivamente, de texto a texto de Bruxelas, de Comunicação em Comunicação, de Directiva em Directiva, de Tratado em Tratado, década após década, com um rigor quase que de engenharia de alta precisão. Com estes elites, como assinala Ambrose Evans-Pritchard (The Telegraph) “temos agora uma Europa em que a temperatura política está a subir e chegar ao ponto de ebulição, onde as elites da UEM se recusam a mudar o seu trajecto, onde advogados sem pudor e sem escrúpulos andam a inventar acusação criminal para se poderem instaurar processos contra quem quer que se atreva a explorar um caminho para sair da armadilha. E esta é uma receita para uma guerra civil europeia.”
Três textos esclarecedores sobre os maus tempos que atravessamos, esclarecedores de que a situação actual na União Europeia é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas ao longo destes últimos trinta anos de neoliberalismo e sob responsabilidade de muita gente. Na minha opinião estamos perante três textos que podem ser uma base de entrada para se perceber que a crise actual é o produto de uma prolongada gestação.
E porque estamos de férias com duas netas para aturar, fico-me por aqui.
1 Isto não significa nenhuma animosidade contra António Costa ou Seguro, uma vez que o problema não é nacional, é europeu. Também os Partidos Socialistas e os homens que os lideram são também fruto das circunstâncias a que se alude com Marx e, problema maior, querem assumir ou conquistar o poder no quadro destas mesmas circunstâncias. Como sublinha Stefano Fassina, o ex-vice-ministro das Finanças do Partido Democrático de Matteo Renzi:
“Precisamos de admitir que a esquerda está a perder a sua função histórica como força política empenhada na dignidade e na cidadania social na gaiola neoliberal do euro. Isto é a morte. A irrelevância e a conivência do Partido Socialista Europeu com o que tem sido feito são manifestas”.


