
Era mais fácil não falar sobre o assunto. Como os que esperam pela desgraça para, depois, fazer a autópsia detalhada, com brilhantismo.
Não é possível negar o choque e desilusão com a derrota, tão rápida e tão violenta.
À euforia e esperança trazidas pelo “Não” no referendo grego – perspectivava-se uma saída democrática e humana para a crise – seguiu-se a constatação das imposições brutais do directório europeu – tem de ser à nossa maneira ou “partimos-vos” as pernas.
Haverá, ainda, espaço para a resistência e para a ação construtiva?
Logo houve quem passasse Tsipras de herói a perfeito traidor, que convocou o referendo desejando que o resultado fosse outro, para, agente infiltrado, melhor servir os interesses dos seus novos senhores. A prova seria a sua aceitação do novo memorando.
E elogiasse a cisão da Unidade Popular, guardiã da recusa de qualquer austeridade. Serão capazes de fazer algo que sirva a melhoria da vida concreta dos gregos ou contentar-se-ão, em circuito fechado, com o auto-elogio da pureza e virtude da denúncia revolucionária mas que, em concreto, nada fazem pela justiça social e felicidade das pessoas?
A carga da Brigada Ligeira pode tocar o romantismo ou a poesia mas foi um exemplo de acção inglória e sem sentido, que nada transformou.
Há que rejeitar o culto franco-fascista do Viva la muerte e privilegiar o combate da vida, livre e condigna.
O que esperar – exigir – do Syriza de Tsipras?
Que não seja um “bom aluno” e que embora tendo, conjunturalmente, tido de engolir o memorando não o aplicará cegamente, que não se comportará como os velhos partidos gregos – secções locais do PPE e PSE – que instrumentalizam o Estado a favor dos poderosos e possidentes e que tomará medidas de política económica e social guiadas por maior justiça social e de combate às desigualdades, a favor dos cidadãos.
Que desminta os que o dão por vendido e mostre que a luta não é vã.
Que não deixe que a realidade desminta a esperança.
Que seja um governo da Grécia e não de Vichy.
