No prefácio do seu «Direita e Esquerda», o politólogo italiano Norberto Bobbio, combatendo a ideia de que esta 
O que é, nos nossos dias, a esquerda? E a direita? Desde que o conceito foi formado pela facto de na Assembleia Nacional saída da Revolução Francesa de 1789, por mera casualidade os jacobinos ocuparem a ala esquerda do hemiciclo e os girondinos a parte direita, a estrutura conceptual foi sendo mudada ao sabor de circunstâncias que fogem ao rigor com que a ciência política gosta de abordar as ideias. Porém, neste particular, o rigor não é possível. Vejamos só o caso português e limitemo-nos apenas ao pequeno segmento do último meio século. Durante o período do Estado Novo, um indivíduo de «esquerdas» podia ser um simples opositor, defensor das liberdades cívicas fundamentais. Nenhum partido dos que ~foram criados a partir de 1974 pôs em causa esses direitos. Eram todos eles partidos de esquerda? Dentro de cada partido, criaram-se alas esquerdas e direitas. Da ala ‘liberal» do partido único, a ANP, saiu um partido que só é liberal se lhe aplicarmos critérios amplos e abrangentes. A filosofia política, os teóricos, a bibliografia imposta aos alunos de Ciências Sociais e Políticas não ajudam a esclarecer a dúvida – citando ao acaso, teóricos do mesmo meio-século não coincidem na definição do conceito. A «democracia orgânica» de Salazar, coelho que o ditador tirou da cartola para dissociar o seu corporativismo, obviamente antidemocrático, das ideologias nazi-fascistas, podia ser logicamente definida como uma democracia que emanava de um homem que continha em si os aspectos positivos da ruralidade anacrónica que impunha a modernices objectivamente estúpidas. O comunismo era considerado um ideário de extrema-esquerda, mas quantas restrições à liberdade democrática strito senso quer o maoísmo quer o estalinismo ou a experiência romena de Ceausescu usavam a mesma lógica salazarista de que o comunismo, o liberalismo, a democracia, são valores que não devem ser referendados, pois emanam de alguém que os interpreta da «única» maneira correcta possível?
Cavaco Silva, uma prova excessiva da fragilidade do conceito segundo o qual as maiorias são soberanas, um homem sem as mínimas condições para exercer a mais elevada magistratura da Nação, direitista seja qual for a bitola que se lhe aplique, pareceu ameaçar com um governo de iniciativa presidencial. mas acabou por indigitar o tal «governo de esquerda» saído de umas eleições que quase puseram o chicote nas mãos dos domadores que transformaram a Constituição da República Portuguesa num tigre de papel, que um grupo de incompetentes e corruptos transformou num animal dócil e desdentado. Sabendo-se que conceitos de democracia, tal como os chapéus, há muitos, seria bom que este grupo de partidos «de esquerda» compreendam que a sua concepção de esquerda não pode ser imposta, que estamos inseridos numa «união europeia» que de esquerdista nada tem. Os princípios de esquerda do PS, do BE, do PCP ou dos Verdes, apoiem.se em Marx, em Trotski, em Castoriadis, em Touraine, não valem um chavo se não servirem para, unindo-se para atingir objectivos modestos que impeçam o regresso de uma troupe de saltimbancos que, como a que vai sair, se marimbou para os princípios e se concentrou nos fins – consolidar o poder dos ricos à custa do empobrecimento dos mais pobres.

