Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A esquerda sem o povo, não existe
Jacques Julliard, «LA GAUCHE SANS LE PEUPLE N’EXISTE PAS»
Causeur nº 17, Outubro de 2014
Histotiador especialista da esquerda e do sindicalismo revolucionário, editorialista em MARIANNE, Jacques Julliard acaba de publicar em conjunto com JEAN-CLAUDE MICHÉA o livro LA GAUCHE ET LE PEUPLE (FLAMMARION), um apaixonante ensaio que me inspirou estas questões.
DAOUD BOUGHEZALA. COMO O DECLAROU MANUEL VALLS, A ESQUERDA FRANCESA ESTÁ ELA AMEAÇADA DE DESAPARECIMENTO?
JACQUES JULLIARD. Sob o nome de esquerda, designam-se duas coisas diferentes: primeiro a parte da Assembleia que se senta à esquerda do presidente e, por via de consequência, os partidos que são assim representados. Esta esquerda topológica não pode desaparecer, esta existirá sempre, haverá sempre pessoas para ocupar estes lugares. Em qualquer assembleia deliberativa, mesmo num conselho de condóminos de um edifício, as opiniões têm uma tendência natural a dividirem-se e a formar uma esquerda, uma direita, e mesmo às vezes um centro. Mas, no seu sentido ideológico, a palavra “esquerda” designa também um conjunto de valores e propostas.
Em todas as épocas, a característica da esquerda, em relação à direita, é a diferença considerável, impossível de reduzir, entre a esquerda real e a esquerda sonhada [diferença que na direita não existe]. A direita, que não faz sonhar, não conhece este eterno debate: a esquerda que conhecemos é realmente de esquerda? Os intelectuais e os políticos ambiciosos adoram dar à palavra “esquerda” um sentido normativo. Daí a invenção “da esquerda que não é de esquerda”, que tem uma tendência natural, quase genética, para trair, etc. De Sartre à Mélenchon passando por Bourdieu, é um jogo acinzentado, de efeitos deletérios.
ESTAS FIGURAS DA ESQUERDA DA ESQUERDA DO QUE GOSTAM MAIS É DE FUSTIGAR OS “PODEROSOS” “OS RICOS” E O PATRONATO, POR DEFINIÇÃO, MALDOSO. A CONDENAÇÃO MORAL DO LIBERALISMO SERÁ QUE ELA SERVE DE ESCONDERIJO PARA UMA EXTREMA‑ESQUERDA SEM PERSPECTIVA?
Sim, tanto mais que já não têm socialistas à esquerda, somente keynesianos depravados. Lamento que, na boca da esquerda oficial, o termo “liberal” se tenha tornado uma palavra extremamente importante, uma grande palavra. Liberal significa primeiro que tudo ser-se partidário da liberdade política, e penso ser extravagante que a esquerda se tenha deixado privar desta palavra, a mais bonita palavra, talvez, da linguagem política. E, depois, recordo que economicamente falando, de Robespierre a Benjamin Constant, a esquerda foi sempre liberal. Penso ser absurdo que esta esquerda desnorteada, esta esquerda em cadeira de rodas que todos nós agora conhecemos, confunda a liberdade de se ser empreendedor com a intolerável ditadura dos mercados financeiros e dos grandes bancos. Mas quando proponho como objectivo à esquerda, a escala internacional, de nos mobilizarmos todos para a entrega dos instrumentos do crédito aos povos, na grande tradição proudhoniana, não desperto nenhum interesse na esquerda paralítica que parece não ter outro objectivo detectável que não seja o de substituir Juppé, Sarkozy, ou mesmo Marine Le Pen, a Hollande ou a Valls.
A esquerda pode muito bem sobreviver sem a classe operária. É o que tem feito do século XVIII até aos inícios da III ª República. A esquerda não é o partido do povo: desde a instauração da democracia, ela também já não tem o monopólio do progresso político (sufrágio universal, parlamentarismo, liberalismo político); não lhe resta, por conseguinte, senão e como único marcador o liberalismo social. Daí a importância recente, desmedida, que esta tomou pela liberalização dos costumes (casamento, aborto, homossexualidade, etc.). Seguimos aqui o caminho traçado pela social-democracia escandinava que, por não estar a combater o capitalismo, combate a sociedade reinante. A esquerda francesa actual, feita de bobos, de funcionários e membros políticos permanentes, está em vias de regredir para a situação que era a nossa até 1850, antes “da invenção” da classe operária.
NUMA SOCIEDADE TÃO INDIVIDUALISTA COMO A NOSSA, SERÁ QUE AINDA HÁ UM MOVIMENTO COMO A CAUSA DO POVO “ (CAUSE DU PEUPLE) ”?
Sim. No passado, a questão não se punha: era entendido que os partidos de esquerda, especialmente o Partido comunista, eram a causa do povo. Isto não era totalmente verdade, mas em política, o essencial não é ser, mas sim o parecer..
Hoje, o divórcio entre a classe política e o povo é incontestável. O povo sente-se órfão e tem tendência a procurar pais adoptivos para o lado da Frente nacional. Sim, o povo deseja ser ouvido, isto será, após o sufrágio universal, a segunda revolução democrática, a do século XXI. Isso não quer dizer que “o povo”, este grande saco que dá para tudo, tenha por toda a parte e sempre os mesmos interesses. Mas, pela primeira vez talvez (com excepção dos quarenta dias da Comuna de Paris), o povo pretende tornar-se um actor essencial e autónomo. O que lhe falta, são os meios para o fazer.
QUANDO NÃO AMUA NAS URNAS, O POVO EXPRIME-SE COM BARULHO E COM FÚRIA: A FRENTE NACIONAL TORNOU-SE, ASSIM, O PRIMEIRO PARTIDO OPERÁRIO DE FRANÇA! MARINE LE PEN TENDO CAPTADO AS MEDIDAS ECONÓMICAS, ELEITORES E QUADROS ORIUNDOS DE CHÈVÉNEMENT, UMA FN RENOVADA PODERIA ELA REALIZAR A MISSÃO QUE ESTÁ A ATRIBUIR À ESQUERDA?
Não, não e não! Não estou interessado em que se faça uma falsa ideia de esquerda com verdadeiros homens de direita. Olhe-se para a biografia e para o perfil dos conselheiros actuais de Marine Le Pen: encontraremos aí um velho fundo de reaccionários, conservadores, no melhor dos casos. A Frente Nacional que se tornou, devido à falta de políticos de esquerda e de sindicatos, um partido de tribunos, continua a ser um partido completamente alheio à tradição intelectual constitutiva da esquerda, a das Luzes do século XVIII, a do socialismo francês de Proudhon a Jaurès e da moral proletária dos produtores.
O facto de que a Frente Nacional se apropria pedaço a pedaço, do catálogo reivindicativo da CGT, não é prova de adesão ao património da esquerda. A CGT nunca esteve tão à vontade como quando ela pode lidar de forma conflitual com a direita, o que ela fez desde há muito tempo em muitas grandes empresas.
A FN, como o seu próprio nome indica, é antes de mais um partido nacionalista, e o nacionalismo, a história ensina-no-lo, é para os homens de esquerda desiludidos, à esquerda, a câmara de descompressão que lhes permite moverem-se suavemente para a extrema-direita. Veja-se Déat e Doriot, veja-se Lacoste e Lejeune durante a guerra da Argélia. No caso mais optimista, uma ‘experiência’ Marine Le Pen transformar-se-ia muito rapidamente numa aventura do tipo peronista, como na Argentina do período pós-guerra com, em ordem, o populismo (Evita Perón), e, depois, com a ditadura (Videla) e, finalmente, a decadência económica.
EMBORA PARTILHE A SUA AVERSÃO PELO POPULISMO, PARECE-NOS QUE ESTÁ A SNGULARIZAR OS VOSSOS ANTIGOS CAMARADAS DA SEGUNDA ESQUERDA, QUE SE ACOMODARAM À SOCIEDADE DE MERCADO MAS QUE SONHAM COM UM REGIME PARLAMENTAR. PORQUE QUERER NACIONALIZAR O CRÉDITO CONSERVANDO AO MESMO TEMPO A Vª REPÚBLICA?
Tomei as minhas cautelas em relação à segunda esquerda quando considerei que, com a crise de 2008 a ajudar, que esta ia muito mais, para fixarmos as suas ideias, no sentido de Alain Minc do que de Edmond Maire e da CFDT. Ora, pessoalmente considero que a capacidade em colocar em questão os grandes bancos e a organização do crédito é o critério número um de um pensamento socialista actual.
Muito tempo, durante os Trinta Gloriosos anos de crescimento (45-75) e mesmo após, o capitalismo “renano”, apoiado sobre o sentido do interesse geral, permitiu melhorar a condição e a vida da classe operária e das camadas populares em proporções nunca conhecidas no passado. Era isto que tinha compreendido a segunda esquerda, e tinha razão.
Mas desde o momento decisivo na viragem do século, a conjuntura económica e mental mudou. O capitalismo patrimonial não tinha mais nenhuma necessidade de co-gestão com os sindicatos e o Estado era uma sociedade económica que ele se sentia capaz de dominar sozinho. É necessário tirar de tudo isto as devidas consequências…
Que consequências?
A longo prazo, o capitalismo financeiro e os grandes bancos conduzirão a sociedade a um grande desastre, um desastre sem precedentes, e é necessário arrancar-lhes o poder de que eles se arrogam. Isto parece-me incompatível com o regresso ao parlamentarismo clássico. É fascinante ver como é que a esquerda politiqueira, no entanto disponível para todas as manipulações dos resultados dos sufrágios, ainda é capaz de estar errado sobre os seus interesses. Velho parlamentar, François Mitterrand, ele tinha bem percebido que a esquerda só poderia regressar ao poder no quadro do regime presidencial, a única via capaz de trazer a um homem capaz da unidade nacional, nascido nas suas fileiras, os votos adicionais que lhe faltavam e de uma forma estrutural. Para explicar uma tal cegueira, deve-se compreender que o notável socialista médio não aspira ao poder, mas à delegação, ao parlamentarismo. O recurso à representação proporcional, fez na quarta República a prova da sua injustiça. O seu restabelecimento teria três consequências:
Facilitar a aproximação entre a direita tradicional e a Frente Nacional, removendo a desistência à segunda volta. Como alternativa, organizar a vida política em torno da dominação do centro, a besta negra do PS, a proibir toda e qualquer alternância. Em todos os casos, estabelecer a dominação absoluta dos partidos na vida política francesa. E tudo isto num momento em que estes partidos são e com razão verdadeiramente vomitados pela opinião pública e incapazes de organizar a participação popular no poder.
E dizer que os mais “avançados” dos nossos socialistas, sem falar de Mélenchon, constroem todas as suas esperanças na base da vida de uma VI ª República imaginária, que nunca seria mais do que uma cópia desastrosa da 4ª! Como se a França, no estado em que ela está, tivesse necessidade desse emplastre sobre a sua perna de pau! A única forma de revalorizar o Parlamento seria a de suprimir o cargo de primeiro-ministro e, portanto, de exigir que o Presidente negociasse directamente com os representantes eleitos, como se faz nos Estados Unidos. Onde está o poder, deve também estar a responsabilidade.
BELA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS! NA MESMA ORDEM DE IDEIAS, REFERE-SE À UMA MORAL POPULAR “ NA BASE DA HONRA, DA CARIDADE E DA SOLIDARIEDADE”, SAÍDA DE UMA TRIPLA HERANÇA, ARISTOCRÁTICA, CRISTÃ E OPERÁRIA. ESTE LEGADO FILOSÓFICO LEMBRA MAIS O PERSONALISMO CRISTÃO DOS ANOS 1930 QUE O ESPÍRITO DA ESQUERDA CONTEMPORÂNEA, TÃO POUCO DADA ÀS TRADIÇÕES. NESTE CASO, PORQUE ESTÁ TÃO AGARRADO AO CONCEITO DE ESQUERDA?
É verdade que a esquerda contemporânea tem tido êxito na proeza de ser ao mesmo tempo rotineira no seu modo de pensamento e esquecida do seu património moral. Sugere-me que, tendo em conta as minhas referências, que faria melhor em levar isso a conta de perdas e lucros. Fá-lo-ia de boa vontade se soubesse o que poderia colocar no seu lugar. A direita? O centro? Bem, obrigado! Então, o povo, muito simplesmente o povo? É isso que eu discuto com o meu amigo Michéa. E constato que é a conclusão à qual chegou Jean-Luc Mélenchon, na sequência dos seus malogros com a esquerda. O problema, é que o povo não é um produto simples como o vitríolo ou o açúcar, um objecto que possamos directamente apreender. Este só se apreende através das suas manifestações – o voto, a rua, a opinião. A esquerda não é um valor em si-mesma, ela é apenas um instrumento para ir até ao povo, ou, melhor, para lhe permitir que este se exprima. Mas é também um património ou, se preferirmos, uma tradição. Com a sua argumentação, fez-me precisamente observar que a esquerda contemporânea não é nada fiel a esta tradição. Não vejo porque é que eu deveria, cedendo-lhe o meu lugar, inclinar-se face às suas infidelidades, às infidelidades desta esquerda. Sei efectivamente que uma pura máquina para ganhar as eleições e repartir os lugares não tem nada a fazer com sentimentos como a honra, a justiça, a solidariedade. Mas não será que acontece o mesmo com o povo que os elege e que também os julga? Não sou eu que estou sozinho em frente desta esquerda, é a esquerda que está sozinha em frente do seu eleitorado.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/la-gauche-sans-le-peuple-nexiste-pas-vraiment-29760.html




