No prefácio do seu «Direita e Esquerda», o politólogo italiano Norberto Bobbio, combatendo a ideia de que esta
antinomia se reduziu à condição de arqueologia sociológica, destaca muito bem a ideia de que a luta entre esquerda e direita não se esgota no confronto entre o comunismo e o capitalismo – o comunismo real, o de Estaline, Mao, Ceausescu, contém muito do autoritarismo atribuído à direita, enquanto o capitalismo de Churchill ou de Roosevelt aplicaram medidas democráticas que estão no coração da esquerda. O que é esquerda e o que é direita não cabe em definições dicionarísticas. O capitalismo é indiscutivelmente um sistema de direita, pois baseia-se na acumulação de capital obtida pela exploração do trabalho; o comunismo, ao querer pôr em prática o que o cristianismo, impudicamente, defendeu e defende – usou métodos capitalistas. O chamar stakhanovismo ao taylorismo, não muda nada. Talvez que a única maneira de definir a dicotomia seja a de opor ao capitalismo o conceito de Revolução – extinguindo dinheiro, bolsas de valores, bancos; acabando com o consumismo e voltando a produção para a satisfação das necessidades de todos os cidadãos, retirando ao trabalho o estatuto de valor moral e dando a todos a oportunidade de se enriquecer culturalmente, impondo a igualdade de direitos, deveres e oportunidades a todos os seres humanos… Uma Revolução. Esquerda e direita baseia-se numa utopia do Iluminismo e hoje em dia há operários de direita e industriais de esquerda.
O que é, nos nossos dias, a esquerda? E a direita? Desde que o conceito foi formado pela facto de na Assembleia Nacional saída da Revolução Francesa de 1789, por mera casualidade os jacobinos ocuparem a ala esquerda do hemiciclo e os girondinos a parte direita, a estrutura conceptual foi sendo mudada ao sabor de circunstâncias que fogem ao rigor com que a ciência política gosta de abordar as ideias. Porém, neste particular, o rigor não é possível. Vejamos só o caso português e limitemo-nos apenas ao pequeno segmento do último meio século. Durante o período do Estado Novo, um indivíduo de «esquerdas» podia ser um simples opositor, defensor das liberdades cívicas fundamentais. Nenhum partido dos que ~foram criados a partir de 1974 pôs em causa esses direitos. Eram todos eles partidos de esquerda? Dentro de cada partido, criaram-se alas esquerdas e direitas. Da ala ‘liberal» do partido único, a ANP, saiu um partido que só é liberal se lhe aplicarmos critérios amplos e abrangentes. A filosofia política, os teóricos, a bibliografia imposta aos alunos de Ciências Sociais e Políticas não ajudam a esclarecer a dúvida – citando ao acaso, teóricos do mesmo meio-século não coincidem na definição do conceito. A «democracia orgânica» de Salazar, coelho que o ditador tirou da cartola para dissociar o seu corporativismo, obviamente antidemocrático, das ideologias nazi-fascistas, podia ser logicamente definida como uma democracia que emanava de um homem que continha em si os aspectos positivos da ruralidade anacrónica que impunha a modernices objectivamente estúpidas. O comunismo era considerado um ideário de extrema-esquerda, mas quantas restrições à liberdade democrática strito senso quer o maoísmo quer o estalinismo ou a experiência romena de Ceausescu usavam a mesma lógica salazarista de que o comunismo, o liberalismo, a democracia, são valores que não devem ser referendados, pois emanam de alguém que os interpreta da «única» maneira correcta possível?
Cavaco Silva, uma prova excessiva da fragilidade do conceito segundo o qual as maiorias são soberanas, um homem sem as mínimas condições para exercer a mais elevada magistratura da Nação, direitista seja qual for a bitola que se lhe aplique, pareceu ameaçar com um governo de iniciativa presidencial. mas acabou por indigitar o tal «governo de esquerda» saído de umas eleições que quase puseram o chicote nas mãos dos domadores que transformaram a Constituição da República Portuguesa num tigre de papel, que um grupo de incompetentes e corruptos transformou num animal dócil e desdentado. Sabendo-se que conceitos de democracia, tal como os chapéus, há muitos, seria bom que este grupo de partidos «de esquerda» compreendam que a sua concepção de esquerda não pode ser imposta, que estamos inseridos numa «união europeia» que de esquerdista nada tem. Os princípios de esquerda do PS, do BE, do PCP ou dos Verdes, apoiem.se em Marx, em Trotski, em Castoriadis, em Touraine, não valem um chavo se não servirem para, unindo-se para atingir objectivos modestos que impeçam o regresso de uma troupe de saltimbancos que, como a que vai sair, se marimbou para os princípios e se concentrou nos fins – consolidar o poder dos ricos à custa do empobrecimento dos mais pobres.
