HOJE, A ITÁLIA. AMANHÃ SE VERÁ QUEM SE SEGUE – 2. RENZI ENFRENTA UMA FORTE REACÇÃO POLÍTICA QUANTO AO RESGATE DOS BANCOS ITALIANOS – por JAMES POLITI e RACHEL SANDERSON
joaompmachado
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Hoje, A Itália. Amanhã se verá quem se segue
2. Renzi enfrenta uma forte reacção política quanto ao resgate dos bancos italianos
James Politi em Roma e Rachel Sanderson em Milão, Renzi faces political backlash over Italian banks’ rescue
Matteo Renzi, primeiro-ministro de centro-esquerda da Itália, está a enfrentar uma grande reacção política sobre o resgate € 3.6 mil milhões de quatro pequenos bancos no mês passado, depois de milhares de pequenos investidores que perderam dinheiro nesta operação terem aumentado a intensidade dos seus protestos publicamente.
A oposição da opinião pública levou as autoridades italianas a considerarem a hipótese rara de pagar um “subsídio social”, aos detentores das obrigações júnior financeiramente mais vulneráveis, que foram atingidos pelo acordo estabelecido para salvar Banca Etruria, Banca Marche, Cari Ferrara e CariChieti. Pier Carlo Padoan, ministro das Finanças de Itália, descreveu todas as compensações possíveis neste caso como uma decisão “humanitária”, no sentido de que são estabelecidas para ajudar as vitimas de maior fragilidade atingidas pelo acorde de resgate.
O movimento aparece no meio de uma grande tensão na UE sobre a aplicação das novas regras para o resgate dos bancos, as regras “bail-in” que deverão entrar em vigor em Janeiro de 2016 e que são destinadas a forçar a que haja perdas pelo lado dos credores e poupar o erário público quanto aos custos do resgatar de bancos falidos.
“Queremos identificar e ajudar os investidores que estão em situação de fragilidade do ponto de vista de rendimentos e de riqueza e que estão numa situação de extrema dificuldade, como resultado da perdas sofridas”, disse uma alta autoridade italiana. “Nós não queremos que as pessoas morram de fome.”
O resgate do quarteto de credores foi um dos primeiros passos do governo Renzi para limpar os créditos de má qualidade non-performing loans, do sistema bancário, que atingiu € 300 mil milhões em meados de 2014, segundo o FMI e que se considere que pesam fortemente contra a retoma da economia italiana .
A pressão sobre o governo aumentou ainda mais na quinta-feira depois de se ter sabido que um aposentado de Civitavecchia, perto de Roma, se suicidou depois de perder cerca de € 110.000 das suas economias na Banca Etruria, sediado na Toscana.
Os partidos da oposição protestaram – com Matteo Salvini, o líder anti-euro da Liga do Norte, a terceira força política da Itália, segundo as sondagens, apelidando-a de “suicídio de Estado” e culpando Renzi.
“Quando roubam dinheiro do bolso das pessoas, elas ficam encolerizadas, ,” disse o jurista Guglielmo Picchi, um legislador do partido Forza Italia de centro-direita, ao Financial Times. “O governo está a tentar colocar um remendo sobre tudo isso, mas o gado já deixou os estábulos.”
O ímpeto em tomar medidas correctivas que tem sido patente com o partido PD de Matteo Renzi, torna a reacção pública ainda mais complicada de gerir para o governo. Os quatro bancos operam principalmente em regiões da Itália central, que são redutos tradicionais do centro-esquerda.
O acordo de resgate foi organizado no final de Novembro com uma estrutura que forçou os accionistas e os detentores de títulos juniores a incorrerem em perdas, enquanto os detentores de títulos seniores e os depositantes foram poupados. O calendário foi projectado para evitar as novas regras ainda mais duras da EU quanto aos resgates dos bancos, as regras de bail-in, que irão ter efeito a partir de Janeiro, uma vez que com estas se poderia também atingir os próprios depositantes. Mas os danos para as pessoas italianas comuns é muito mais vasto do que o esperado.
As autoridades governamentais na época disseram que tinham decidido o acordo de resgate entre receios de que um bail-in completo pelas novas regras da UE poderiam causar uma corrida bancária generalizada num momento em que a economia da Itália está a mostrar um fraco crescimento .
O Primeiro-ministro Matteo Renzi : “A situação teria sido muito pior de outra forma”, disse o primeiro-ministro. “Este acordo salvou as contas correntes dos cidadãos dos quatro bancos e salvou milhares de empregos”.
Mas quer banqueiros quer investidores expressaram em privado uma grande frustração com a manipulação do resgate pelo governo e pelo Banco da Itália, dizendo que o acordo de resgate dos bancos levanta questões sobre a governação e de como é que aos pequenos investidores italianos foi autorizada a venda de dívida subordinada de alto risco.
Federico Ghizzoni, director-executivo de UniCredit, o maior banco da Itália em activos, que em conjunto com Intesa Sanpaolo e UBI irão suportar grande parte dos € 3,6 mil milhões necessários para o resgate destes quatro bancos de pequena dimensão disseram que as autoridades italianas deveriam ser mais claras e esclarecer os pequenos investidores da banca e os seus depositantes sobre o impacto potencial da nova directiva bail-in.
Alguns analistas dizem que o episódio poderia igualmente prejudicar fortemente a credibilidade italiana em negociações delicadas sobre as reformas da zona euro, particularmente sobre a criação de uma união bancária.
“Utilizar uma expressão humanitária, a de se estar a salvar os pequenos aforradores, é algo que eu nunca vi antes,” diz Nicolas Véron, um distinto membro do think tank Bruegel, um importante grupo de reflexão sobre a política económica sediado em Bruxelas.
“Isto significa enviar uma mensagem de estar relutante em pôr em marcha as novas regras quanto a resgates bancários. Esta situação torna o debate sobre um esquema comum do seguro de depósito [a que resiste a Alemanha] ainda mais inultrapassável do que já era e que não joga de modo nenhum a favor dos grandes interesses da Itália.”
As autoridades italianas respondem que os países membros da zona euro devem ter poucas razões de queixa quanto a esta situação. O governo italiano sublinha a relativamente pequena escala da intervenção de Itália no seu sector bancário quando comparado com outras nações que incluem Alemanha e a Espanha em que muitos milhares de milhões foram colocados nos seus sectores bancários respectivos antes da EU ter apertado as regras de auxílio estatal depois da crise. Qualquer que seja a compensação é aqui considerado que se está a ajudar alguns milhares de pessoas a um custo de €40m para o governo — com um outro valor de €80m a ser pago pelos maiores bancos.
Letizia Giorgianni, que tinha perdido €100,000 em Banca Etruria numa obrigação comprada em 2007 e é um porta-voz para um grupo novo chamado as “vítimas do resgate bancário ”, diz que a falência traria ainda mais prejuízos.
“Pense sobre o impacto psicológico. Que tipo da confiança os cidadãos têm nos seus bancos depois disto? Que poupanças estão seguras, ” pergunta a Senhora Giorgianni. “Esta é uma enorme questão — mesmo para além do caso individual de um pensionista que perdeu tudo.
Um olhar para a situação-
James Politi em Roma e Rachel Sanderson em Milão, Financial Times, Renzi faces political backlash over Italian banks’ rescue. Texto disponível em: