HOJE, A ITÁLIA. AMANHÃ SE VERÁ QUEM SE SEGUE – 2. RENZI ENFRENTA UMA FORTE REACÇÃO POLÍTICA QUANTO AO RESGATE DOS BANCOS ITALIANOS – por JAMES POLITI e RACHEL SANDERSON

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Hoje, A Itália. Amanhã se verá quem se segue

2. Renzi enfrenta uma forte reacção política quanto ao resgate dos bancos italianos

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James Politi em  Roma e  Rachel Sanderson em  Milão, Renzi faces political backlash over Italian banks’ rescue

Finantial Times, 10 de Dezembro de 2015

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©Reuters O Primeiro-ministro italiano

Matteo Renzi, primeiro-ministro de centro-esquerda da Itália, está a enfrentar  uma grande reacção política sobre o resgate € 3.6  mil milhões  de quatro pequenos bancos no mês passado, depois  de   milhares de pequenos investidores que perderam dinheiro nesta operação terem aumentado a intensidade dos seus protestos publicamente.

A oposição da opinião pública levou as autoridades italianas a considerarem a hipótese rara de pagar um “subsídio social”, aos detentores das obrigações júnior financeiramente mais vulneráveis, que  foram atingidos pelo  acordo estabelecido  para salvar Banca Etruria, Banca Marche, Cari Ferrara e CariChieti. Pier Carlo Padoan,  ministro das Finanças de Itália, descreveu todas as compensações possíveis  neste caso  como uma decisão “humanitária”, no sentido de que são estabelecidas  para ajudar as vitimas de maior fragilidade atingidas pelo acorde de resgate.

O movimento aparece no meio de uma grande  tensão na UE sobre a aplicação das novas regras para o resgate dos bancos, as regras “bail-in” que deverão  entrar em vigor em Janeiro de 2016  e que  são destinadas a  forçar a que haja perdas pelo lado dos  credores e poupar o erário público quanto aos custos do  resgatar de  bancos falidos.

“Queremos identificar e ajudar os investidores que estão em situação de fragilidade  do ponto de vista de rendimentos e de  riqueza e que estão numa situação de extrema dificuldade, como resultado da perdas sofridas”, disse uma alta autoridade  italiana. “Nós não queremos que as pessoas morram  de fome.”

O resgate do quarteto de credores foi um dos primeiros passos do governo Renzi para limpar os créditos de má qualidade  non-performing loans, do sistema bancário, que atingiu € 300 mil milhões em meados de 2014, segundo o FMI e que se considere que pesam fortemente contra a retoma da economia italiana .

A pressão sobre o governo aumentou ainda mais na quinta-feira depois de se  ter sabido  que um aposentado de Civitavecchia, perto de Roma, se suicidou  depois de perder cerca de  € 110.000 das  suas economias na Banca Etruria, sediado  na Toscana.

Os partidos da oposição protestaram – com Matteo Salvini, o líder  anti-euro da Liga do Norte, a terceira força política  da Itália, segundo as sondagens,  apelidando-a de  “suicídio de  Estado” e culpando   Renzi.

“Quando roubam  dinheiro do bolso  das pessoas, elas ficam  encolerizadas, ,” disse o jurista Guglielmo Picchi, um legislador do partido Forza Italia de centro-direita, ao Financial Times. “O governo está a tentar colocar um remendo sobre tudo isso, mas o gado já deixou os estábulos.”

O ímpeto em  tomar medidas correctivas que tem sido patente com o partido PD de Matteo Renzi, torna   a reacção pública ainda mais complicada de gerir   para o governo. Os quatro bancos operam principalmente em regiões da Itália central, que são redutos tradicionais do centro-esquerda.

O acordo de resgate foi organizado no final de Novembro com uma estrutura que forçou os accionistas e os detentores de títulos juniores a    incorrerem  em perdas, enquanto os detentores de títulos   seniores e os depositantes foram poupados. O calendário foi projectado para evitar as  novas regras ainda mais duras da EU quanto aos resgates dos bancos,  as regras de  bail-in, que irão ter efeito a partir de Janeiro, uma vez que com estas se poderia também  atingir os próprios depositantes. Mas os danos para as pessoas italianas  comuns é muito mais vasto  do que o esperado.

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As autoridades governamentais  na época disseram que tinham decidido o acordo de resgate entre receios de que um bail-in completo pelas novas regras da UE poderiam causar uma corrida bancária generalizada num momento em que a economia da Itália está a mostrar  um  fraco crescimento .

O Primeiro-ministro Matteo Renzi  : “A situação teria sido muito pior de outra forma”, disse o primeiro-ministro. “Este acordo  salvou as contas correntes dos cidadãos dos quatro bancos e salvou milhares de empregos”.

Mas quer  banqueiros quer  investidores  expressaram em privado uma grande frustração com a manipulação do resgate pelo governo e pelo Banco da Itália, dizendo que o acordo de resgate dos bancos  levanta questões sobre a governação e de como é que aos pequenos investidores italianos  foi autorizada  a venda de  dívida subordinada de alto risco.

Federico Ghizzoni, director-executivo de  UniCredit, o maior banco da Itália em activos, que em conjunto com Intesa Sanpaolo e UBI irão suportar grande parte dos  € 3,6 mil milhões necessários para o resgate destes quatro  bancos de pequena dimensão disseram  que as autoridades italianas deveriam ser mais claras e esclarecer os pequenos investidores da banca e os seus depositantes sobre o impacto potencial da nova directiva bail-in.

Alguns analistas dizem que o episódio poderia igualmente prejudicar fortemente  a credibilidade italiana em negociações delicadas sobre as reformas da zona euro, particularmente sobre a criação de uma união bancária.

“Utilizar  uma expressão  humanitária, a de se  estar a salvar os  pequenos aforradores,   é algo que eu nunca vi antes,” diz Nicolas Véron, um distinto membro do think tank  Bruegel, um importante grupo de reflexão  sobre a política económica sediado em Bruxelas.

“Isto significa enviar  uma mensagem de estar relutante em pôr em marcha as novas  regras  quanto a resgates bancários.  Esta situação torna o debate sobre um esquema comum do seguro de depósito [a que resiste a  Alemanha] ainda mais  inultrapassável do que já era e que não joga de modo nenhum a favor dos grandes  interesses da Itália.”

As autoridades italianas  respondem que os países membros da zona euro  devem ter poucas razões de queixa quanto a esta situação. O governo italiano sublinha a  relativamente  pequena escala da intervenção de Itália no seu  sector bancário quando  comparado com  outras nações que incluem Alemanha e a Espanha em que muitos milhares de milhões foram  colocados  nos seus sectores bancários respectivos   antes da EU ter  apertado as  regras de auxílio estatal depois da crise.  Qualquer que seja a compensação é aqui considerado que se está  a  ajudar alguns  milhares  de pessoas  a um  custo de €40m  para o governo — com um outro valor de  €80m  a  ser pago pelos maiores bancos.

Letizia Giorgianni, que tinha perdido  €100,000  em Banca Etruria numa obrigação comprada em 2007 e é um porta-voz para um grupo novo chamado  as “vítimas do resgate bancário ”, diz que a  falência traria ainda mais prejuízos.

“Pense sobre o impacto psicológico. Que tipo da confiança os cidadãos têm nos seus bancos depois disto? Que poupanças estão seguras, ” pergunta a Senhora Giorgianni. “Esta é uma enorme  questão  — mesmo para além do caso  individual de um  pensionista que perdeu tudo.

Um olhar para a situação-

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James Politi em  Roma e  Rachel Sanderson em  Milão, Financial Times, Renzi faces political backlash over Italian banks’ rescue. Texto disponível em:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/cec1f9da-9f4b-11e5-8613-08e211ea5317.html#axzz40GbV6xfK

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