
Ainda não comecei a meter todos os livros que ainda pulam pelas livrarias e mesas, agitados como criaturas vivas, ou se agacham nos cantinhos emboscados. Literatura, história, arte, geografia, biografia, ensaio, os livros em inglês, francês, japonês, chinês e de viagens da minha mulher, manuais profissionais diversos (ai, tantas voltas curriculares de ambos), gramáticas em línguas várias, os livros infantis e os livros a sério.
Mas já há mais de vinte caixas que foram colonizando o corredor depois da última ida e volta deslocados por outros e que não encontraram ubicação. Colonialismo, anti-colonialismo, neo-colonialismo, imperialismo, nacionalismo. Livros sobre livros, imprensa, editoras, história da Galiza, linguística e sócio-linguística, nacionalismo, história cultural, que não tinham utilidade imediata.
Tenho livros, uma outra pequena biblioteca na casa dos meus pais na Crunha, livros de história, livros de e sobre literatura galega, os ensaios sobre a Espanha republicana, mais história, mais romance, mais poesia, os livros da carreira, uma parte dos que vieram de Montevideu, e boa parte dos usados para a Tese. Os livros dos caminhos, hoje por hoje, abandonados.
É curioso contemplar em perspectiva os livros acumulados e os extraviados entre duas casas, e vidas. Conformam as camadas dos meus anos e interesses. Os de fantasia e romance gótico, juntados pelos meus vinte anos, os textos e ensaios das literaturas medievais que sempre me interessaram e que quase definem a minha escolha académica. A literatura galega e a sua história e crítica, especialmente a anterior aos anos 80 do século passado, em todo género e ensaio; livro português, mas nem tanto; clássicos da literatura castelhana, livros referidos à Galiza e de autores galegos em língua castelhana ou galega; livros de temática e história local.
Biografias, ensaios, epistolários e livros diversos, do que poderíamos chamar o “contexto republicano” com livros de fins do XIX e primeiras décadas do XX. Antigaleguismo, antirregionalismo e franquismo galego, por pura perversidade e por contrastar. E caixas com folhetos, fotocópias, recortes de imprensa e cadernos escritos de mão da época anterior à informática e as redes.
Os clássicos de novo; ingleses e franceses, em língua original e traduzidos em castelhano e português, em boas edições e encadernações; livro português do século XX, livros galegos editados na Argentina nos anos 40 e 50 desse mesmo século, algum livro de literatura em catalão contemporâneo, mais livros galegos até os anos 80. Livros de “Avançada republicana” e das grandes editoras espanholas dos 20 e 30. Romances de fantasia, aventuras e ficção científica em inglês. Livro de bolso variado. Livros escritos ou ofertados pelas amizades. Livros de carpintaria, encadernação, tipografia, cartografia. Algum livro velho e pequenas obsessões temáticas ou autoriais recorrentes.
Suponho que desde que a realidade me confirmou que não hei de voltar para a Galiza, refugio-me mais e mais na minha biblioteca particular e também nas minhas ferramentas manuais de carpintaria. Estaria bem dispor de espaço para libertar as pequenas criaturas das suas gaiolas de cartão e da sobrepressão e duplas filas nas estantes e ver como conformam os ecossistemas associativos em diálogo com a minha cabeça e ânimo.
E, não, não… não gosto de e-book. Gosto de ter um bom livro nas mãos: um livro bem impresso, bem cosido, de um tamanho adequado e a poder ser numa cómoda e sólida encadernação. Chifraduras bibliográficas aparte, um livro é muito mais que um texto, cada um é um objeto cultural e um elo com nós próprios, com a tradição que escolhemos e com o nosso contexto, dialoga – só com este gesto de o tirar dentre outros – com a nossa memória e trajetória e reflete o jeito em que se organiza o nosso pensamento.
