A GALIZA COMO TAREFA – livros – Ernesto V. Souza

LIVROSPara finais de abril, estaremos mais uma vez de mudança. Não sei quantas vão nestes 15 últimos anos de vida nômade, mas nenhuma tão completa como esta. Deixamos o velho apartamento base e imos para outro novo.

Ainda não comecei a meter todos os livros que ainda pulam pelas livrarias e mesas, agitados como criaturas vivas, ou se agacham nos cantinhos emboscados. Literatura, história, arte, geografia, biografia, ensaio, os livros em inglês, francês, japonês, chinês e de viagens da minha mulher, manuais profissionais diversos (ai, tantas voltas curriculares de ambos), gramáticas em línguas várias, os livros infantis e os livros a sério.

Mas já há mais de vinte caixas que foram colonizando o corredor depois da última ida e volta deslocados por outros e que não encontraram ubicação. Colonialismo, anti-colonialismo, neo-colonialismo, imperialismo, nacionalismo. Livros sobre livros, imprensa, editoras, história da Galiza, linguística e sócio-linguística, nacionalismo, história cultural, que não tinham utilidade imediata.

Tenho livros, uma outra pequena biblioteca na casa dos meus pais na Crunha, livros de história, livros de e sobre literatura galega, os ensaios sobre a Espanha republicana, mais história, mais romance, mais poesia, os livros da carreira, uma parte dos que vieram de Montevideu, e boa parte dos usados para a Tese. Os livros dos caminhos, hoje por hoje, abandonados.

É curioso contemplar em perspectiva os livros acumulados e os extraviados entre duas casas, e vidas. Conformam as camadas dos meus anos e interesses. Os de fantasia e romance gótico, juntados pelos meus vinte anos, os textos e ensaios das literaturas medievais que sempre me interessaram e que quase definem a minha escolha académica. A literatura galega e a sua história e crítica, especialmente a anterior aos anos 80 do século passado, em todo género e ensaio; livro português, mas nem tanto; clássicos da literatura castelhana, livros referidos à Galiza e de autores galegos em língua castelhana ou galega; livros de temática e história local.

Biografias, ensaios, epistolários e livros diversos, do que poderíamos chamar o “contexto republicano” com livros de fins do XIX e primeiras décadas do XX. Antigaleguismo, antirregionalismo e franquismo galego, por pura perversidade e por contrastar. E caixas com folhetos, fotocópias, recortes de imprensa e cadernos escritos de mão da época anterior à informática e as redes.

Os clássicos de novo; ingleses e franceses, em língua original e traduzidos em castelhano e português, em boas edições e encadernações; livro português do século XX, livros galegos editados na Argentina nos anos 40 e 50 desse mesmo século, algum livro de literatura em catalão contemporâneo, mais livros galegos até os anos 80. Livros de “Avançada republicana” e das grandes editoras espanholas dos 20 e 30. Romances de fantasia, aventuras e ficção científica em inglês. Livro de bolso variado. Livros escritos ou ofertados pelas amizades. Livros de carpintaria, encadernação, tipografia, cartografia. Algum livro velho e pequenas obsessões temáticas ou autoriais recorrentes.

Suponho que desde que a realidade me confirmou que não hei de voltar para a Galiza, refugio-me mais e mais na minha biblioteca particular e também nas minhas ferramentas manuais de carpintaria. Estaria bem dispor de espaço para libertar as pequenas criaturas das suas gaiolas de cartão e da sobrepressão e duplas filas nas estantes e ver como conformam os ecossistemas associativos em diálogo com a minha cabeça e ânimo.

E, não, não… não gosto de e-book. Gosto de ter um bom livro nas mãos: um livro bem impresso, bem cosido, de um tamanho adequado e a poder ser numa cómoda e sólida encadernação. Chifraduras bibliográficas aparte, um livro é muito mais que um texto, cada um é um objeto cultural e um elo com nós próprios, com a tradição que escolhemos e com o nosso contexto, dialoga – só com este gesto de o tirar dentre outros – com a nossa memória e trajetória e reflete o jeito em que se organiza o nosso pensamento.

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