A GALIZA COMO TAREFA – cerco – Ernesto V. Souza

Podia ser a vida outra. Também podia ser segunda, mas é quinta, julho e 2022. O viageiro está desconfortavelmente instalado na estação de comboios de Madrid Chamartin. Tem duas horas de espera e nenhuma possibilidade de trocar a hora da passagem.

Dá em pensar no deterioro e na desorganização crescente do serviço, acentuado pelo calor, as obras e a muita gente que circula nestes dias. Nem há bancos avondo para a gente se sentar, nem muita cafetaria onde escolher. Nenhuma aliás confortável, caríssimas, lotadas e com pouca qualidade. Quem espera desespera e nada ganha com estes pensamentos e constatação de uma loucura desorganizativa endémica e longe das suas responsabilidades.

Madrid arredor é uma cidade inabitável. A matar tempo caminha na procura de uma livraria que conhece de internet, a uma meia hora. E por uma cerveja sem sabor a gordura, carros, gente, obras e asfalto; em algum outro lugar. Mais de vinte minutos a caminhar por ruas das que não gosta, com a temperatura a se elevar.

Infelizmente a livraria está fechada por férias. De jeito que o narrador para numa cervejaria que encontrou com algo de espaço e luz. Uma raridão nestas ruas loucas, na hora do almoço laboral executivo. Madrid é um fervilhar de formigas trajadas. Supõe que um par de horas antes encontraria os de faco macaco. Profissionais comendo lixo, sós ou em grupos, entre um assalto e outro da jornada laboral.

Sorte o explorador sempre carregar um livro, quando viaja. Nesta ocasião a História do Cerco de Lisboa. Apanhou há uns dias, de acaso, na biblioteca pública, nas três prateleiras de língua portuguesa que há. Na realidade entrara por um DVD da fabulosa e já arqueológica coleção da Biblioteca. É um livro que não tem na casa. Teve e leu. Seguramente emprestou e alguém fugiu com ele. Tenham amigos.

Relê, como se fosse um livro novo. Lembra vagamente o corretor. Quando leu há umas três décadas o cinquentão narrado parecera-lhe uma personagem cansa, a deixar-se levar pela velhice, envolvido numa sorte de última oportunidade.

Agora diria que é mais que possível que o leitor-viageiro seja mais velho que a personagem. Mas o narrador narrado, continua a se fazer muito velho. Talvez o viageiro inocente não acredita no muito que o tempo o tenha também estragado.

Por maldade, a vidraça e espelho da parede do bar, porém, refletem para comprovar. Seguramente é tão velho como o Raimundo, porém não tinge os cabelos. O viageiro tem poucos cabelos brancos e gasta ainda caracóis. O corpo, de ventre um bocadinho avultado, e o olhar revelam mais a idade.

Depois da cerveja virá a volta, um outro café e o comboio, acompanhados pelo livro e algumas reflexões. O pensamento esse sim está canso e vai-se fazendo com pasmosa facilidade à narrativa desencantada do Saramago.

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