
Analisemos filosoficamente a dor, pra ver quão falsa é a doutrina do ascetismo: há dois tipos de dor, a física ou do corpo e ador psicológica ou da alma. Suponhamos que um indivíduo esteja em doce momento de lazer, sonolento, com os olhos semicerrados e que dele se aproxime alguém que, desejando pregar-lhe uma peça, encoste em seu braço desnudo uma brasa. O que acontece? Imediatamente, a pessoa que estava distraída retira o seu braço num ato reflexo. Por que? É evidente que o retira porque sentiu dor. E se não a tivesse sentido? Ora, teria permanecido imóvel e seu braço sido queimado. Portanto, a dor corporal nada mais é do que uma advertência de que algo está errado e precisa ser corrigido. O corpo humano, tão perfeito, não foi criado para continuadamente sentir dor, nem para sofrer. Se padecemos fisicamente é porque algo de maléfico ou antinatural está atentando contra a nossa integridade.
Da mesma forma que a dor física, a dor psicológica é também um aviso de que alguma coisa está errada. Por exemplo, lembremo-nos que as palavras são um meio imperfeito de comunicação, sendo preciso fixar-se no sentido que elas encerram e não nas palavras em si, para poder entender. Imaginemo-nos em um grupo, conversando com vários amigos e que, em determinado momento, alguém desse grupo tece elogios merecidos a outra pessoa ali presente. Se nos sentimos magoados com isso e sofremos, é porque nosso interior se acha maculado pela inveja. Basta, então, mudarmos nossa atitude mental, eliminando o despeito e substituindo-o por amor a essa criatura para que a dor despareça, ressurgindo o contentamento. Amiúde, uma grande dor, aparentemente sem sentido, tem uma finalidade construtiva que, com frequência, a revolta momentânea não deixa perceber. Tudo dica difícil de entender para quem se encontra sob impactos emocionais violentos, mas quando se dissipam as frustrações e se desfazem as turvações da mente, então tudo se torna claro. Dor, portanto, é alarme, tendo a função precípua de preservar a integridade do organismo ou de promover o desenvolvimento pessoal; porém, não é a dor, em si, que faz aperfeiçoar, mas as lições que dela se tira. Se não houvesse este aviso, não poderia o corpo sobreviver, nem a personalidade-alma evoluir, já que o corpo é o templo da alma, o instrumento do espírito e dele devemos cuidar. Quando assim não se faz, surgem o desgaste prematuro, o sofrimento e a morte precoce.

