«A DOR» – por Carlos Reni da Silva Melo

contos2 (2)Durante muito tempo algumas religiões pregaram que a dor era necessária e inevitável, que este mundo era “um vale de lágrimas” e que, quanto mais a pessoa sofresse, tanto mais se purificava, tendo surgido daí uma doutrina da apologia da dor, conhecida ASCETISMO. Os ascetas mortificavam-se, produziam ferimentos em seus corpos e se torturavam com sofrimentos de toda a espécie, acreditando que, assim, mais facilmente chegariam à perfeição. O próprio BUDA, antes de atingir a Iluminação, passou deliberadamente por tais provas, nada tendo conseguido com isso, conforme ele mesmo declarou.

 Analisemos filosoficamente a dor, pra ver quão falsa é a doutrina do ascetismo: há dois tipos de dor, a física ou do corpo e ador psicológica ou da alma. Suponhamos que um indivíduo esteja em doce momento de lazer, sonolento, com os olhos semicerrados e que dele se aproxime alguém que, desejando pregar-lhe uma peça, encoste em seu braço desnudo uma brasa. O que acontece? Imediatamente, a pessoa que estava distraída retira o seu braço num ato reflexo. Por que? É evidente que o retira porque sentiu dor. E se não a tivesse sentido? Ora, teria permanecido imóvel e seu braço sido queimado. Portanto, a dor corporal nada mais é do que uma advertência de que algo está errado e precisa ser corrigido. O corpo humano, tão perfeito, não foi criado para continuadamente sentir dor, nem para sofrer. Se padecemos fisicamente é porque algo de maléfico ou antinatural está atentando contra a nossa integridade.

Da mesma forma que a dor física, a dor psicológica é também um aviso de que alguma coisa está errada. Por exemplo, lembremo-nos que as palavras são um meio imperfeito de comunicação, sendo preciso fixar-se no sentido que elas encerram e não nas palavras em si, para poder entender. Imaginemo-nos em um grupo, conversando com vários amigos e que, em determinado momento, alguém desse grupo tece elogios merecidos a outra pessoa ali presente. Se nos sentimos magoados com isso e sofremos, é porque nosso interior se acha maculado pela inveja. Basta, então, mudarmos nossa atitude mental, eliminando o despeito e substituindo-o por amor a essa criatura para que a dor despareça, ressurgindo o contentamento. Amiúde, uma grande dor, aparentemente sem sentido, tem uma finalidade construtiva que, com frequência, a revolta momentânea não deixa perceber. Tudo dica difícil de entender para quem se encontra sob impactos emocionais violentos, mas quando se dissipam as frustrações e se desfazem as turvações da mente, então tudo se torna claro. Dor, portanto, é alarme, tendo a função precípua de preservar a integridade do organismo ou de promover o desenvolvimento pessoal; porém, não é a dor, em si, que faz aperfeiçoar, mas as lições que dela se tira. Se não houvesse este aviso, não poderia o corpo sobreviver, nem a personalidade-alma evoluir, já que o corpo é o templo da alma, o instrumento do espírito e dele devemos cuidar. Quando assim não se faz, surgem o desgaste prematuro, o sofrimento e a morte precoce.

1 Comment

  1. Mais um ensinamento deixado pelo meu Amigo Carlos Reni, desta feita sobre a dor física e d’alma.
    A física sempre é atual e podemos procurar atenuá-la. A d’alma requer um tratamento mais difícil, uma vez que ela está arraigada a um passado que jamais é escrito a lápis; sempre à tinta indelével que não aceita rasuras.
    Aplausos efusivos ao mestre articulista.

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