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LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU/4 – por Maria Estela Guedes

Imagem2Não existe exotismo em Abdulai Sila. O que seria o exotismo nele? Introduzir pinguins e cedros do Líbano na descrição? Endotismo, sim, recurso ao mundo da physis, com os seres vivos comuns na Guiné-Bissau, para integração nele das personagens e do que relatam.

E no entanto Mistida é uma obra profundamente exótica, no sentido de estranha e rara, no sentido de fantástica, diversa de nós e por isso outra. Porém esse exotismo, a que mais vale chamar originalidade para evitar a confusão, essa originalidade situa-se no registo mental, motor da efabulação e dos comportamentos bizarros das personagens, e não na descrição de exteriores, tão endótica que pode transformar a acumulação de lixo na imagem de uma nação desvairada.

As personagens e situações de estirpe surrealista, ou kafkiana, denunciam em Abdulai Sila a mais colossal deceção pelo facto de um jovem Estado, a Guiné-Bissau, ter degenerado ao ponto de se tornar simplesmente um estado, um estado caótico, de falta de honra e de respeito, de falta de união, de todas as faltas. Apesar disso, sobra um esplendor de esperança, a de ver casados, em paz e harmonia, o sol e a lua, a urina e a seiva do cajueiro. Porque sol e lua, homem e “tchon”, estão desavindos na Guiné, o livro representa um forte libelo contra a prepotência, o poder que alcançam as personagens, mesmo de estrato social carente dele, como as prostitutas, e as embebeda. Ocasionalmente, com esse poder inebriante convencem-se de ser capazes de “safar a sua mistida” (desenrascar-se de uma situação complicada). Todas as narrativas terminam com a referência a uma mistida que é preciso safar, donde é problemático o país a que se referem as histórias. De outra parte, como refere Moema Parente Augel em O desafio do escombro, “mistida” pertence à família do verbo “misti”, querer, desejar. Então o título também aponta para algo que na cultura portuguesa seria encarnável na figura sebastiânica do Desejado. Em Abdulai Sila, a Desejada é certamente uma Guiné-Bissau em bom ritmo de construção, na qual reinem as leis e a paz.

Em Março de 1997, informa Russel G. Hamilton, altura em que Mistida foi dado à estampa, era presidente da República Nino Vieira. Pouco tempo depois, seria afastado. Sendo pela terceira vez presidente da República da Guiné-Bissau, a 2 de Março de 2009, Nino Vieira foi abatido à catanada, e esquartejado a seguir, na maior cena de barbárie que se possa imaginar. Alguns atribuem-lhe a responsabilidade pelo assassínio de Amílcar Cabral, o líder pioneiro do movimento pela independência, pessoa em quem confluíam as esperanças de nascimento de uma nação africana modelar. De temperamento oposto ao de Amílcar Cabral, um intelectual, e um poeta, Nino Vieira deve ter sido a principal mola da guerra civil, e da ruína em que caiu a Guiné-Bissau, hoje pasto de militares e políticos ensandecidos pelo narcotráfico.

Vendo a literatura bissau-guineense tão embrenhada na conjuntura política, não espanta que o veio fantástico e dramático de Mistida lhe esteja associado também. Existe em Abdulai Sila uma grande capacidade de simbolizar a partir das situações e comportamentos expostos nas narrativas.

Exótica, então, neste contexto, é a manifestação de esperança no meio de tão endótico desespero. Claro que a esperança é experienciável por outros povos; nós, portugueses, até a manifestamos em domínios míticos como o sebastianismo. Todos os povos têm obras messiânicas, a esperança é tão cosmopolita como os hibiscos e as garças boieiras. Acontece no entanto que a esperança, na literatura da Guiné-Bissau, não se dimensiona espiritualmente como messianismo nem como utopia, ela está imersa na realidade da vida quotidiana. Os escritores, as personagens, e por extensão as pessoas, não se demitem de poder safar a sua mistida. Os escritores bissau-guineenses agem na consciência de estarem a fazer alguma coisa neste instante. Alguma coisa que os põe em risco, que exige uma dinâmica de heroísmo eventualmente sem ponto de retorno.

 

Esta esperança viva usa a literatura como arma, à boa maneira dos neorrealistas e dos surrealistas. Por isso não se trata de um tema literário desvinculado da luta real, sim de uma tarefa de construção dos fundamentos culturais e morais da pátria. Nesse aspeto, é bem distinta da nossa esperança quieta, própria de gente cética, que espera por milagres, ajoelhada aos pés de S. Sebastião.

 

 

 

 

 

 

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