LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU/3 por Maria Estela Guedes

logótipo estela2 – Endotismo em uma sequência narrativa de Abdulai Sila

Para abreviar, são poucas as espécies endémicas da Guiné-Bissau (espécies estritamente bissau-guineenses, inexistentes no Senegal ou na Guiné-Conakri). Dado país partilha flora e fauna com os que, como ele, fazem parte da mesma região biogeográfica. De outra parte, certo elemento da fauna ou da flora africana é integrado na literatura por motivos diversos: o escritor africano, pela sua presença comum, familiar, digamos então que endótica; o autor europeu, por o sentir diferente das árvores europeias, portanto capaz de deslumbrar pelo exotismo os leitores europeus.

A maior parte dos representantes do mundo natural que os escritores buscam nomear em função da sua iconicidade – cajueiros, mangueiros, palmeiras, baobás -, para ficarmos pela Guiné-Bissau, não são espécies indígenas, isto é, elas não apontam a especificidade da flora africana, e ainda menos nacional. Trata-se de espécies de larga distribuição geográfica ou mesmo de espécies cosmopolitas, aquelas cujo valor para a ciência fundamental mais se aproxima de zero. Um escritor da Guiné-Bissau como Abdulai Sila, que começa Mistida com a cena do Comandante a urinar contra o tronco de um cajueiro, não o afirma, mas podia afirmar que essa árvore é exótica. Realmente a maior parte das árvores de fruto africanas, tal como diversas plantas de valor comercial, como a cana sacarina, foram introduzidas, e a sua pátria de origem é muitas vezes a Ásia.

Tudo isto para reafirmar que o modelo de leitura assente no conceito de exotismo não produz ideias claras em análise literária, nem sequer considerando que o seu conteúdo é apenas um Eu em face de um Outro. Exótico é o Outro, o desconhecido, aquele que dado Eu pretende seduzir ou dominar, aquele que certo Eu exibe como sinal de ostentação e riqueza. Ora, mesmo que Abdulai Sila tivesse optado pelo cajueiro e não pelo poilão – a Ceiba pentandra deve ser uma espécie africana[1] – por saber que o cajueiro tanto é próprio da África ocidental como da América, em suma, por o cajueiro ser sentido como espécie estrangeira e quase cosmopolita, jamais o autor, acredito bem, usaria no livro essa espécie por causa da ornamentalidade, da raridade, e menos ainda por lhe conferir sinais de ostentação e riqueza. Pelo contrário: tomou o cajueiro por ser uma árvore de fruto comum, familiar, quem sabe se por ter um no seu quintal. Quem sabe se por o fruto ser sumarento, evocando por isso outros líquidos corporais, aquela urina que escorre pela perna do Comandante, e se torna exótica, ela, sim, porque, em situação de realismo, a urina não escorre de maneira tão abundante pelas pernas, nem forma na terra regatos e lagoas a que, para cúmulo, se assinala um “caudal”:

Abstraindo-se daquela tarefa rotineira, começou a entoar uma canção antiga, marcando o ritmo com a cabeça, que lançava em direcção a um e ao outro ombro. As palavras alternavam com os sons alegres do assobio até o momento em que sentiu algo mover-se devagarinho junto à planta do pé direito.

– Filho da puta! – exclamou em voz alta, ao mesmo tempo que dava um salto ágil para trás, molhando a perna com a urina. Instantes depois a expressão de espanto que se desenhara no seu rosto tinha sido substituída por um misto de alegria e surpresa. Olhou para o pénis e depois para o caudal que corria da base do cajueiro até ao sítio onde tinha o pé. Aí o líquido ia-se juntando, formando uma espécie de lagoa onde os pedaços de folhas secas do cajueiro se moviam como canoas abandonadas no alto mar.

Levantou o pé descalço do chão e sacudiu-o. Por uns momentos imaginou o que seria se tivesse sido aquilo que tinha pensado. “Mas que merda de cobra iria querer guerrear tão cedo?”, interrogou-se a si mesmo, esquecendo essa hipótese. Fixou a atenção no líquido que se ia aglomerando no mesmo sítio. Olhou para o pénis, que ainda tinha na mão, e depois para o tronco do cajueiro, para o sítio onde dirigira o jacto de urina. Estupefacto, constatou que continuava a correr, sob as folhas secas do cajueiro, um fio de líquido que ia até ao local onde tivera o pé. Sacudiu o pénis várias vezes como se sacode uma mangueira para dela sacar as últimas gotas, meteu-o dentro das calças e fechou os botões. Abanou a cabeça e retomou a canção. Afastou-se lentamente.

Noutras circunstâncias a sua reacção seria, de certeza absoluta, diferente. Iria muito provavelmente averiguar donde vinha tanto líquido, pois estava mais do que certo que aquilo não era tudo dele. Afastaria as folhas secas uma a uma até descobrir a origem. E se não concordasse com a mistura iria tomar medidas, medidas imediatas e drásticas, para separar as partes. Podia-se até admitir a hipótese de arrancar as raízes do cajueiro, uma a uma, caso desconfiasse que era alguma delas que andava a mijar aquele liquido parecido com o seu. Mas se concordasse com a união, seria capaz de passar ali o dia inteiro a mijar, a beber e a mijar, até a outra parte se convencer de que ele era o mais forte e sabia como impor o que queria.

Juntou duas grades vazias da CICER que jaziam ao lado da entrada e sentou-se em cima. Hesitava entre voltar para o interior e ficar onde estava, a apreciar a melodia matinal dos pássaros. Sabia que nem uma nem outra opção lhe dava o que mais ambicionava. Ambição? Teria ainda alguma?

 mapa guiné-bissau

 

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