LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU/5- por Maria Estela Guedes

na kafe

ku sintidu

na utru mundu

 

alma di poeta

kamba mar

 

amor di tejo

mansirka di um beiju bedju

 

Ndongle Akudeta[1]

 

De várias maneiras podemos orientar a literatura da Guiné-Bissau em relação aos ponteiros da bússola exótica e endótica. Entre elas, anotar que poetas como Tony Tcheka e Francisco Conduto de Pina se referem a um 25 de Abril potencialmente exótico, ou passível de assim ser considerado no futuro – por mim, agora… – Porquê? Imagem2Porque à distância de tantos anos já nos custa imaginar que nas suas mentes existisse um sentimento de irremediável pertença à nacionalidade portuguesa. Pelo menos creio que a aspiração à própria nacionalidade guineense fosse mais forte, e vissem nos cravos da revolução uma esperança de liberdade também para eles. Receio que os intelectuais sentissem revolta por estarem obrigados a uma nacionalidade europeia, estranha à sua vinculação à terra e à língua maternas. De outra parte, olhando para postos de cúpula, fica patente que muitos dos que podiam ocupá-los, ou continuar a assegurar serviços, deixaram a Guiné para se fixarem em Portugal e noutros países europeus. Assunto demasiado complexo para analisar aqui, dada a existência na Guiné-Bissau de diversas origens para os seus habitantes, desde Cabo Verde à Síria e ao Líbano, sem falar em Portugal e em expatriados da Alemanha nazi e outros países europeus que sofreram a guerra. Em todo o caso, essa complexidade existe como drama de fundo na literatura, e é ela quem terá de a resolver em sentimento de identidade.

“O dia azul / tecido de cravos vermelhos/ crepita na terra”, de Conduto de Pina, documenta pela via simbólica um acontecimento histórico decerto estrangeiro, por muito que o poeta tenha sido sua testemunha, pois na altura estudava em Lisboa. É um momento esfuziante para ele, atendendo a que na raiz da metáfora do azul e do crepitar se entrevê a expressão crioula que manifesta alegria – Sol na iardi (arde, brilha o sol). Tony Tcheka, situando-se na Lisboa antiga, adere ao movimento revolucionário, que sente seu. De modo geral, os poetas estabelecem relações afetuosas com o ex-colonizador, sem esquecer os danos causados. A sua maior hostilidade dirige-se para o que hoje mais ameaça o jovem país, quer os conflitos com nações fronteiriças, como tem sido o caso do Senegal, quer as fragilidades causadas pela desordem das forças internas. Em cima dos acontecimentos, não se suporia talvez que o seu desenrolar envolvesse as independências das colónias africanas. Nesta consciência podia enraizar-se um choque identitário, abrir-se um fosso que exigisse opção por uma nacionalidade. De qualquer modo, o maior choque vem posteriormente, depois da independência, quando as promessas se esboroam, a democracia se projeta num horizonte utópico e a única realidade palpável é q catástrofe. Então o 25 de Abril passa a ser (como em Portugal, não?) a imagem da “flor sahel” de Tony Tcheka, uma flor do deserto, frágil, dificilmente atingível, de beleza imaterial. Míticas edelweiss, míticos cravos, imagens edénicas da alma mais do que representações botânicas.

Na Antologia Poética da Guiné-Bissau, Manuel Ferreira, prefaciador, refere o caso de Carlos Alberto Alves de Almada, por aludir igualmente ao 25 de Abril, e também ele pela via simbólica dos cravos – flores exóticas na Guiné-Bissau, admitindo que lá se cultivem. Almada escolhe a carta para evocar a revolução.

A epistolografia, para além de género literário, é esteio dramático em culturas com forte impacto de diáspora e exílio, como é o caso da bissau-guineense e da caboverdiana. E também da nossa cultura portuguesa, já que também somos país de expansão, exílio e emigração, e fomos, como outros, espaço de cultura que mantinha os enamorados à distância do encontro físico, o que excita, pelo menos nos mais letrados, o recurso à mensagem escrita. O namoro de janela de que tão bem fala Júlio Dantas estabelece outro tipo de comunicação, gestual e não escrita, entre o dentro e o fora, a menina em casa, e o rapaz em baixo, na rua, ambos a reclamarem contra essa ideia fixa do endótico e do exótico, segundo se espera.

[1] Em:  http://djambadon.blogspot.com/

mapa guiné-bissau

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