A famosa pergunta, feita na voz rouca de Baptista-Bastos, incide mais sobre o estar moral, ideológico, do que no estar fisicamente. Já respondi uma ou duas vezes, mas um dos privilégios dos velhos é contarem como novidades, factos que já contaram e recontaram. E eu não gosto de abdicar dos meus direitos. O meu 25 de Abril foi assim.Com o meu compadre Joaquim Reis na Rua Garrett. Os blindados de Salgueiro Maia, no seu caminho para o Largo do Carmo, fizeram uma breve paragem. O pessoal do Jerónimo Martins veio com caixas de frutas e outros alimentos para erem distribuídos pelos soldados que desde a véspera nada tinham comido. Com o Camecelha, o Reis e muitos outros populares, percorremos a coluna, distribuindo sobretudo laranjas.
Vivia num bairro da Parede. Na campanha das legislativas de 1973, quando no Congresso Nacional realizado num pinhal perto da Praia de Santa Cruz se deu a cisão no MDP- CDE entre pecepistas e os militantes da chamada extrema-esquerda, nas noites de sexta-feira, um grupo local de dissidentes reunia numa garagem na Rua de Silves; gente que depois se espalhou o MES, LCI, PRP… Após as reuniões, um pequeno grupo ia até casa do Joaquim Reis, um segundo andar defronte da garagem. Bebia-se um copo e aparecia um vizinho e reunia-se a nós o jornalista Avelino Rodrigues que, bem informado, nos punha ao corrente da evolução do MFA. Apesar da informação privilegiada fui apanhado de surpresa. Naquela quinta-feira acordei à hora habitual. Cerca das sete, quando saímos, uma vizinha, disse-nos que estava a dar-se um golpe militar em Lisboa e que os comunicados mandavam as pessoas ficar em casa. Minha mulher ficou com os filhos que também não iriam à escola. Levei o carro até São Pedro e tomei o comboio. Nada de estranho pelo caminho. Na 24 de Julho alguns carros da polícia. Do Cais do Sodré para o escritório fui num táxi. O motorista disse-me que o Terreiro do Paço estava cheio de tanques e auto metralhadoras. Subiu a Rua do Alecrim, depois a da Misericórdia. Pôs a hipótese pessimista de que fosse um golpe do Kaúlza, mas eu tinha esperança de que fosse o movimento de que o Avelino nos falava. No cruzamento da António Augusto de Aguiar com a Marquês de Fronteira, uma auto-metralhadora e policia militar a dirigir o trânsito. O Quartel general (a poucos metros estava cercado). No escritório deserto liguei a rádio. Ao quarto para as nove ouvi o comunicado do MFA – «As Forças Armadas iniciaram uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina». E avisava as forças policiais de que qualquer acção hostil seria repelida severamente. Pedia à população para se manter calma e recolhida em suas casas. Era mesmo o tal movimento. Chegou o Luís Rocha, o argonauta que nos faz a «Revista da semana».director administrativo da editora. O pessoal foi aparecendo e mandámos todos para casa. Telefonei a dois «conjurados», Ao Jaime Camecelha, já falecido, meu amigo de infância(um irmão) e primo do general Pezarat Correia, e ao meu compadre Joaquim Reis, também falecido. Começámos a percorrer a cidade. Depressa tivemos um retrato da situação. Depois do meio-dia acompanhámos a coluna que subiu a Rua do Carmo e a Garrett na direcção do Largo do Carmo.
Passava do meio-dia. Subimos a Rua da Misericórdia. Camiões despejavam soldados da GNR. postavam-se ao longo da Rua da Trindade -forças fiéis ao governo. Um cabo pediu-nos tabaco. Demos-lhe um maço e aproveitámos para conversar. Tinha mais de quarenta anos. Dissemos-lhe que o MFA ia triunfar e que não merecia a pena ele e os colegas sacrificarem as vidas. Concordou, tinha mulher e filhos. Mas tinha que obedecer a ordens. Um sargento a poucos metros ouvia a conversa – quando nos despedimos, cumprimentou-nos, sinal de que não discordara dos nossos conselhos.
No Largo do Carmo, apinhado de gente, ocorreram as cenas que são conhecidas com milhares de pessoas, uma multidão inconsciente (nó os três incluídos) que assistia a um empolgante episódio histórico em directo; melhor do que através da televisão… mas muito mais arriscado. Se a GNR tem resistido, haveria muitos mortos. Os lisboetas têm uma longa tradição de curiosidade colectiva. Imagina-se facilmente, ajudados pela vivaz linguagem deFernão Lopes aquele dia de Dezembro de 1383, em que o Mestre de Avis e o seu partido (liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, concitaram o apoio do povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem quefosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim». O povo corria de um local para outro para não perder pitada do que se estava a passar. O pior foi quando o Mestre e o seu partido quiseram que todos fossem para suas casas. Está bem está! A revolução estava em marcha e os mestres e homens bons já nada podiam fazer…
Naquela tarde de Abril, quase seis séculos depois, foi em vão que os apaniguados de Spínola quiseram assumir o controlo da situação. Salgueiro Maia fez o que nós, a multidão, queríamos que ele fizesse. O canhão trovejou, pontaria alta, intimidatória, sinal de que «os nossos» não estavam a brincar. Sem saber como ali fui parar, encontrei-me sob um banco de pedra. Nem Luís de Matos, nem David Copperfield, teriam feito melhor – milhares de espectadores escondidos sabe-se lá onde… Todos sabemos como foi depois até ao epílogo com a saída de Caetano e dos ministros que estavam acoitados no Quartel do Carmo.
Descemos até ao Rossio. Entardecia e fomos para minha casa no carro do Jaime. Na Praça do Município, cruzámo-nos com um grupo de guardas do Corpo de Intervenção, com o capitão Maltês a comandá-los. Afastaram-se para nos dar passagem. Pareciam zombies. Em minha casa havia muita gente – improvisou-se um jantar e ficámos presos à televisão até que, já nas primeiras horas do dia 26 apareceu a Junta e o seu comunicado. O Reis, alentejano e sempre irónico, comentou – «Porra! Que mau aspecto!». Era verdade. E, entre comentários jocosos e copos, lá ouvimos a proclamação da Junta de Salvação Nacional.