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EDITORIAL: Fé ou superstição?

logo editorialAmanhã, mais um 13 de Maio, mais uma peregrinação a Fátima. Centenas de milhares de pessoas aglomeram-se numa pequena cidade – levadas por que motivação? Fé? A fé, seja num deus, seja num ideal, tem um suporte racional – ter fé em que o futuro da humanidade pode ser melhor, embora possa conter alguma ingenuidade, tem a consistência que lhe é dada pelos avanços da ciência e da tecnologia. Ter fé em que um ídolo resolva um qualquer problema pessoal é perfeitamente disparatado. Deus, ou um qualquer santo por ele, não se preocupam que um sismo mate dezenas de milhares de pessoas, mas vai curar uma qualquer maleita de um qualquer ser, tão digno de respeito como uma só das vítimas de uma calamidade. Faz sentido?

O truque é sempre o mesmo – o inquirido, seja sobre os milagres de Fátima, seja pelo profundo peso da tradição dos touros de morte em Barrancos, sem explicação racional para a lógica e a justiça dos milagres ou para a transformação de uma barbaridade que começou em 1928 em tradição respeitável, abana a cabeça e diz «tu não podes compreender», como se na manobra política que esteve por detrás das «aparições» ou no prazer sádico de imolar um animal, houvesse alguma coisa para compreender.

O nosso querido Amigo Mário de Oliveira, prova em livros e artigos,  fruto de uma investigação cuidadosa, que tudo não passou de uma manobra para travar o crescente ateísmo, para afundar a jovem República, alimentando uma crendice endémica, anunciadora de salvadores da Pátria, sidónios e salazares que esconjurassem os ventos que, no meio de uma conjuntura internacional dramática, pareciam prometer ciclones demolidores da «ordem natural das coisas -os ricos nos palácios e palacetes e a gentalha nas alfurjas. E a estúpida manobra triunfou – cem anos depois, com uma percentagem residual de analfabetismo e 20% de pessoas com formação superior, com acesso permanente aos meios de informação, milhares  de peregrinos dirigem-se  Fátima. Sem esquecer a preocupação transcendente com o desfecho, no próximo domingo, do campeonato de futebol.

Claro, o nevoeiro alienatório não está todo nas lusitanas cabeças. Os ingleses formam aglomerações gigantescas, de madrugada, ao frio e à chuva, para ver passar o «bebé real»… Mas com o mal deles podemos nós bem.

 

 

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