
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Em Espanha, El Pacto- a repetição de Syriza
Billy Mitchell, Spanish El Pacto – Spanish El Pacto – A Syriza Reprise!
Billy blog, publicado em Monday, May 16, 2016 by bill
(continuação)
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A Esquerda Unida e a sua defesa do pleno emprego e contra a austeridade
Na semana passada apresentei a versão espanhola do meu livro – Eurozone Dystopia: Groupthink and Denial on a Grand Scale[1].
A tradução espanhola – Distopía del euro, La. Pensamiento gregario y negación de la realidad – está já à venda.
O texto da contra-capa, da autoria do parlamentar espanhol da Esquerda Unida Alberto Garzón e do seu irmão, o economista Eduardo Garzón, é um resumo do prefácio que escreveram para o livro:
Tenemos frente a nosotros un libro que nos brinda la posibilidad de romper con los viejos y absurdos esquemas mentales que la ideología neoliberal nos ha inoculado hasta la médula. Además nos permite conocer una nueva forma de entender la política fiscal y monetaria. En sí mismo este libro es una formidable herramienta para lograr la transformación social que necesitamos y alcanzar así mayores cotas de bienestar y de justicia económica y social
No prefácio mais detalhado dos irmãos Garzón de 3 páginas os seus autores indicam que aqueles que dentro Europa tem sido aprisionados pelos discursos neoliberais recentes em que continuamente se têm justificado os erros em série feitos pelas elites políticas, tal que só um outsider (no caso, um australiano como eu) pode cortar com a batalha mediática que o “projecto europeu” está a promover :
(“La exposición a este tipo de propaganda, erigida además sobre una simbología identitaria y pasional que conmueve a cualquiera, ha sido tal dentro de nuestras fronteras que ningún europeo puede realizar un análisis que no esté viciado de tales consignas … Por eso es más fácil y probable que los análisis más objetivos y serenos sobre la Unión Europea sean llevados a cabos por personas que no han estado expuestas a esa progresiva y paulatina contaminación cognitiva que hemos sufrido durante tanto tiempo.”.)
Em conclusão os irmãos Garzón chegam às seguintes conclusões :
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Eles compreendem e aceitam a análise de fundo a que agora chamamos a Moderna Teoria Monetária (MMT na sigla em inglês ):
Este particular enfoque analítico se conoce como Teoría Monetaria Moderna, y supone un cambio de paradigma interpretativo en tanto en cuanto le da la vuelta a la extendida forma de entender cómo funcionan los bancos comerciales y centrales, así como los déficit públicos.
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Eles aceitam que as regras orçamentais artificiais separadas no contexto dos objectivos reais que fazem progredir o bem-estar, tais como o pleno emprego, são susceptíveis de ser destrutivas e contraproducentes:
Acorde a este marco analítico, el dinero no es más que un invento del ser humano para facilitar las transacciones económicas, una herramienta de política económica que debe utilizarse por parte de los Estados soberanos sin absurdas cortapisas como los topes de déficits públicos o de deuda pública, aunque siempre con precaución y astucia para evitar consecuencias no deseadas.
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Eles claramente apoiam a politica de garantia de emprego como peça central na MMT:
De esta forma, la consecución del pleno empleo en un entorno de estabilidad de precios es un objetivo perfectamente factible a través de políticas de Trabajo Garantizado implementadas por un Estado europeo que no se ate inútilmente las manos a la hora de aplicar políticas de inversión pública.
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Eles propõem utilizar estas ideias para alargar a luta ao nível político para poder retirar o controle da tendenciosa austeridade aos neo-liberais e para restaurar a tomada de decisão democrática de modo a poder-se caminhar no sentido da prosperidade para todos:
La constatación de esta posibilidad técnica es crucial para convencer a la gente de que otra Europa, mucho más sana y democrática, es posible, y de la necesidad de dar la batalla en el terreno político para así arrebatarle a las élites económicas y financieras europeas los privilegios que el propio proyecto comunitario les confiere a costa del deterioro de los derechos económicos y sociales de la mayoría. Por eso tenemos frente a nosotros un libro que no sólo nos brinda la posibilidad de romper los viejos y absurdos esquemas mentales que la ideología neoliberal nos ha inoculado hasta la médula y de conocer una nueva forma de entender la política fiscal y monetaria, sino que en sí mismo este libro es una formidable herramienta para lograr la transformación social que necesitamos y alcanzar así mayores cotas de bienestar y de justicia económica y social.
Quando li o prefácio era impossível estar em desacordo com o que os irmãos Garzón escreveram.
Ao anunciar a sua candidatura para as últimas eleições nacionais (em Dezembro de 2015), Alberto Garzón disse à nação que o “Estado deve ser o garante do emprego” ” (EL Pais).
A garantia de emprego era “a proposta principal” que a Esquerda Unida defendeu nas últimas eleições e que era inteiramente consistente com o que escreveram na introdução ao meu livro.
Eu encontrei-me com Alberto no seu gabinete no Congreso de los Diputados (congresso dos deputados) ou Câmara Baixa do Parlamento espanhol em Madrid na quinta-feira passada para discutir várias questões políticas. Eduardo estava igualmente presente.
Foi uma reunião muito cordial, que decorreu alguns dias mais tarde depois da Esquerda Unida ter assinado o pacto com Podemos para as eleições gerais que irão decorrer a 26 de Junho de 2016.
Enquanto os assuntos deste blogue foram discutidos claramente, eu quero tornar bem claro que nada do que aqui escrevo reflecte as opiniões de Alberto ou de Eduardo expressas na reunião nem aqui se divulga qualquer informação confidencial que se tenha feito durante a nossa reunião pessoal. Nada de pessoal é pois aqui relatado.
Nada do que aqui escrevo tem a ver com informações confidenciais.
Se lerem a introdução espanhola ao meu livro e “El Pacto”, o acordo de coligação assinado na semana passada em Madrid, duas palavras me vêm à mente – preto e branco!
Então, se lerem El Pacto “, há mais duas palavras que me vêm à mente, Syriza 2015.
Mas antes de explorarmos um pouco mais estas quatro palavras, uma pequena digressão é necessária.
Podemos – então e agora!
Eu não penso ser necessário contar aqui a história do Podemos, qui surge do movimento Os Indignados de Espanha que mobilizou manifestações em massa através de toda este país em Maio de 2011. Uma história que consideramos conhecida.
Um recente artigo publicado por Marxist Left Review[2] (11, Verão de 2016) – Podemos and left populismo (Podemos e populismo à esquerda) – discute a forma como Podemos se transformou numa força conservadora que está a abandonar as suas raízes, as suas bases, e em que toda a sua direcção , de alto a baixo, procura satisfazer as suas ambições pessoais.
Falei com vários antigos membros activos do Podemos durante a minha estada em Espanha, que se mostram consternados com a forma como a liderança do Partido se tinha distanciado das suas bases e não só, que também se estava a movimentar e cada vez mais no sentido do consenso sobre a austeridade na zona Euro.
A Espanha está muito mal servida pelos movimentos tradicionais da classe trabalhadora. O seu movimento sindical abandonou a sua Carta de Princípios depois aceitando a imposição de austeridade neoliberal (inicialmente com as pensões de reforma em que aumentou a idade de passagem à reforma ) no início de 2011 imposta pelo então governo socialista (PSOE).
Esta rendição levou ao Acordo Económico e Social de 2011 para o Crescimento, Emprego e a Sustentabilidade das Pensões.
O Partido Socialista (PSOE) tomou o caminho dos seus congéneres na Europa e é agora abertamente neoliberal. É socialista apenas no nome e não tem qualquer semelhança com as instituições sociais-democratas de outrora. E é sob a ameaça de ser eliminado nas próximas eleições, em Junho – seguindo uma trajectória semelhante à do Pasok na Grécia, que é agora apenas uma pequeníssima amostra de partido político.
Enquanto a Esquerda Unida (que está dominada pelo Partido Comunista Espanhol) tem estado sempre e de forma consistente claramente em oposição à politica de austeridade não tem uma forte base de apoio embora tenha o potencial para a conseguir, o que é muito bom sobretudo dada a forma como Podemos se comportou ao longo dos últimos anos.
Mas em 2011 Podemos é formado a partir do movimento popular os “Indignados” que enquanto tal tinha organizado uma variedade de protestos públicos e de marchas por toda a Espanha contra a política de austeridade neo-liberal.
Trata-se de um novo tipo de movimento político, determinado a desembaraçar a Espanha da corrupção endémica entre os homens políticos tradicionais e os capitalistas e para dar a voz a milhões de pessoas que sabem agora que estavam a ser fortemente precarizados pelo sistema neoliberal enquanto eram ignorados pelos grandes partidos políticos.
Este partido igualmente expressou uma hostilidade profunda para com a esquerda tradicional na Espanha, incluindo a Esquerda Unida. O artigo de Marxist Left Review escreveu que “a influência autonomista” em Podemos:
… significa que o movimento mostrou uma hostilidade profunda para com a esquerda organizada que se aplicou até a alguns do mais organizados grupos anarquistas .
Um artigo do The Guardian naquele tempo (1º de Fevereiro de 2015) – 100,000 flock to Madrid for Podemos rally against austerity – disse que “los indignados ” eram “uma revolta espontânea de milhares de pessoas, acampando fora durante semanas e reagrupando-se contra o establishment político que era assim visto como estando totalmente deslocado ou dessincronizado das pessoas .”
Naquele tempo, Syriza não se tinha ainda rendido à “troika”, embora os presságios da capitulação estivessem a crescer fortemente. As manifestações de protesto na Espanha foram interpretadas como o começo de uma revolta europeia no Sul da Europa contra a “troika” – primeiro Grécia, então Espanha.
O artigo de The Guardian citou os espanhóis que empunhavam a bandeira de Podemos dizendo que “ a Grécia deu-nos a esperança ….antes, as coisas não eram assim. Agora que as pessoas têm poder isto só pode ir para melhor.”
Bem, apesar do que as pessoas queriam e disseram na Grécia, os seus representantes eleitos (Syriza) rapidamente os traíram – categoricamente e sem vergonha ao que parece. Foi-me dito em várias conversas na semana passada que Syriza está agora a cair aos pedaços – a traição só pode levar a isso.
Não obstante o desaparecimento da Syriza na Grécia, o líder de Podemos, Pablo Iglesias, tornou-se o símbolo da revolta em Espanha para muita gente e incondicionalmente ganhou uma enorme popularidade através da narrativa anti‑austeridade, anti‑establishment.
Enquanto havia muitos slogans sobre a mudança e sobre o poder das massas populares, nunca Podemos foi um partido radical no sentido de que ele quisesse mudar as relações de propriedade que definem o capitalismo.
O artigo na Jacobin Magazine (14 de Maio de 2015) – The Future of Podemos – observava[3] que:
Ultimamente, a estratégia de Podemos está a andar em círculos em direcção a um centro político que hoje em dia só pode reviver as categorias políticas que foram decisivas antes de terem sido desestabilizadas por 15 M. A declaração subjectiva “Eu sou um moderado” acaba por significar a mesma coisa como “Eu sou classe média”, e faz pouco sentido num contexto em que as condições materiais da classe média estão a ser demolidas.
Para mais informações sobre o movimento 15-M veja-se: – movimento anti-austeridade na Espanha[4].
O artigo da Marxist Left Review distingue os seus protestos “radicais” da sua política “moderada” e concluiu que “a básica existência do capitalismo nunca foi seriamente questionada ” pelos líderes de Podemos, embora também admita que alguns comentadores contestam este ponto de vista.
A “prova do pudim é feita ao comê-lo” e as mais recentes posições de Podemos, “El Pacto”, apoiam a “interpretação moderada que é, em si mesma, muito problemática.
Apesar das pretensões mais radicais das bases dos movimentos que deram força a Podemos, a sua direcção tem claramente seguido um caminho de “política burguesa e de inevitáveis e pragmáticas negociações com as elites tradicionais.”
Muito parecido com Syriza.
Enquanto a Esquerda Unida era já uma entidade política bem definida na contexto político espanhol, esta também beneficiou de protestos das bases de Indignados reforçando o seu voto na coligação Unidade Popular Unidade (UP) nas eleições de Dezembro de 2015 em cerca de 926,783 votos (3,68 por cento do total de votos) e dois lugares no Congresso dos Deputados.
Os lugares ganhos no Parlamento em subsídios são desproporcionais em relação à percentagem dos votos obtidos.
Podemos ganhou 5.212.711 votos (20,68 por cento do total ) e ganhou 69 lugares (19,71 por cento do total de lugares no Parlamento). Por muito pouco ia batendo o PSOE quanto ao segundo lugar (este último ganhou 22 por cento do total de votos e teve 90 lugares).
Podemos promoveu-se através de uma campanha de marketing ardilosa e a sua liderança era enaltecida como uma espécie de “culto da personalidade”, o que agora está a entrar em conflito com as suas origens – os Indignados.
A ênfase de marketing levou a uma estrutura de controle de cima para baixo – “controlar a mensagem é extremamente importante ” para a liderança.
O artigo de Marxist Left Review está em consonância com muitas das coisas que ouvi na semana passada:
Os activistas de Podemos – especialmente aqueles que estiveram anteriormente envolvidos nos movimentos de esquerda e de protesto – têm-se sentido cada vez mais frustrados pelo deslocação do processo de decisões dos círculos de base para o executivo do partido.
Tem havido resignações de membros importantes do partido em protesto contra as “estruturas não democráticas do partido ” para que se tem evoluído dentro de Podemos.
A liderança de Podemos tem também assumido algumas declarações muito conservadoras em matéria de política económica.
Num artigo de opinião publicado em New Left Review Op Ed (Maio-Junho de 2015[5]) – Spain on Edge – o líder de Podemos Pablo Iglesias escreveu:
Assim, a estratégia que temos vindo a seguir é a de articular um discurso sobre a recuperação da soberania, na base dos direitos sociais, dos direitos humanos num quadro europeu … nós abertamente reconhecemos …que estamos a ser mais modestos e adoptando uma abordagem neo-keynesiana, como a esquerda europeia, pretendendo mais elevado nível de investimento, a garantia dos direitos sociais e de redistribuição. Isso coloca-nos num terreno difícil, aberto às habituais críticas das posições neo-keynesianas.
A economia neo-keynesiana é parte do problema, não a solução. Por favor, leia no meu blog – Mainstream macroeconomic fads – just a waste of time (6) – para mais debate sobre esta questão.
Além disso, note a ênfase da expressão “num quadro europeu.” Sem falarmos disto, aqui.
E mais uma vez a ênfase “maior nível de investimento”, qui é o novo mantra da Esquerda pró-euro – vamos respeitar as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento ao nível dos Estados-membros mas ainda iremos gerar crescimento porque nós faremos uma injecção externa de fundos de investimento, através do Banco Europeu de Investimento.
Isto é exactamente o que “Modest Proposal” do ex-ministro grego das Finanças propôs e presumivelmente terá constituído a estratégia inicial de Syriza.
Se alguém acredita que o Banco Europeu de Investimento ou outros níveis de fundos europeus vão desembolsar fundos suficientes para revitalizar as infra-estruturas públicas e criarem o pleno emprego, enquanto os governos dos Estados Membros estão em consolidação orçamental porque querem criar excedentes (primários), então estão num mundo de fadas. É ilusório pensar que isso se vai verificar. Desculpem-me mas não será assim.
Nós iremos ainda voltar a esta questão.
(continua)
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