EM ESPANHA, EL PACTO – A REPETIÇÃO DE SYRIZA – por BILL MITCHELL – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Em Espanha, El Pacto- a repetição de Syriza

Billy Mitchell, Spanish El Pacto – Spanish El Pacto – A Syriza Reprise!

Billy blog, publicado em Monday, May 16, 2016 by bill

Agora estou de volta para a Austrália depois de uma visita muito interessante  de duas semanas a Espanha. Nesse período deram-se vários eventos ‘privados’ e pessoalmente proferi 7 palestras públicas em cinco dias e participei em muitas reuniões com viagens pelo meio. Foi uma semana agitada uma vez começados os eventos públicos ao longo de uma nação bastante grande pelos padrões europeus. Eu aprendi muito sobre os movimentos políticos de base (e como eles facilmente se desfazem quando as suas personalidades se tornam dissidentes e saem) e sobre o estado da política europeia. Aprendi muito pouco sobre a política económica europeia – é tão ridícula e prejudicial como sempre, no entanto, os ideólogos, «remunerados» pelas elites financeiras e empresariais, mantêm-se  a defender que está tudo no bom caminho para a recuperação. Não! Eu ouvi falar sobre o aeroporto “fantasma”, ouvi falar sobre a não utilizada pista de corridas de  Fórmula 1 e vi o impressionante Complexo das Ciências e das Artes em Valencia, tudo o que resume os excessos dos primeiros anos da zona euro e da capacidade desenfreada dos políticos espanhóis para a corrupção (a página Wiki não nos diz que vários que políticos  corruptos já estão na cadeia por esse projeto e havendo mais gente para ser presa –  veja então em:

https://en.wikipedia.org/wiki/City_of_Arts_and_Sciences#/media/File:Hemispheric_-_Valencia,_Spain_-_Jan_2007.jpg).

Espanha - I

Espanha - II

Na última semana, um grande desenvolvimento ocorreu com a assinatura do chamado El Pacto “- Cambiar España: 50 pasos para gobernar juntos” – que é um acordo histórico entre os dirigentes de Podemos e da coligação Esquerda Unida (IU) e expresso pelo seu manifesto ‘Mudar Espanha em 50 passos[1] “. SE estes em coligação vencerem nas próximas eleições nacionais a 29 de Junho de 2016. Se não as ganharem isto provavelmente vai levar o partido Socialista (PSOE) à extinção (o que seria bom). Mas ‘El Pacto “é um papel perigoso para o lado da política progressista. Expliquemos porquê. Num breve resumo: a repetição de Syriza!

O contexto

Nós ficámos a saber recentemente que a recuperação muito divulgada da zona Euro estava a chegar ao fim sob o peso da austeridade continuada enquanto as elites desmioladas continuam a negar a realidade, negam pois que  as despesas correspondem ao rendimento e que o rendimento corresponde ao PIB.

Em Março, o PIB industrial na Alemanha caiu de 1,3 por cento e em França de 0,3 por cento, indicando que o motor de crescimento da indústria entrou em desaceleração.

Eurostat igualmente publicou dados sobre o comércio a retalho na semana passada (4 de Maio de 2016) – o volume do comércio a retalho cai de 0,5% na zona euro- cujo título é bem explicativo:

Espanha - III

Espanha - IV

O relatório mostra-nos que:

Em Março de 2016 comparando com Fevereiro de 2016, o volume de comércio a retalho ajustado sazonalmente caiu de 0,5% na zona euro (EA19) e de 0,7% na EU a 28, de acordo com as estimativas de Eurostat, o Serviço de Estatística da União Europeia. Em Fevereiro o volume de comércio a retalho tinha aumentado de 0,3% na zona euro e permaneceu estável na UE28.

Interpretação: as esperanças para uma recuperação gerada pelo consumo não são fortes.

Há uma clara diminuição no volume de vendas a retalho depois de diversos meses de recuperação. Isto parece-se como sendo um ponto de viragem, mais uma vez.

As vendas a retalho alemãs caíram por 1,1 por cento, em França caíram de 0,7 por cento e em Portugal caíram de  5,2 por cento.

As vendas a retalho alemãs caíram de 1,1 por cento, em França de 0,7 por cento e em Portugal de 5,2 por cento.

A Espanha continua  a registar um crescimento nas vendas a retalho mas por outro lado devemos recordar  que isto é actualmente assim sob a influência de um estímulo fiscal ao velho estilo Keynesiano pois o défice do  governo é 5,2 por cento, bem acima do valor  limite permitido sob o Pacto de Estabilidade e de Crescimento.

Além disso, o seu saldo orçamental estrutural (a componente do saldo orçamental total que indica as escolhas discricionárias da política económica no que diz respeito à despesa e à tributação feitas pelo governo) tem aumentado desde 2013.

Leia por favor no meu blogue – Spanish government discretionary fiscal deficit rises and real GDP growth returns (2) – para mais discussão neste ponto.

Um relatório sobre a zona euro do Daily Telegraph (10 de Maio de 2016) – Eurozone recovery wilts as sugar rush fades, deflation lurks – (A recuperação da zona euro a murchar à medida que o açúcar da colmeia se acaba, que a deflação espreita – notava que os factores que ajudaram no crescimento da zona euro no ano passado, incluindo o preço do petróleo mais baixo,  “estão … a perder  potência ou a entrar num ponto de viragem cíclica”.

O artigo diz que :

Há uma abundância de pontos de conflito em vista. A Itália está a lutar para poder gerir uma crise bancária com dívidas incobráveis a chegar aos 19 pc dos seus balanços, enquanto a Espanha e Portugal estão ambos em turbulência política e a desrespeitar as regras de défice na UE – sendo pouco claro se o BCE poderá legalmente voltar atrás face a uma crise sob a maquinaria pesada para os resgates, as OMT .

Na última semana, a capital grega transformou-se num campo de perturbações públicas com os motins aí vividos. O artigo do Guardian (9 de Maio de 2016) – (Greek MPs approve toughest austerity measures yet amid rioting) – Os deputados gregos aprovam mais duras medidas de austeridade no meio de tumultos – relata como o governo Syriza da Grécia ” forçou a legislação no Parlamento” para alterar o sistema de impostos e das pensões de reforma de acordo com os desejos das forças ocupantes, a Troika.

Durante vários dias, “Os desordeiros apedrejaram a polícia enquanto os anarquistas vestidos de preto atiraram coquetéis Molotov em chamas.”

O ministro das Finanças afirmou que “a Grécia poderia tornar-se um” estado falido ” se é forçado a ir longe demais.”

Eu tenho uma notícia a dar-lhe – a Grécia tornou-se um Estado falido quando Syriza cedeu às exigências da Troika e permitiu que o BCE abertamente o chantageasse e levando a que tenha aceite  o último pacote de resgate em Junho de 2015.

O BCE, uma instituição encarregada de manter a estabilidade financeira no espaço da sua jurisdição deliberadamente utilizou a sua capacidade de emissão de moeda (neste caso, negando-lhe a liquidez) para colocar o sistema bancário grego à beira da falência como um instrumento na negociação para assim forçar Syriza a conformar-se com o grande acto de selvajaria contra o povo grego.

E as pessoas estão a recusar este acordo.

Espanha - V

Estas são quatro  imagens que garantidamente não viu comentadas por  José Rodrigues dos Santos no telejornal das 20 horas na RTP 1 (nota do tradutor):

Espanha - VI

Espanha - VII

Espanha - VIII

Olhemos para a mais recente legislação aprovada:

… Vistas como as reformas mais difíceis, das três vezes que a nação grega foi resgatada, que a Grécia é obrigada a adoptar desde que a crise da dívida começou. O outrora exaltado Tsipras apelou ao voto antes de terem sido concluídas as negociações tortuosas quanto ao resgate numa tentativa de aplacar os ministros das Finanças da zona do euro  e isto antes da reunião de segunda-feira.

Tsipras até agora tem-se claramente vergado de mais porque pretende ser também da elite da zona euro (embora eu suspeite que os dirigentes políticos do Norte da Europa o sustentam com desprezo – somente porque este tem provado ser tão lamentável) e de tal forma se tem vergado que não pode ser merecedor de qualquer respeito ou credibilidade e só está agarrado ao poder.

Os motins estão a sublinhar que as pessoas agora estão firmemente unidas contra o que lhes prometeu acabar com a austeridade mas que desde então só lhes tem imposto mais austeridade do que qualquer outro governo conservador lhes foi capaz de impor.

Tsipras e os seus colegas traíram claramente o povo que lhes deu o poder. Na realidade, foi a última traição.

Qualquer um que pense que a meta do excedente primário de 3,8 por cento do PIB até 2018 é uma meta política responsável, num país que tendo continuado a comprimir-se em termos de PIB e de investimento privado em que este é hoje de cerca de 10,3 por cento (quarto trimestre, em Dezembro de 2015) quando era de 28,2 por cento no terceiro trimestre de 2007, em Setembro de 2007, então, quem assim pense,  está a sofrer de uma doença sociopatológica, entre muitos outros males.

(continua)
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[1] Ver em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/wp-content/uploads/2016/05/Acuerdo_Programa.pdf

(2)  Ver em:

Spanish government discretionary fiscal deficit rises and real GDP growth returns

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Ver o original em:

Spanish El Pacto – A Syriza Reprise!

 

 

 

 

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