EDITORIAL – O DIA EM QUE ROBESPIERRE FOI GUILHOTINADO
carlosloures
Em 28 de Julho de 1794, era guilhotinado Maximilien de Robespierre, oincorruptível. Com 36 anos, este advogado de Arras, compreendera que uma Revolução ou é uma ruptura total com o passado ou será apenas um incidente histórico e muitas vezes uma compatibilização com os chamados poderes fácticos. De certo modo, o nosso 25 de Abril foi um desses ajustamentos históricos – ditaduras, camisas azuis ou verdes numa Europa que, durante a Guerra Fria. se autodefinia – por oposição ao bloco do pacto de Varsóvia, como democrática, asséptica, figuras como Salazar e Franco eram incómodas, só podiam estar no museu da Madame Tussaud. Porém, o dado novo foi o povo ter acreditado – “o MFA entregou-nos o País limpo de ratazanas- vamos lá assumir o poder”. Mas Carlucci, Sá Carneiro, Mário Soares, não queriam uma Revolução, mas apenas um aggiornamento. Voltemos a Robespierre.
Principal figura da Montanha na Convenção, liderou a tendência radical da Revolução, sendo uma das suas figuras mais controversas. Para os amigos era o Incorruptível; para os inimigos eram oTirano e o Ditador sanguinário. Nasceu numa família pequeno-burguesa, Frequentou o Colégio Arras, onde estudou latim e oratória. Em 1769, com uma bolsa, foi enviado para o Colégio Luís o Grande, da Universidade de Paris. Nesta escola, estudou durante nove anos, entrou em contacto com o pensamento radical. A época era de mudança e agitação intelectual. Um dos professores do futuro líder revolucionário, o filósofo e matemático d’Alembert que, com outros pensadores, organizou a publicação da mais significativa obra do período, a grande Enciclopédia. Voltaire também fazia parte da equipa escrevendo os verbetes história, eloquência, espírito e imaginação…Outra leitura que influenciou o jovem foi a de Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social. Em 1781, formou-se em Direito. Exerceu advocacia com sucesso em Arras, quando Luís XVI anunciou a intenção de convocar os Estados Gerais.
Novas perspectivas se abriram – em Abril de 1789, eleito deputado pelo Terceiro Estado da região de Artois, revelou-se brilhante orador. Em Abril de 1790, filiou-se no Clube dos Jacobinos, ala radical dos revolucionários. A partir daí, adquiriu fama e passou a estar intimamente ligado à evolução dos acontecimentos. Em 1791, foi um dos principais líderes da insurreição popular do Campo de Marte. Novas perspectivas se lhe abriam. Combateu a facção dos girondinos, menos radicai e foi um dos que pediram a condenação de Luís XVI, guilhotinado em 21 de Janeiro de 1793. Em Julho desse ano, criou o Comité de Salvação Pública para eliminar os inimigos da revolução.Instaurou o regime do Grande Terror – auge da ditadura robespierreana. Em 1794, mandou executar Danton, que defendia uma marcha mais moderada para a revolução. Eleito Presidente da Convenção Nacional, em 27 de Junho, numa sessão agitada, foi ferido e detido pelos inimigos e, um dia depois, guilhotinado.
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O principal «crime» de Robespierre foi o da coerência, sem distinguir teoria da prática. O que era definido como correcto, era levado na prática – com os enciclopedistas e com Rousseau, interiorizou os novos conceitos filosóficos – democracia, igualdade e liberdade, correctos na teoria, tinham de funcionar na prática. Quem se interpusesse e o quisesse impedir, era eliminado. Após a tomada da Bastilha, Robespierre fez um balanço da jornada revolucionária e em 25 de Janeiro de 1790, fez um discurso defendendo que todos os franceses deveriam ser admitidos nos cargos públicos, sem outra distinção que não fosse a da sua capacidade.Em Maio de 1792, O Defensor da Constituição no editorial do primeiro número escrevia que preferia ver “os franceses livres e respeitados com um rei, do que escravos ou aviltados sob o jugo de um Senado”.
Defendeu o sufrágio universal, a igualdade de direitos e deveres de todos os cidadãos. Defendeu A abolição da escravatura e as assembleias populares. d”a mesma autoridade divina que ordena aos reis serem justos, proíbe aos povos serem escravos“.A Revolução combateu a Igreja, mas, Robespierre acreditava na existência de um Ser Supremo:”Se a existência de Deus, se a imortalidade da alma não fossem senão sonhos, ainda assim seriam a mais bela de todas as concepções do espírito humano“.F,A. Mignet disse sobre Robespierre e Saint-Just: “(…) Robespierre e Saint-Just haviam traçado o plano desta democracia, cujos princípios eles defendiam em todos os seus discursos. Eles queriam mudar os costumes, o espírito e os hábitos em França. Eles queriam transformá-la em uma república à moda dos antigos“.[…]”O domínio exercido pelo povo, magistrados desprovidos de orgulho, cidadãos sem vícios, a fraternidade nos relacionamentos, o culto da virtude, a simplicidade dos modos, a austeridade do carácter, eis o que pretendiam estabelecer“.[…] “Liberdade e igualdade para o governo da república; indivisibilidade na sua forma; virtude como seu princípio; Ser Supremo como o seu culto. Quanto aos cidadãos, fraternidade nos seus relacionamentos, probidade na sua conduta, bom senso como espírito, modéstia nas suas ações públicas, que eles deveriam nortear para o bem do estado, e não para eles mesmos».
O erro de Robespierre foi o de acreditar que a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade podiam ser implementadas por decreto. Num certo aspecto, foi a única Revolução que não quis ser melhor do que a sociedade existente. Não quis criar um Estado que competisse com o existente – quis apagar as classes sociais. Quis fazer uma Revolução.