EDITORIAL – Um dia cinzento

logo editorialEstamos um pouco naquela situação de quem quer sair de casa, mas sem saber se deve ou não levar chapéu de chuva. Olhando para o presente, não apetece comentar – estamos cansados de repetir críticas e de lamentar o nível rasteiro da nossa vida política; para o futuro não temos aberta a porta de comunicação – resta a saída das traseiras… Há dias em que se comemoram acontecimentos felizes, outros em que nada de muito relevante ocorreu e outros ainda em que o saldo das efemérides é negativo. 17 de Setembro, com um ou outro registo positivo, tem um saldo que diríamos cinzento, pois não sendo negro, está longe de ser luminoso. Passou-se muita coisa, mas vamos salientar dois factos.

Em 1787, neste dia 17 de Setembro, foi assinada pela convenção Constitucional de Filadélfia a Constituição dos Estados Unidos da América.Pode dizer-se que esse documento,  que estava a ser discutido desde 25 de Maio é um primeiro sinal de que a burguesia não iria tolerar por muito mais tempo o jugo de uma aristocracia que deixava de ter qualquer papel no sistema mercantilista que se instalava no chamado mundo civilizado.. Os Estados Unidos aprovaram a sua primeira e, até hoje, única constituição. A constituição exprime um meio-termo entre a tendência estadista defendida por Thomas Jefferson que queria grande autonomia política para os Estados membros da federação, e a tendência federalista que lutava por um poder central forte. Esta consagração do poder económico sobre o direito divino que suportava o poder real, seria um dos grandes argumentos da Revolução que dois anos depois eclodiria em França.

Em 17 de Setembro de  1793, em França,  o Comitê de Salvação Pública iniciou a repressão sanguinária conhecida como O Terror.Após a queda dos Girondinos no Agosto anterior, as garantias civis foram suspensas e o governo revolucionário, controlado pela facção da Montanha dentro do partido jacobino, perseguiu e executou a um ritmo alucinante. O Terror durou aproximadamente um ano, de meados de 1793 a meados de 1794. Em Dezembro de 1794 foram guilhotinadas mais de 5.000 pessoas. Só em .27 de Julho de 1794  com a prisão de Robespierre, o dirigente máximo dos Jacobinos, as execuções abrandaram. A Revolução devorava os seus filhos. Napoleão viria depois restabelecer o poder burguês, fundindo sangue plebeu com sangue azul. No fundo, as classes trabalhadoras continuariam a ser exploradas. 17 de Setembro de 1787 e de 1793  não lhes dizem respeito.

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