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O SENTIMENTO DE PERTENÇA É O RECONHECIMENTO DO MEU “EU” por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

De acordo com a OMS (2006), há 5000 mil anos atrás, na antiga civilização Egípcia, anterior à religião Islâmica, já se praticava a Mutilação Genital Feminina.

Na Guiné Bissau é considerado crime público desde 2011, no entanto 44% das mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos são submetidas a esta prática que faz parte da sua cultura, assim como 30% das meninas até aos 14 anos.

Na Guiné Conacri basta ser mulher para se sujeitar a esta prática.

Em Portugal, onde a presença de guineenses da Guiné Bissau é significativa, há informação, que a partir de 2010, os casos diminuíram porque as famílias se deslocam aos seus países de origem para praticar a mutilação, lá é mais fácil devido à sua envolvência Cultural.

 Antes mandavam vir mulheres as “fanatecas” (mulheres que praticam a mutilação).

O peso cultural é demasiado forte para se acabar com algumas tradições ou rituais.

A Mutilação Genital Feminina é a entrada na puberdade e na vida adulta.

 A Mutilação Genital Feminina esteve em debate na ONU, em2014, onde se afirmou que, até 2030, 86 milhões de meninas poderão estar sujeitas a esta práctica que assenta raízes na tradição cultural.

Estas mulheres têm que acordar para o mundo, têm que se organizar para combater esta tradição que é um caso de poder dos homens sobre as mulheres.

Estas mulheres acreditam que se as meninas não forem mutiladas não têm condições para casar e o casamento é de grande importância nestas comunidades para a transmissão da sua cultura que é feita através das mães.

Estas mulheres acreditam que não poderão ter filhos, que não darão prazer ao marido, que estão sujas, impuras. Não poderão praticar a religião islâmica nem cozinhar para as pessoas puras.

Há quem defenda que os efeitos psicológicos de não ser mutilada podem ser mais graves do que aqueles provocados pela mutilação.

As mulheres consentem a MGF de forma a não perderem a sua rede social de suporte e o único papel social a que têm direito, o de esposas.

A Mutilação Genital Feminina é algo com que viverão para sempre e que tem repercussões semelhantes a uma violação. É um pesadelo recorrente.

 Estas mulheres sofrem em silêncio a dor que não conseguem esquecer, muitas assumem comportamentos dóceis e de submissão, muito valorizados na comunidade, porque só assim são aceites no seu grupo de pertença.

 A recusa desta prática por parte da mulher implica lidar com a discriminação e segregação do grupo de pertença, uma vez que, dentro da comunidade, deixa de ter voz, isto é, deixa de existir. O não reconhecimento do “eu” é doloroso e pode levar a comportamentos violentos e de corte com a comunidade.

Esta prática é sem dúvida uma tradição cultural que viola a Declaração dos Direitos Humanos, dos Direitos da Mulher e a Declaração dos Direitos da Criança.

Não há Direito que não tenha sido conquistado sem o grito da revolta dos oprimidos. Como poderão, estas mulheres, dar esse grito de dor, esse grito de liberdade em relação a esta realidade?

 Fatumata Djau Baldé foi vítima em criança desta tradição cultural e hoje é a presidente do Comité Nacional Para o Abandono de Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança.

Estas mulheres têm Direito a viver sem dor, sem pesadelos recorrentes, a ter voz, a decidir.

É curioso que as “ex-fanatecas” estão a desenvolver um importante trabalho de esclarecimento contra a mutilação junto das comunidades. Elas lutam contra uma tradição cultural, para acabar com essa tradição é preciso conhecimento, determinação das próprias e o apoio de milhões de outras mulheres.

“Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não”

                                                                             Manuel Alegre

 

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