CONTOS & CRÓNICAS – O ESCRITOR DA SEMANA – O SAPO COR DE TERRA – EVA CRUZ/4
joaompmachado
Um clarão alaranjado fazia adivinhar que a lua cheia ia nascer ali naquele bocadinho de serra, entre os bicos de dois pinheiros.
Já tinha regado o pátio, arbustos, flores e plantas. A água fresca do poço acalmara o calor tórrido do dia que findava. Muito pálidas tremeluziam no céu umas luzinhas, e apetecia-me deitar-me numa cama de estrelas, lá no ar, a espreitar a lua antes de ela nascer. Ser um pokémon, um D.Quixote, uma bolinha de fantasia. Ser um momento de glória lá no infinito, onde tudo é possível.
De repente, passa-me um tira-olhos pela frente da cara, como uma flecha. Olhos nos olhos, fazia lembrar um helicóptero. E a minha fantasia foi atrás dele, outro pokémon. Num instante desapareceu. Os tira-olhos têm um campo visual muito amplo e este era tão corpulento que estaria provavelmente a banquetear-se com todas as moscas e mosquitos das redondezas.
Pareceu-me que tinha poisado num vaso de cravinas cor-de-rosa, daquelas que têm o perfume enraizado na lembrança, já a deixar cair as sementes. Procurei-o, porque diz a sabedoria popular que não fazem mal, nem se atrevem a enfrentar os humanos.
No vaso de húmido brilho vislumbrei, à luz do candeeiro que espreitava por entre a hera, um montículo castanho que não parecia ser terra. De repente, uma língua enorme e pegajosa dispara em direcção a uma aranha que tecia uma teia por entre as folhas, fazendo-a desaparecer. O sapo cor de terra, aninhado no mais reservado silêncio, virou para mim os olhos esbugalhados, como que a dizer: Chchchiu!
Já há muito tempo que não via um sapo. Diz o povo que é bom sinal haver sapos.
Não o matem. Ele come todos os bichinhos prejudiciais à terra. Mas cuidado com o espinhaço de sapo esborrachado, é venenoso. Além disso ele mija veneno e pode cegar.
Muitas vezes ouvi isto na minha infância. Recordo as maldades dos meninos que punham um sapo na ponta de uma tábua e batiam na outra ponta, fazendo o bichinho saltar tão alto que se perdia no ar. Ou os homens que lhes enfiavam um cigarro na boca. Maldades que o sapo não merecia.
Olhei para ele. De olhos fitos nos meus, ali permaneceu quietinho e discreto, a saborear a frescura da terra acabada de regar. O meu Pokémon do dia no meio das cravinas perfumadas.
Já não precisava de subir ao céu às escondidas da lua. Ela acabava de libertar-se, redonda e brilhante, da serra negra.
O sapo disparou novamente a língua, tão rápida e comprida que até tive medo que engolisse a lua.