CONTOS & CRÓNICAS – Bichos e saudade – por Eva Cruz

contos2 (2)

 

É uma casa linda, uma casa portuguesa com traços apalaçados. Pedra de esquadria e azulejos verdes pintam a cal branca das paredes e muros. Está virada para a mesma serra que a minha casa e dali se vê erguer o mesmo sol e a mesma lua.

 Por lá cresceram os meus filhos, brincando com os filhos da casa num jardim de árvores seculares por entre hidrângeas e japoneiras. Ali se afeiçoaram ao jumbo, o velho cão de raça, corpulento, e a outros rafeiros por lá à solta. Inventaram jogos e esconderijos no torreão, nos troncos e nas copas das árvores mais baixas. Realizaram corridas, jogos de bola e dali se lançaram balões de S. João a perder de vista. No quartinho das bonecas se projectaram filmes de Walt Disney ao gosto da sua fantasia.

 Ali se fizeram festas de aniversário e outras com mesas recheadas de croissants a reluzir, torradas de queijo com maçã, polvilhadas de canela, bolos feitos pelas mãos de velhas empregadas, brigadeiros e olhos de preta. A vida foi passando, ano após ano, na ilusão da juventude, e hoje, nesta soma de tantos anos, resta a saudade dos que já partiram e as boas recordações dos que ainda cá estão.

No pátio e no jardim, onde restos do passado ainda se fazem sentir, brincam hoje outras crianças. Repetem-se as mesmas brincadeiras ou talvez sejam diferentes. Há menos animais. Não há patos nem cisnes no lago sem água. Apenas um galo no  galinheiro, triste e solitário, de pescoço pelado, e um coelho branco que em amizade com dois cães partilham o mesmo prato de cascas de batata e fruta. No telhado vagueiam os gatos, dia e noite, um preto e um branco. Um deles, o Camões, não tem um olho. Não se atrevem a descer ao jardim, domínio dos cães.

 Há dias, caiu de uma velha japoneira um melrito que ainda não sabia voar. Um dos cães abocanhou-o de imediato e chamou-lhe um figo. O irmão saltou também do ninho, voando um pouco mais alto e o cão apenas lhe arrancou uma asa. A pobre avezita conseguiu escapar aos dentes caninos e poisar no telheiro mais baixo. Ouviam-se os gritos desesperados da mãe. Alguém conseguiu através da janela agarrar o melrito desasado e enfiá-lo numa gaiola. No telhado, os gatos lambiam-se e, por maior que fosse o apetite, não passavam de cheirar as grades e de tentar tocar-lhes com a pata. A mãe melra, fintando os gatos, rondava a gaiola e no seu instinto maternal deixava de vez em quando uma minhoquita na beirada da janela que o pequenito engolia sofregamente. E assim se foram passando os dias nestas repetidas cenas.

 Ao lado, por trás do vidro de uma janela sempre fechada havia  uma caixa com  larvas e bichos-da-seda embrulhados em baba e folhas de amoreira colhidas pelas crianças. A mãe menava todos os dias aquelas larvas apetecíveis, ali mesmo à mão de semear. Não precisava de esgaravatar a terra para encontrar minhocas e outros bichos.

Por sua vez os gatos não paravam de cobiçar o melro e todos os dias o espreitavam tentando enfiar a patita na rede da gaiola. Cá em baixo, a paz entre os cães, o coelho e o galo. Juntara-se agora a eles a melra que dali levava comida para o filho. Estranho o comportamento dos animais! Lá terão as suas escolhas.

Afinal passa-se o mesmo com os humanos.

 No jardim ouvem-se acordes do piano de cauda da sala grande. Cortinas de brocado de seda rosa velho a condizer com o rosa forte das paredes ainda afagam algumas notas perdidas das sinfonias e melodias de uma vida inteira na intimidade de Mozart e Beethoven. E ao cair da noite, ainda se ouvem os silêncios dos Nocturnos de Chopin erguendo a lua soberana na esperança de novo sol.

Leave a Reply