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O MAPA (A SAGA DO ANADEL) -NO HOSPÍCIO/29´-por Carlos Loures

Lisboa, Hospício de São Jorge, Junho/Julho de 1487.

 

Como todos os hospitais da cidade, o Hospício de São Jorge era pequeno e Lourenço, que não pertencia a nenhuma das corporações patronas a cujos membros o hospício se destinava, apenas ali fora parar por ser o que estava mais próximo do hospital judaico de onde fora transferido por nele estar vedado o acolhimento de gentios. As feridas na cabeça quase sempre são muito sangrativas e, por isso, a considerável perda de sangue que sofrera não aconselhava longas viagens sobre o dorso de mulas. São Jorge, possuía algumas pequenas enfermarias nas quais os leitos ficavam dispostos de um e do outro lado ao longo de paredes longitudinais e encaixados em estreitas arcarias de madeira – uma por cama. Por detrás das fileiras de camas, separadas por cortinas, passava um corredor, por onde os doentes saíam para fazer as necessidades fisiológicas. Para tal havia as «necessárias», ou seja alguns compartimentos dotados de pias e urinóis, usados pelos pacientes cujo estado de saúde lhes permitia levantar-se do leito. Os que o não podiam fazer usavam bacios de cobre ou estanho. Por este estreito corredor circulavam também os cadáveres, para que à sua vista não se impressionassem os vivos. Dispunha ainda o hospital de uma «casa de águas», onde eram analisadas as urinas e medido o pulso dos pacientes duas vezes por dia, de uma farmácia, onde se preparavam e armazenavam as medicinas, de um refeitório para internados e de um outro para frades e leigos servidores, de uma cozinha, de uma capela, de uma rouparia, de um lavadouro e de uma horta anexa a um pequeno cemitério destinado aos monges. Os corpos dos doentes que ali faleciam eram entregues às famílias, caso as tivessem. Todos os que ali serviam, por obrigação ou por devoção, mantinham o hospício muito limpo, evitando tanto quanto podiam as sujidades e os maus odores os quais, como sabemos, são territórios de eleição para propagação de infecções, maleitas e pestilências.

         Apesar da boa vontade dos que trabalhavam nestas casas, físicos, cirurgiões, servos, enfermeiros maiores e menores, barbeiros-sangradores, boticários, os muitos hospícios de Lisboa revelavam-se insuficientes para a sempre crescente população da cidade. Havia pequenos hospitais espalhados pela cidade, casas que o grande Hospital Real, de que já vos falei, veio depois a substituir no reinado de el-rei D. Manuel. Naquele ano de 1487, havia, entre outros, o dos Meninos, na Mouraria, destinado às crianças órfãs, o de Santa Maria de Rocamador, nas proximidades da Igreja de São Julião, o do conde D. Pedro, nas imediações das Cruzes da Sé, o de Santo Estaço, o do Espírito Santo da Pedreira, destinado a merceeiras, o dos Homens e Banho, situado na Judiaria – o tal onde Lourenço fora socorrido de emergência, o dos Hortelões ou Almuinheiros, perto do Chafariz dos Cavalos e muitos outros, alguns destinados a gafos ou leprosos. Mais de quarenta, como disse, mas todos eles de reduzida dimensão e, no seu conjunto, insuficientes para servir a cidade, sobretudo durante as pestilências que frequentemente nos assolavam. A construção de um grande hospital, o de Todos-os-Santos, fora já prevista pelo senhor D. João, em 1479, para o local onde estava naquela altura a horta do Convento de São Domingos, em Lisboa, entre o Rossio, o Poço do Borratém e a Rua da Betesga. A realização desta obra seria autorizada pela bula Ex debito solicitudinis, emanada do Papa Sisto IV. Porém, em 1487, tal magno edifício situava-se no futuro, pois só daí a cinco anos começariam as obras e só decorridos mais onze estaria o hospital em condições de receber os primeiros enfermos.

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Foi numa das pequenas enfermarias do Hospício de São Jorge que Lourenço foi tratado sob a orientação do irmão Raimundo, um físico. Ali estavam acamados cerca de trinta homens, na sua maioria idosos. Nos primeiros dias, foi-lhe difícil dormir, pois os gemidos dos doentes que sofriam de dores ou os gritos ou murmúrios dos que deliravam, nunca paravam. Quando algum se aquietava, outros iniciavam a sua girândola de queixumes. Os frades e os irmãos leigos, faziam tudo o que podiam, tentando sossegar os pacientes, dando-lhes xaropes, água, medicinas, pondo-lhes frescos parches, tranquilizando-os por palavras, rezando-lhes orações, mas era uma guerra perdida tentar manter aquele universo de sofrimento em silêncio.

         Durante o tempo em que esteve acamado, pôde reflectir no que lhe acontecera, sem contudo encontrar resposta para a maioria das interrogações. Lembrou a morte do pai, cujo assassínio continuava por explicar. Nada parecia justificar nem o crime sobre tão pacífica e bondosa pessoa nem a devassa a que a oficina fora submetida pelos assassinos que, afinal, nada pareceram ter roubado. Numa família como a dos Mateus, que, excluindo as famosas aventuras do almogárave, há mais de um século vivia do estudo e do trabalho honesto, estavam, nos últimos tempos, a suceder demasiadas coisas tão dramáticas quanto inexplicáveis.

         Lembrou-se da conversa que tivera com Pêro Vaz da Cunha, em Outubro de há dois anos, no castelejo da Alcáçova. Dissera-lhe que, dois anos antes, Lopo desenhara para ele um planisfério, coisa secreta, da qual se fizera uma cópia. O original fora entregue a el-rei que o enviara para o Arquivo Real, na Casa da Mina. No seu palácio fora feita, meses atrás, uma tentativa de assalto e Vaz da Cunha logo desconfiara de que o objectivo seria encontrar o planisfério. O trabalho, fora realizado com base num mapa que recebera de familiares em Inglaterra o qual, por sua vez, parecia inspirado no de Andrea Bianco de 1436, reformulado em 1450 pelo de Fra Mauro. Lopo e os sábios seus amigos tinham-lhe acrescentado as actualizações decorrentes dos descobrimentos feitos até 1484, bem como investigações feitas pelo próprio grupo, nomeadamente as de Saul Navarro e as de Martinho da Boémia, com o modelo do seu revolucionário globo.

Portanto, o que tinha esse planisfério de tão importante? Negando as clássicas concepções sobre a geografia do planeta, afirmava a intercomunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico, aceitando assim a viabilidade de uma rota marítima entre a Europa e a Ásia, e denunciava a existência de uma grande massa continental entre o Ocidente da Europa e as Índias. Duas teses escaldantes e que punham em causa, não só o instável equilíbrio entre as potências europeias, como principalmente o sistema comercial instalado desde há séculos, nomeadamente o papel de Veneza como mediadora, como plataforma de comércio entre os dois continentes.

Dado o carácter secreto das revelações que continha, pensava que o assassínio de Lopo deveria estar relacionado com esse mapa. Talvez procurassem esboços, apontamentos. Porém, supunha que Lopo destruíra tudo – rascunhos e as notas tomadas nas conversas com os sábios judeus. Constava, no entanto, que o grupo de sábios guardara uma cópia do mapa secreto. Talvez não passasse de uma lenda. Por outro lado, Lopo recebera ameaças em cartas que lhe apareciam na oficina, metidas por debaixo da porta. Eram assinadas por um tal Cristóvão Álvares que ninguém conhecia. Queimava-as para não preocupar a família. O livreiro Saul Navarro que Lourenço não conhecia pessoalmente, embora ouvisse falar dele com frequência, recebera também cartas ameaçadoras. O jovem compreendia agora o motivo da estranha conversa que o pai tivera com ele dias antes do crime. Não era também de descartar a possibilidade de o terem morto para que não pudesse reproduzir o planisfério. Antes de se despedirem, o fidalgo prometeu-lhe que não descansaria enquanto não desvendasse o mistério. Prometeram trocar informações.

Esta conversa veio trazer alguma luz à escuridão em que Lourenço se sentia até então. Como se estivesse no fundo de um lago de águas paradas. Agora, ainda que não tivesse avançado muito, descortinava um motivo para o crime – a tentativa de os assassinos terem acesso a uma cópia do explosivo planisfério ou a certeza de que Lopo não faria mais reproduções do mesmo. Ou as duas. Esta informação que Vaz da Cunha lhe dera, permitia circunscrever a lista de mandantes do crime – Castela? Veneza? Génova? Contudo, permanecia a incógnita quanto aos braços que tinham executado o assassínio. Quem seria o tal Cristóvão Álvares? Não desistia de jurar a si mesmo que a morte de Lopo não ficaria por vingar. Era agora o principal objectivo da sua vida. Meu pai falava-me nestas coisas nas longas conversas junto da chaminé da cozinha, numa era em que as revelações sobre os segredos políticos de há quase três não constituíam inconfidência, pois não podiam já prejudicar a segurança do Estado. Haviam decorrido já muitos anos. Muitos dos intervenientes haviam morrido.

Os segredos a guardar eram outros por essa altura.

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