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O MAPA – (A saga do anadel) APRISÃO DO TRONCO/32 -por Carlos Loures

Lisboa, Julho de 1487.

 

Decorrida um pouco mais do que uma semana, sobre a rixa em que Lourenço se vira envolvido e do seu internamento no Hospício de São Jorge, na quarta-feira, dia 3 de Julho, foram-lhe retirados da cabeça os pontos costurados pelo físico judeu no Hospital dos Homens e do Banho, para onde fora levado, inconsciente. O físico e boticário, o irmão Camilo, viera diariamente, cobrir-lhe a ferida com panos embebidos num unguento de um cheiro desagradável, mas de um efeito curativo que parecia milagroso. Logo que colocados os parches com a malcheirosa mistela a dor e depois a intensa comichão eram substituídas por uma agradável sensação de grande conforto e frescura. Era, soube-o depois, uma velha medicina feita com base em acónito ou aconitum, uma planta ranunculácea, venenosa e mortal quando tomada em excesso (como terá acontecido com Marianna Ruju), mas também curativa, se, tal como soi acontecer com a severidade e a justiça dos príncipes, for ministrada na devida quantidade.

Por seu turno, o barbeiro, que acumulava esta função com uma outra, menos simpática, a de sangrador, zelou sempre por que o cabelo de Lourenço não crescesse na região da cabeça ferida pela pranchada que o fidalgo, lhe aplicara de uma forma traiçoeira, mas também com impetuoso esmero e eficácia. Este barbeiro, um irmão leigo, Bernardino de seu nome, era homem de meia-idade, quase inteiramente calvo, encorpado, de rosto de pele curtida e rude, cego da vista direita, recordação de uma rixa num porto do Mar do Norte, nos seus tempos de marinheiro. Sempre vestido com um fraldim e um saio de burel muito asseados e com umas botas que lhe subiam pela calça até ao joelho, apesar do seu aspecto rústico e até assustador, era uma preciosa fonte de informação para Lourenço, ensinando-lhe, enquanto lhe rapava a cara e a cabeça, não apenas os hábitos do hospital, como também o ia avisando sobre os perigos a evitar no presídio para onde seria enviado logo que os físicos o dessem como curado.

         Segundo Lourenço veio a saber por um dos monges que o tratavam, Bernardino era um antigo recluso daquela cadeia, um marinheiro que, por uma questão de vinho em excesso e de jogo, talvez com alguma história de mulheres à mistura, mas parece que em defesa da própria vida, assassinara um homem numa rixa de taverna, desta vez aqui em Lisboa, e que, dadas as circunstâncias atenuantes, lograra escapar da forca, mas tivera de cumprir uma longa pena. Quando, cumprida a pena, foi devolvido à liberdade, não tendo já idade nem saúde para se fazer de novo ao mar, aprendera a profissão de barbeiro e de sangrador, ficando a trabalhar na prisão e no hospital, pois, não tendo família, aqueles tristes locais tinham passado a constituir o seu único lar. Esta circunstância vinha explicar, pelo menos em parte, a grande e visível simpatia que o barbeiro nutria por Lourenço, pois também fora preso – injustamente, já se vê! – em consequência de uma rixa, como toda a gente por todo o hospício sabia,  pois a história correra de boca em boca, de cama em cama,  de enfermaria em enfermaria.  Uma rixa em defesa da honra de uma donzela, ainda para mais. Por isso, quando se queria referir a ambos, o barbeiro, que sendo uma alma simples era, além disso e apesar do seu aspecto assustador, uma boa criatura, dizia sempre «nós, os homens de honra» ou «nós, as pessoas honradas».

         Os enfermeiros, quer os principais, quer os menores, e os monges em geral, foram também bastante amáveis e caritativos. Por outro lado, logo que a febre passara, o apetite fora regressando aos poucos e o caldo e o pão que lhe serviam no hospital, a fruta fresca que Débora lhe enviava diariamente e os mimos levados por sua mãe e por sua tia Maria Beatriz, foram sendo consumidos com um crescente gosto. Para Lourenço, tudo parecia correr pelo melhor. Passados alguns dias, do ferimento, profundo e feio, restava apenas, além de uma dor muito leve, uma má recordação, uma irritante comichão e uma pequena cicatriz que o cabelo em breve iria cobrir por completo. Não se justificava continuar internado. Na sexta-feira, dia 12, recebeu alta do irmão Raimundo, o físico cristão que o tratou. Sabia que estava hospitalizado sob prisão, mas, porque a esperança é o principal alimento da alma dos prisioneiros, tinha a vã expectativa de que, sarada a ferida, o poriam em liberdade. Bernardino sempre lhe afirmara que do hospital iria para a prisão. E assim iria ser. Naquela sexta-feira de manhã, com um tempo quente e soalheiro, logo depois de tomado o almoço, mandaram-no arrumar os seus poucos haveres e subiram-no com todo o cuidado, pois estava ainda entontecido, para o dorso de uma mula. Rodeado de guardas armados, como se fora um perigoso malfeitor, saiu do hospício, despedindo-se dos amigos que ali criara. Despediu-se com gratidão dos irmãos, físicos, cirurgiões, enfermeiros, barbeiros, que tão bem o cuidaram durante o internamento. Despediu-se também do irmão Camilo, o boticário, com quem travou amizade e que lhe deu um boião com o tal malcheiroso unguento de aconitina, recomendando-lhe que o deveria continuar a pôr duas vezes ao dia até estar totalmente sarada a costura. Os meirinhos que o guardavam por turnos, já se haviam habituado a ele e estavam a ser menos antipáticos do que o tinham sido nos primeiros dias. O barbeiro Bernardino abraçara-o e garantiu-lhe que o iria visitar diariamente ao Tronco, pois também ali prestava os seus serviços, cortando e aparando cabelos, rapando barbas, fazendo curativos, sangrando doentes. 

         O cortejo escalou a íngreme calçada até à Prisão do Tronco, assim chamada por se situar no Pátio do Tronco. A cadeia fora edificada para os presos da almotaçaria e para punir crimes da sua jurisdição e infracções a ela atinentes. Prevista para conter poucas dezenas de pessoas, dada a crescente perversão do uso para que fora concebida, era vulgar nela estarem detidos, contando homens e mulheres, entre oitenta e cem pessoas. E quanto mais a cidade crescia, mais a prisão se enchia e mais os seus serviços se iam degradando. Aliás, as outras nove prisões de Lisboa, tais como a Cadeia acima da Sé, também chamada do Limoeiro, a dos clérigos, ou seja, a do Aljube, a da Moeda e as restantes, não gozavam de melhores condições – todas elas eram sujas, insalubres, sobrelotadas, numa palavra – desumanas. Na verdade, não passavam de antecâmaras do Inferno para os desgraçados que nelas eram amontoados em condições que até para animais poderiam considerar-se pouco caridosas.


 

 

 

 

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Lisboa, Julho de 1487.

 

Decorrida um pouco mais do que uma semana, sobre a rixa em que Lourenço se vira envolvido e do seu internamento no Hospício de São Jorge, na quarta-feira, dia 3 de Julho, foram-lhe retirados da cabeça os pontos costurados pelo físico judeu no Hospital dos Homens e do Banho, para onde fora levado, inconsciente. O físico e boticário, o irmão Camilo, viera diariamente, cobrir-lhe a ferida com panos embebidos num unguento de um cheiro desagradável, mas de um efeito curativo que parecia milagroso. Logo que colocados os parches com a malcheirosa mistela a dor e depois a intensa comichão eram substituídas por uma agradável sensação de grande conforto e frescura. Era, soube-o depois, uma velha medicina feita com base em acónito ou aconitum, uma planta ranunculácea, venenosa e mortal quando tomada em excesso (como terá acontecido com Marianna Ruju), mas também curativa, se, tal como soi acontecer com a severidade e a justiça dos príncipes, for ministrada na devida quantidade.

Por seu turno, o barbeiro, que acumulava esta função com uma outra, menos simpática, a de sangrador, zelou sempre por que o cabelo de Lourenço não crescesse na região da cabeça ferida pela pranchada que o fidalgo, lhe aplicara de uma forma traiçoeira, mas também com impetuoso esmero e eficácia. Este barbeiro, um irmão leigo, Bernardino de seu nome, era homem de meia-idade, quase inteiramente calvo, encorpado, de rosto de pele curtida e rude, cego da vista direita, recordação de uma rixa num porto do Mar do Norte, nos seus tempos de marinheiro. Sempre vestido com um fraldim e um saio de burel muito asseados e com umas botas que lhe subiam pela calça até ao joelho, apesar do seu aspecto rústico e até assustador, era uma preciosa fonte de informação para Lourenço, ensinando-lhe, enquanto lhe rapava a cara e a cabeça, não apenas os hábitos do hospital, como também o ia avisando sobre os perigos a evitar no presídio para onde seria enviado logo que os físicos o dessem como curado.

         Segundo Lourenço veio a saber por um dos monges que o tratavam, Bernardino era um antigo recluso daquela cadeia, um marinheiro que, por uma questão de vinho em excesso e de jogo, talvez com alguma história de mulheres à mistura, mas parece que em defesa da própria vida, assassinara um homem numa rixa de taverna, desta vez aqui em Lisboa, e que, dadas as circunstâncias atenuantes, lograra escapar da forca, mas tivera de cumprir uma longa pena. Quando, cumprida a pena, foi devolvido à liberdade, não tendo já idade nem saúde para se fazer de novo ao mar, aprendera a profissão de barbeiro e de sangrador, ficando a trabalhar na prisão e no hospital, pois, não tendo família, aqueles tristes locais tinham passado a constituir o seu único lar. Esta circunstância vinha explicar, pelo menos em parte, a grande e visível simpatia que o barbeiro nutria por Lourenço, pois também fora preso – injustamente, já se vê! – em consequência de uma rixa, como toda a gente por todo o hospício sabia,  pois a história correra de boca em boca, de cama em cama,  de enfermaria em enfermaria.  Uma rixa em defesa da honra de uma donzela, ainda para mais. Por isso, quando se queria referir a ambos, o barbeiro, que sendo uma alma simples era, além disso e apesar do seu aspecto assustador, uma boa criatura, dizia sempre «nós, os homens de honra» ou «nós, as pessoas honradas».

         Os enfermeiros, quer os principais, quer os menores, e os monges em geral, foram também bastante amáveis e caritativos. Por outro lado, logo que a febre passara, o apetite fora regressando aos poucos e o caldo e o pão que lhe serviam no hospital, a fruta fresca que Débora lhe enviava diariamente e os mimos levados por sua mãe e por sua tia Maria Beatriz, foram sendo consumidos com um crescente gosto. Para Lourenço, tudo parecia correr pelo melhor. Passados alguns dias, do ferimento, profundo e feio, restava apenas, além de uma dor muito leve, uma má recordação, uma irritante comichão e uma pequena cicatriz que o cabelo em breve iria cobrir por completo. Não se justificava continuar internado. Na sexta-feira, dia 12, recebeu alta do irmão Raimundo, o físico cristão que o tratou. Sabia que estava hospitalizado sob prisão, mas, porque a esperança é o principal alimento da alma dos prisioneiros, tinha a vã expectativa de que, sarada a ferida, o poriam em liberdade. Bernardino sempre lhe afirmara que do hospital iria para a prisão. E assim iria ser. Naquela sexta-feira de manhã, com um tempo quente e soalheiro, logo depois de tomado o almoço, mandaram-no arrumar os seus poucos haveres e subiram-no com todo o cuidado, pois estava ainda entontecido, para o dorso de uma mula. Rodeado de guardas armados, como se fora um perigoso malfeitor, saiu do hospício, despedindo-se dos amigos que ali criara. Despediu-se com gratidão dos irmãos, físicos, cirurgiões, enfermeiros, barbeiros, que tão bem o cuidaram durante o internamento. Despediu-se também do irmão Camilo, o boticário, com quem travou amizade e que lhe deu um boião com o tal malcheiroso unguento de aconitina, recomendando-lhe que o deveria continuar a pôr duas vezes ao dia até estar totalmente sarada a costura. Os meirinhos que o guardavam por turnos, já se haviam habituado a ele e estavam a ser menos antipáticos do que o tinham sido nos primeiros dias. O barbeiro Bernardino abraçara-o e garantiu-lhe que o iria visitar diariamente ao Tronco, pois também ali prestava os seus serviços, cortando e aparando cabelos, rapando barbas, fazendo curativos, sangrando doentes. 

         O cortejo escalou a íngreme calçada até à Prisão do Tronco, assim chamada por se situar no Pátio do Tronco. A cadeia fora edificada para os presos da almotaçaria e para punir crimes da sua jurisdição e infracções a ela atinentes. Prevista para conter poucas dezenas de pessoas, dada a crescente perversão do uso para que fora concebida, era vulgar nela estarem detidos, contando homens e mulheres, entre oitenta e cem pessoas. E quanto mais a cidade crescia, mais a prisão se enchia e mais os seus serviços se iam degradando. Aliás, as outras nove prisões de Lisboa, tais como a Cadeia acima da Sé, também chamada do Limoeiro, a dos clérigos, ou seja, a do Aljube, a da Moeda e as restantes, não gozavam de melhores condições – todas elas eram sujas, insalubres, sobrelotadas, numa palavra – desumanas. Na verdade, não passavam de antecâmaras do Inferno para os desgraçados que nelas eram amontoados em condições que até para animais poderiam considerar-se pouco caridosas.


 

 

 

 

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Lisboa, Julho de 1487.

Decorrida um pouco mais do que uma semana, sobre a rixa em que Lourenço se vira envolvido e do seu internamento no Hospício de São Jorge, na quarta-feira, dia 3 de Julho, foram-lhe retirados da cabeça os pontos costurados pelo físico judeu no Hospital dos Homens e do Banho, para onde fora levado, inconsciente. O físico e boticário, o irmão Camilo, viera diariamente, cobrir-lhe a ferida com panos embebidos num unguento de um cheiro desagradável, mas de um efeito curativo que parecia milagroso. Logo que colocados os parches com a malcheirosa mistela a dor e depois a intensa comichão eram substituídas por uma agradável sensação de grande conforto e frescura. Era, soube-o depois, uma velha medicina feita com base em acónito ou aconitum, uma planta ranunculácea, venenosa e mortal quando tomada em excesso (como terá acontecido com Marianna Ruju), mas também curativa, se, tal como soi acontecer com a severidade e a justiça dos príncipes, for ministrada na devida quantidade.
Por seu turno, o barbeiro, que acumulava esta função com uma outra, menos simpática, a de sangrador, zelou sempre por que o cabelo de Lourenço não crescesse na região da cabeça ferida pela pranchada que o fidalgo, lhe aplicara de uma forma traiçoeira, mas também com impetuoso esmero e eficácia. Este barbeiro, um irmão leigo, Bernardino de seu nome, era homem de meia-idade, quase inteiramente calvo, encorpado, de rosto de pele curtida e rude, cego da vista direita, recordação de uma rixa num porto do Mar do Norte, nos seus tempos de marinheiro. Sempre vestido com um fraldim e um saio de burel muito asseados e com umas botas que lhe subiam pela calça até ao joelho, apesar do seu aspecto rústico e até assustador, era uma preciosa fonte de informação para Lourenço, ensinando-lhe, enquanto lhe rapava a cara e a cabeça, não apenas os hábitos do hospital, como também o ia avisando sobre os perigos a evitar no presídio para onde seria enviado logo que os físicos o dessem como curado.
Segundo Lourenço veio a saber por um dos monges que o tratavam, Bernardino era um antigo recluso daquela cadeia, um marinheiro que, por uma questão de vinho em excesso e de jogo, talvez com alguma história de mulheres à mistura, mas parece que em defesa da própria vida, assassinara um homem numa rixa de taverna, desta vez aqui em Lisboa, e que, dadas as circunstâncias atenuantes, lograra escapar da forca, mas tivera de cumprir uma longa pena. Quando, cumprida a pena, foi devolvido à liberdade, não tendo já idade nem saúde para se fazer de novo ao mar, aprendera a profissão de barbeiro e de sangrador, ficando a trabalhar na prisão e no hospital, pois, não tendo família, aqueles tristes locais tinham passado a constituir o seu único lar. Esta circunstância vinha explicar, pelo menos em parte, a grande e visível simpatia que o barbeiro nutria por Lourenço, pois também fora preso – injustamente, já se vê! – em consequência de uma rixa, como toda a gente por todo o hospício sabia, pois a história correra de boca em boca, de cama em cama, de enfermaria em enfermaria. Uma rixa em defesa da honra de uma donzela, ainda para mais. Por isso, quando se queria referir a ambos, o barbeiro, que sendo uma alma simples era, além disso e apesar do seu aspecto assustador, uma boa criatura, dizia sempre «nós, os homens de honra» ou «nós, as pessoas honradas».
Os enfermeiros, quer os principais, quer os menores, e os monges em geral, foram também bastante amáveis e caritativos. Por outro lado, logo que a febre passara, o apetite fora regressando aos poucos e o caldo e o pão que lhe serviam no hospital, a fruta fresca que Débora lhe enviava diariamente e os mimos levados por sua mãe e por sua tia Maria Beatriz, foram sendo consumidos com um crescente gosto. Para Lourenço, tudo parecia correr pelo melhor. Passados alguns dias, do ferimento, profundo e feio, restava apenas, além de uma dor muito leve, uma má recordação, uma irritante comichão e uma pequena cicatriz que o cabelo em breve iria cobrir por completo. Não se justificava continuar internado. Na sexta-feira, dia 12, recebeu alta do irmão Raimundo, o físico cristão que o tratou. Sabia que estava hospitalizado sob prisão, mas, porque a esperança é o principal alimento da alma dos prisioneiros, tinha a vã expectativa de que, sarada a ferida, o poriam em liberdade. Bernardino sempre lhe afirmara que do hospital iria para a prisão. E assim iria ser. Naquela sexta-feira de manhã, com um tempo quente e soalheiro, logo depois de tomado o almoço, mandaram-no arrumar os seus poucos haveres e subiram-no com todo o cuidado, pois estava ainda entontecido, para o dorso de uma mula. Rodeado de guardas armados, como se fora um perigoso malfeitor, saiu do hospício, despedindo-se dos amigos que ali criara. Despediu-se com gratidão dos irmãos, físicos, cirurgiões, enfermeiros, barbeiros, que tão bem o cuidaram durante o internamento. Despediu-se também do irmão Camilo, o boticário, com quem travou amizade e que lhe deu um boião com o tal malcheiroso unguento de aconitina, recomendando-lhe que o deveria continuar a pôr duas vezes ao dia até estar totalmente sarada a costura. Os meirinhos que o guardavam por turnos, já se haviam habituado a ele e estavam a ser menos antipáticos do que o tinham sido nos primeiros dias. O barbeiro Bernardino abraçara-o e garantiu-lhe que o iria visitar diariamente ao Tronco, pois também ali prestava os seus serviços, cortando e aparando cabelos, rapando barbas, fazendo curativos, sangrando doentes.
O cortejo escalou a íngreme calçada até à Prisão do Tronco, assim chamada por se situar no Pátio do Tronco. A cadeia fora edificada para os presos da almotaçaria e para punir crimes da sua jurisdição e infracções a ela atinentes. Prevista para conter poucas dezenas de pessoas, dada a crescente perversão do uso para que fora concebida, era vulgar nela estarem detidos, contando homens e mulheres, entre oitenta e cem pessoas. E quanto mais a cidade crescia, mais a prisão se enchia e mais os seus serviços se iam degradando. Aliás, as outras nove prisões de Lisboa, tais como a Cadeia acima da Sé, também chamada do Limoeiro, a dos clérigos, ou seja, a do Aljube, a da Moeda e as restantes, não gozavam de melhores condições – todas elas eram sujas, insalubres, sobrelotadas, numa palavra – desumanas. Na verdade, não passavam de antecâmaras do Inferno para os desgraçados que nelas eram amontoados em condições que até para animais poderiam considerar-se pouco caridosas.

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Lisboa, Julho de 1487.

 

Decorrida um pouco mais do que uma semana, sobre a rixa em que Lourenço se vira envolvido e do seu internamento no Hospício de São Jorge, na quarta-feira, dia 3 de Julho, foram-lhe retirados da cabeça os pontos costurados pelo físico judeu no Hospital dos Homens e do Banho, para onde fora levado, inconsciente. O físico e boticário, o irmão Camilo, viera diariamente, cobrir-lhe a ferida com panos embebidos num unguento de um cheiro desagradável, mas de um efeito curativo que parecia milagroso. Logo que colocados os parches com a malcheirosa mistela a dor e depois a intensa comichão eram substituídas por uma agradável sensação de grande conforto e frescura. Era, soube-o depois, uma velha medicina feita com base em acónito ou aconitum, uma planta ranunculácea, venenosa e mortal quando tomada em excesso (como terá acontecido com Marianna Ruju), mas também curativa, se, tal como soi acontecer com a severidade e a justiça dos príncipes, for ministrada na devida quantidade.

Por seu turno, o barbeiro, que acumulava esta função com uma outra, menos simpática, a de sangrador, zelou sempre por que o cabelo de Lourenço não crescesse na região da cabeça ferida pela pranchada que o fidalgo, lhe aplicara de uma forma traiçoeira, mas também com impetuoso esmero e eficácia. Este barbeiro, um irmão leigo, Bernardino de seu nome, era homem de meia-idade, quase inteiramente calvo, encorpado, de rosto de pele curtida e rude, cego da vista direita, recordação de uma rixa num porto do Mar do Norte, nos seus tempos de marinheiro. Sempre vestido com um fraldim e um saio de burel muito asseados e com umas botas que lhe subiam pela calça até ao joelho, apesar do seu aspecto rústico e até assustador, era uma preciosa fonte de informação para Lourenço, ensinando-lhe, enquanto lhe rapava a cara e a cabeça, não apenas os hábitos do hospital, como também o ia avisando sobre os perigos a evitar no presídio para onde seria enviado logo que os físicos o dessem como curado.

         Segundo Lourenço veio a saber por um dos monges que o tratavam, Bernardino era um antigo recluso daquela cadeia, um marinheiro que, por uma questão de vinho em excesso e de jogo, talvez com alguma história de mulheres à mistura, mas parece que em defesa da própria vida, assassinara um homem numa rixa de taverna, desta vez aqui em Lisboa, e que, dadas as circunstâncias atenuantes, lograra escapar da forca, mas tivera de cumprir uma longa pena. Quando, cumprida a pena, foi devolvido à liberdade, não tendo já idade nem saúde para se fazer de novo ao mar, aprendera a profissão de barbeiro e de sangrador, ficando a trabalhar na prisão e no hospital, pois, não tendo família, aqueles tristes locais tinham passado a constituir o seu único lar. Esta circunstância vinha explicar, pelo menos em parte, a grande e visível simpatia que o barbeiro nutria por Lourenço, pois também fora preso – injustamente, já se vê! – em consequência de uma rixa, como toda a gente por todo o hospício sabia,  pois a história correra de boca em boca, de cama em cama,  de enfermaria em enfermaria.  Uma rixa em defesa da honra de uma donzela, ainda para mais. Por isso, quando se queria referir a ambos, o barbeiro, que sendo uma alma simples era, além disso e apesar do seu aspecto assustador, uma boa criatura, dizia sempre «nós, os homens de honra» ou «nós, as pessoas honradas».

         Os enfermeiros, quer os principais, quer os menores, e os monges em geral, foram também bastante amáveis e caritativos. Por outro lado, logo que a febre passara, o apetite fora regressando aos poucos e o caldo e o pão que lhe serviam no hospital, a fruta fresca que Débora lhe enviava diariamente e os mimos levados por sua mãe e por sua tia Maria Beatriz, foram sendo consumidos com um crescente gosto. Para Lourenço, tudo parecia correr pelo melhor. Passados alguns dias, do ferimento, profundo e feio, restava apenas, além de uma dor muito leve, uma má recordação, uma irritante comichão e uma pequena cicatriz que o cabelo em breve iria cobrir por completo. Não se justificava continuar internado. Na sexta-feira, dia 12, recebeu alta do irmão Raimundo, o físico cristão que o tratou. Sabia que estava hospitalizado sob prisão, mas, porque a esperança é o principal alimento da alma dos prisioneiros, tinha a vã expectativa de que, sarada a ferida, o poriam em liberdade. Bernardino sempre lhe afirmara que do hospital iria para a prisão. E assim iria ser. Naquela sexta-feira de manhã, com um tempo quente e soalheiro, logo depois de tomado o almoço, mandaram-no arrumar os seus poucos haveres e subiram-no com todo o cuidado, pois estava ainda entontecido, para o dorso de uma mula. Rodeado de guardas armados, como se fora um perigoso malfeitor, saiu do hospício, despedindo-se dos amigos que ali criara. Despediu-se com gratidão dos irmãos, físicos, cirurgiões, enfermeiros, barbeiros, que tão bem o cuidaram durante o internamento. Despediu-se também do irmão Camilo, o boticário, com quem travou amizade e que lhe deu um boião com o tal malcheiroso unguento de aconitina, recomendando-lhe que o deveria continuar a pôr duas vezes ao dia até estar totalmente sarada a costura. Os meirinhos que o guardavam por turnos, já se haviam habituado a ele e estavam a ser menos antipáticos do que o tinham sido nos primeiros dias. O barbeiro Bernardino abraçara-o e garantiu-lhe que o iria visitar diariamente ao Tronco, pois também ali prestava os seus serviços, cortando e aparando cabelos, rapando barbas, fazendo curativos, sangrando doentes. 

         O cortejo escalou a íngreme calçada até à Prisão do Tronco, assim chamada por se situar no Pátio do Tronco. A cadeia fora edificada para os presos da almotaçaria e para punir crimes da sua jurisdição e infracções a ela atinentes. Prevista para conter poucas dezenas de pessoas, dada a crescente perversão do uso para que fora concebida, era vulgar nela estarem detidos, contando homens e mulheres, entre oitenta e cem pessoas. E quanto mais a cidade crescia, mais a prisão se enchia e mais os seus serviços se iam degradando. Aliás, as outras nove prisões de Lisboa, tais como a Cadeia acima da Sé, também chamada do Limoeiro, a dos clérigos, ou seja, a do Aljube, a da Moeda e as restantes, não gozavam de melhores condições – todas elas eram sujas, insalubres, sobrelotadas, numa palavra – desumanas. Na verdade, não passavam de antecâmaras do Inferno para os desgraçados que nelas eram amontoados em condições que até para animais poderiam considerar-se pouco caridosas.


 

 

 

 

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