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FRATERNIZAR – Paço episcopal do Porto abre-se aos turistas E continua a ser a casa dos bispos?!… – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Já guarda dentro dele 600 anos de história, até hoje sempre escondida das populações, feita de muitas outras histórias, quase todas, ou mesmo todas, contumaz negação prática e doutrinal de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, e da sua Fé política, não religiosa. E, simultaneamente, uma atrevida afirmação da já bimilenar existência do mítico Cristo petrino e imperial que é o cristianismo de todas as igrejas cristãs, em particular, da igreja católica romana, inimiga n.º 1 da Humanidade, dos seres humanos e dos povos das nações. A começar – ironia das ironias! – por aqueles filhos de mulher que ela sibilinamente converte em seus chefes maiores e menores, todos os clérigos celibatários à força, concretamente, o papa de Roma, no topo da pirâmide universal, cada bispo residencial no topo da respectiva pirâmide diocesana, cada pároco no topo da pirâmide paroquial ou conjunto de pirâmides paroquiais.

Cada um no seu galho, faz-se rodear de outros clérigos de rango-grau inferior, atentos e reverentes, num tipo de relacionamento com tudo de platónico homossexualismo ou mesmo praticante homossexualismo clandestino, à excepção dos párocos, o nível mais baixo das várias pirâmides clericais, que têm de se fazer rodear apenas de leigas, leigos, alguns ainda adolescentes (alerta aos riscos de pedofilia, mães e pais!), mais leigas do que leigos, que lhes servem de corte, nomeadamente no altar e nos diversos serviços paroquiais, com destaque para a catequese e o canto coral litúrgico. Que também aqui se aplica o ditado popular, Quem não tem cão caça com um gato. Ou dito em linguagem eclesiástica, Quem não tem clérigos de rango-grau inferior ao seu a servir-lhe de corte, recorre ao serviço de leigas, leigos, num tipo de relacionamento com muito ou tudo de promíscuo, a roçar o pedófilo e o adúltero, pelo menos, platónico, uma vez que o celibato, quando não é opcional, mas imposto de fora para dentro por uma monstruosa lei eclesiástica, a isso conduz. Irreversivelmente. O que, só por si, diz bem todo o perverso organizado e canonizado que é o cristianismo eclesiástico, tão ou mais perverso que o cristianismo laico e secular ou mesmo ateu, vivido ao nível dos outros dois poderes, o político armado e o económico-financeiro.

Eis, porém, que, a partir desta primeira semana de Outubro 2016, o paço episcopal do Porto – é dele que se trata – numa inesperada decisão do respectivo titular de turno, D. António Francisco dos Santos, passa a estar aberto em visitas guiadas aos turistas nacionais e estrangeiros que, até agora, se quedavam pela velha e sinistra Sé catedral, ali ao lado e pelo Terreiro do Paço e se limitavam a admirar-lhe a imponente fachada. Já o grande palácio, com o Rio Douro ao fundo e o Barredo que foi degradado, anos e anos a fio, e visitado-calcorreado centenas de vezes pelo então ostracizado Pe. Américo da Casa do Gaiato, na sua desassombrada acção de visitar os pobres e as prostitutas nas suas casas degradadas, hoje, já reabilitadas, sobretudo para turista ver.

Adivinhava-se o luxo e o fausto do seu interior, mas não se via de perto, muitos menos se podia fotografar, filmar as suas muitas salas e o seu requintado recheio. Todo aquele luxo era segredo dos clérigos ocupantes e da sua corte clerical, a que se juntam algumas freiras com votos de pobreza, obediência e castidade, mas que ninguém sabe como cada um desses votos é efectivamente cumprido no meio de tanta imponência, de tanto requinte, de tanta promiscuidade, de tanto sigilo eclesiástico. Mas que importa? O que conta no cristianismo é a quantidade, não a qualidade, a aparência, não a realidade, a doutrina, não a prática quotidiana, a publicidade, não a verdade nua e crua.

O que espanta é que o bispo do Porto que fez de cicerone no dia da abertura – não podia perder a oportunidade que as televisões e máquinas dos repórteres fotográficos dos jornais e revistas lhe proporcionavam para se mostrar ao país – não tenha aproveitado para anunciar que, a partir desta decisão, o Paço episcopal deixava de ser a sua residência oficial e a residência oficial de seus bispos auxiliares, já que cada todos eles iriam passar a viver numa das muitas casas que a diocese possui na cidade e arrabaldes. Mantém-se de pedra e cal , ele e os auxiliares, naquele imponente e enorme palácio, qual rei Salomão bíblico, sem se dar conta, entretanto, do desconforto e do disparate que é ter de conviver com o movimento mais ou menos ruidoso dos curiosos turistas, durante as guiadas visitas, a troco de 5 euro por cada pessoa de maioridade e ainda não em idade de reforma. Se nem nesta altura o faz, deixa perceber que se sente confortável num palácio desta enormidade, desta grandeza, deste requinte, ainda que já de muitos séculos, mas sucessivamente restaurado.

Só não se percebe porque carga de água um clérigo como ele, impedido de constituir família e de ter um harém por sua conta, como o bíblico rei Salomão, pode sentir-se bem, neste tempo cada vez mais secular, laico, agnóstico, ateu, em semelhante ambiente palaciano e turístico. O obsceno de tudo isto só se explica, porque para D. António Francisco dos Santos, como para o papa Francisco e todos os demais bispos residenciais católicos romanos, cabe-lhes orgulhosamente ser-viver assim, para acentuarem bem o intransponível abismo que os separa desse tal judeu Jesus Nazaré, crucificado pelos sumos sacerdotes e pelo império de Roma em Abril do ano 30. A mesma Roma que hoje serve de sede aos palácios e basílicas do Vaticano. Fazem questão de deixar bem claro que, entre eles e ele, não há nada em comum. Repudiam-no com todas as suas forças e, em seu lugar, orgulham-se de serem sucessores do grupo dos doze apóstolos que o traiu, renegou e logo substituiu pelo mítico cristo davídico.

Cabe às populações cristãs católicas romanas, suas servas da gleba, durante os quase 600 anos que o Paço episcopal do Porto já conta, abrir os olhos das suas mentes-consciências e mandarem à fava este tipo de funcionários eclesiásticos. São os mais perniciosos dos funcionários do poder, nos três poderes, porque andam sempre com o nome de Deus na boca, mas com o orgulho e o desprezo pelas populações suas súbditas no coração. Quem destas populações ainda tiver o mau gosto de conhecer de perto os luxos dos clérigos de proa, os seus santuários antigos ou mais recentes, e os seus pecados mascarados de virtude e de rezas, continue a fazê-lo à vontade.

Saibam, entretanto, que, depois de tais peregrinações, sempre regressam a suas casas ainda mais vazios e desumanizados. Fôssemos e vivêssemos já numa sociedade tendencialmente humana e sororal-fraterna e todos os lugares deste tipo seriam demolidos, em nome da Humanidade. Segundo o lema, inspirado pela Ruah-Sopro de Jesus Nazaré, Demoli todos estes palácios e todos estes santuários e levantai, em seu lugar, todos os seres humanos e povos das nações caídos na extrema pobreza ou na extrema riqueza, duas situações históricas de sinal oposto mas ambas desumanizadoras, cada qual a seu modo. Para que todos cresçamos de dentro para fora em Sabedoria e em Cultura, pratiquemos a Justiça, partilhemos a riqueza e sejamos senhores dos nossos próprios destinos. E quanto aos clérigos e eclesiásticos, da pirâmide de Roma, à pirâmide da mais ignota paróquia do mundo, deixemo-los a falar sozinhos, com as suas imagens de santas, santos de altar, suas nossas senhoras de pau ou de caco, suas fantasias, suas doutrinas sem ponta de humanidade e de realidade. Demos-lhes esta prova máxima de amor fraternal, libertador e humanizador.

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