FRATERNIZAR – IGREJA DE JESUS, OU EMPRESA COM FUNCIONÁRIOS RELIGIOSOS?* – por Mário de OLiveira

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*Texto do Jornal Fraternizar,
à luz da Fé e da Teologia de Jesus. Bispo do Porto baralha e torna a dar
IGREJA DE JESUS, OU EMPRESA COM FUNCIONÁRIOS RELIGIOSOS?
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Uma mexida de alto-a-baixo. O bispo D. António Francisco acaba de mexer nas pedras do seu tabuleiro do poder, a diocese que lhe foi confiada pelo supremo poder da igreja de Roma e sua Cúria. Quem é quem na diocese – só os clérigos, mais abaixo, as religiosas, os religiosos, e, no fundo da pirâmide, os fiéis leigos – fica a saber qual o galho que lhe cabe ocupar, a partir de agora, e quais as tarefas que aí tem de desenvolver. A começar pelos três bispos auxiliares do bispo titular. A diocese é o bispo titular. Todos os mais, bispos auxiliares incluídos, são apenas seus colaboradores, quanto mais incondicionais, obedientes e reverentes, melhor. Os três bispos coabitam o mesmo palácio episcopal, mas são simplesmente auxiliares-mor do bispo titular. Não são bispos em pé de igualdade com ele. A diocese é ele, ainda que por delegação do bispo de Roma, o único que é a igreja católica. Nenhuma monarquia do mundo alguma vez se assemelhou em poder à monarquia católica romana. Todas, enquanto duraram, foram suas súbditas. Sem o aval do bispo de Roma, não eram. Cada bispo titular de diocese sabe disso. E tudo faz para ser fiel ao de Roma, a quem deve a diocese que lhe coube em sorte. Sabe bem que se lhe desagradar, pode ver fugir-lhe a diocese para ser entregue a outro mais fiel, mais submisso, mais obediente e reverente. Bispos rebeldes, é coisa impensável. O bispo Gaillot, de Évreux, França, pagou caro a sua rebeldia evangélica, só porque era capaz de trocar um solene pontifical na sé catedral da diocese por uma marcha solidária com a causa dos gays e das lésbicas.

VP, o semanário oficioso da diocese, dedica a esta mexida do novo bispo do Porto quase três páginas inteiras. A da capa e mais duas do interior, respectivamente, 9 e 13. O assunto merece todo este relevo, ainda que nenhum diário do país tenha achado a mexida episcopal objecto de notícia. Nada do que é eclesiástico é notícia nos matutinos do país. A humanidade já não é eclesiástica. E, numa sociedade não eclesiástica, igrejas eclesiásticas e tudo o que possam fazer, não chegam a ser notícia. E, quando são, é sempre, ou quase, pelas piores razões. A pedofilia do clero, por exemplo, foi notícia, por sinal, depressa abafada. O papa Francisco também é notícia, mas pelo que tem de show e de inabitual num papa. Nada de substantivo vem de Roma, qualquer que seja o papa. Aliás, do papa nunca pode vir nada de substantivo para a humanidade. Só como diversão e entretenimento. Como exótico. Mesmo as palavras mais duras que o papa Francisco tem disparado contra “uma economia que mata”, não passam de tigres de papel. Porque, uma coisa são as palavras do papa, outra coisa são as práticas financeiras da Cúria romana. E se há sistema que mais mate é o cristão católico romano. O papa parece ignorar o facto e só tem olhos para o cisco nos olhos dos de fora. Não enxerga a trave que ele próprio é, enquanto chefe absoluto e incontestado do cristianismo católico a sua Cúria romana.

A preceder a grande mexida na diocese, o bispo do Porto avança uma tentativa de justificação pastoral. Só que, em lugar de partir da realidade concreta que é a diocese e as suas populações, a esmagadora maioria não católica, ou católica não praticante, parte de um enunciado doutrinal que não tem nada a ver com o estado acabrunhado, deprimido, envelhecido das paróquias, desertas de adolescentes e jovens, à excepção dos poucos que ainda frequentam as catequeses para o crisma. Mas até esses poucos, após o dia do crisma, desertam igualmente das fileiras eclesiásticas e ficam por aí sem rumo, à deriva, totalmente indefesos em relação ao Mercado que se apodera deles e das suas mentes. As paróquias quiseram fazer deles cristãos e eles acabam ao serviço dos tiranos. O que não aconteceria, se os tivessem “puxado” de dentro para fora, até serem plena e integralmente humanos, autónomos, seres em relação recíproca, senhores dos seus próprios destinos e dos destinos do planeta.

A exortação pastoral do bispo, a preceder esta mexida, revela que ele próprio paira acima da realidade. Não sabe nada da realidade. Pelo que esta sua grande mexida acaba por se resumir a baralhar as cartas e a voltar a dar. As pedras do xadrez diocesano podem mudar de sítio, mas a realidade mantém-se de mal a pior. Para cúmulo, o bispo abre a sua exortação pastoral com a citação livre dos dois últimos versículos do Evangelho de Mateus. Só que nem a citação que faz, respeita o texto original. Lá, onde o Evangelho de Mateus apresenta Jesus Nazaré a enviar os que o prosseguem e ao seu projecto político, aos povos de todas as nações, para que sejam humanos até para lá do limite, o bispo diz que é o mítico Cristo, filho de David/ poder, que envia. A traição a Jesus é, pois, manifesta. E os resultados só podem ser desastrosos, como sempre foram e continuam a ser. Só mesmo no âmbito do Cristo/ cristianismo, é possível a existência do cristianismo e de igrejas monarquia, com bispos residenciais, como administradores de territórios, como se fossem príncipes todo-poderosos sobre as consciências das populações, a começar pelas dos seus clérigos. Já no âmbito de Jesus Nazaré, há apenas a Humanidade com o planeta terra, todo a seu cuidado. Igrejas eclesiásticas, à parte da humanidade, guetos dentro da humanidade, são coisa impensável com Jesus. A grande mexida do bispo tem, por isso, o condão de mudar as pedras do tabuleiro de xadrez do poder eclesiástico, que é a diocese, mas não muda a diocese, cada vez mais na mesma, por isso, cada vez mais gueto. Fora da humanidade não há salvação. Por mais que os bispos se danem, a realidade é essa. E as igrejas eclesiásticas são cada vez mais corpos estranhos que a humanidade evita frequentar. Para poder preservar o Humano que vem de Deus criador, no decurso da evolução. Já do cristianismo eclesiástico só vem alienação/ desumanização.

Resta ainda sublinhar, a concluir, que as muitas tarefas que, a partir desta grande mexida episcopal, cabem a cada um dos clérigos no seu galho, são todas mais do mesmo. Reuniões, formações, encontros, liturgias, missas a granel, catequeses infantis. Tudo feito com “a alegria do Evangelho”, o título que o papa Francisco deu ao seu grande documento programático. A partir de então, bispos e párocos passaram a encher as bocas com a citação desse título. Muitos deles, nunca terão lido o documento, por o acharem demasiado extenso e demasiado doutrinal. E ficam-se pelo título, como chavão a propósito de tudo e de nada. Evangelizar os pobres e os povos, é coisa que nenhum pároco ou bispo habitualmente faz. Semelhante missão é própria de presbíteros e de bispos. Não de sacerdotes e de bispos administradores de dioceses-empresa. É missão de alto risco. E nenhum clérigo está disponível para semelhante missão. São celibatários, porque a lei eclesiástica assim obriga. Não o são, opcionalmente, para assumirem até para lá do limite a missão de alto risco que é Evangelizar. Por isso, a diocese do Porto vai de mal a pior. Mas que querem? Está ao gosto do seu novo bispo, D. António Francisco e do seu viver estéril, como, de resto, é todo o viver clerical/ sacerdotal/ eclesiástico.

 

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