O MAPA (A saga do anadel)- Francesco Dandolo/39 -por Carlos Loures
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Pelos últimos dias de Junho de 1487, os serviços secretos do Reino interceptaram, pelos meios habituais, duas cartas muito curiosas. Uma delas do nosso conhecido Francesco Dandolo para os seus superiores em Veneza. Depois das irrelevantes fórmulas de abertura, dizia:
Conseguimos o nosso objectivo – temos uma cópia do mapa! Foi trabalho mui difícil e perigoso de levar a cabo, mas o satisfazer Vossas Realíssimas Senhorias compensa-me de todas as dificuldades. O mapa foi recuperado no arquivo da Casa da Mina. Na recuperação, desempenhou um papel importante o jovem sardo indicado pelo senhor Pietro Torriani. Foi ele quem logrou, mediante plano traçado por este vosso humilde servidor e com a colaboração dos senhores emissários, trazer o mapa. No entanto, e creio que o ilustríssimo senhor Torriani deveria ser informado deste pormenor, o jovem teve uma atitude algo estranha, pois soubemos que pretendeu fazer uma cópia.Foi um dosemissários da República que, quando chegámos à minha residência, o surpreendeu tentando desenhar os contornos do mapa numa folha de papel. Deu uma desculpa que não nos convenceu – que era mais seguro fazermos uma cópia, pois, se por motivo imponderável – um naufrágio, por exemplo – o mapa não chegasse a Veneza, ficávamos com a informação nele contida. Embora faça sentido, não é a ele que compete tomar decisões desta natureza, tanto mais que Vossas Realíssimas Senhorias nos tinham ordenado que não fizéssemos cópias, justamente para não se correr o risco de fragmentar tão preciosa informação. O mapa segue para Veneza na posse do amigo flamengo que o fará chegar às vossas mãos logo que a carraca em que viaja arribe à República.
Dias depois, foi interceptada outra carta. Era dirigida por um tal Cristóvão Álvares, que não se conseguiu saber quem era e que se presumiu ser uma personalidade inexistente, a uma albergaria de Toledo, que os serviços sabiam ser a cobertura para a espionagem castelhana que aqui actuava. Dizia:
Que Deus Nosso Senhor e Santa Maria, estejam com Vossa Reverendíssima, meu pai em Jesus:
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Recuperei o mapa que Vossa Reverendíssima me ordenou que obtivesse. Porém, fi-lo na companhia do legado veneziano, a cujo serviço estou, e de dois emissários da República e não tive ocasião de o copiar, embora o tenha tentado com o risco de lesar a cobertura que tenho utilizado para actuar. O mapa vai seguir para Veneza e o objectivo dos venezianos é venderem-no a Castela, menos pelo lucro do que pela esperança de que Suas Majestades Católicas, nossos senhores, possam impedir que os Portugueses encontrem uma via marítima para as Índias, coisa que parece estar iminente. Com o apoio da legação da República em Lisboa, vou viajar num navio comercial flamengo para Veneza e acompanharei de perto a operação de transferência do mapa para as mãos de servidores de Suas Majestades.
Beijando respeitosamente as mãos de Vossa Reverendíssima, vosso humilde filho e mui fiel servidor
A.
As cartas foram abertas, copiadas, cuidadosamente fechadas e seguiram os seus destinos. A carta para Toledo estava escrita num código que os nossos serviços há muito haviam desvendado – o velho código de Júlio César, em que se alinham em duas tiras dois alfabetos, o normal, ordenado de A a Z e outro, colocado por baixo, e que vai deslizando segundo critério previamente estabelecido, consoante os meses do ano, por exemplo. Para os nossos agentes, a descodificação era simples.
A versão descodificada que transcrevi é a que foi posta diante de el-rei D. João.