O MAPA (A saga do anadel)- a teia da espionagem/31 – por Carlos Loures

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Lisboa, Outubro de 1484.

Lisboa, sempre cheia de gentes do mar que iam e vinham, levando e trazendo mercadorias, não fugira à teia que a espionagem estrangeira ia tecendo – castelhanos, franceses, ingleses, alemães, flamengos, florentinos, venezianos, queriam saber o que aqui ocorria. E não só nos corredores e antecâmaras das chancelarias e palácios se colhiam informações.

Nas mais de cem tavernas da capital se discutiam assuntos que interessavam aos governos estrangeiros. Armadas que partiam ou que chegavam, terras achadas, mercadorias transportadas, informação sobre as navegações, feitorias, comércio, movimentos militares…Colhia-se o que era possível sobre a Corte, sobre a economia e as condições em que o povo vivia. Era preciso ter ouvidos à escuta por toda a cidade – em palácios, em oficinas de cartas de marear, arsenais e taracenas, tavernas e albergarias.

No campo da espionagem, Veneza era particularmente hábil, pois urdira e estendera sobre o mundo circundante uma bem organizada rede de informação a qual aqui chegara também. É, pois, a altura de vos falar de alguém que nesta história vai ter papel de algum relevo: Messer Francesco Dandolo. Oficialmente, desempenhava, as funções de legado da Sereníssima República em Lisboa. Porém, a sua missão ia, como veremos, para além do âmbito do cargo diplomático. Era homem de 30 e pouco anos, esguio, sem ser muito alto, cabelos escuros raiados de precoces cãs. Rosto amável, sereno, onde apenas os olhos azuis, cintilantes e vivos, desmentiam essa amabilidade e serenidade. Provinha de uma família antiga que dera já três doges à República – Enrico Dandolo, que governara cerca de trezentos anos atrás, Giovanni Dandolo, cujo dogado ocorrera entre 1280 e 1289 e Andrea Dandolo que ocupara o cargo de 1343 a 1354. Como terei ocasião de vos explicar, apesar de ser uma república, existe em Veneza uma aristocracia formada pelas famílias patrícias que procuram esmagar com a sua linhagem os que ascendem ao poder mercê da riqueza. Uma guerra surda entre as «famílias velhas» e as «famílias novas».

Francesco Dandolo pertencia a uma família «velha». Sua tia-avó, Giovanna Dandolo, fora a esposa do doge Pasquale Malipiero, que ocupara o cargo três décadas antes e, mulher ilustrada, além de impulsionar a indústria das rendas, a ela se devia o patrocínio do primeiro livro que se imprimiu na República. Como se sabe, Veneza é hoje a capital europeia da imprimissão. Francesco provinha, como se vê, de uma família ilustre.

 Discreto, alugara uma casa perto do Palácio dos Estaus e começara a criar a sua rede de informação. Com os seus relatórios periódicos ia enriquecendo e actualizando a informação que a Chancelaria Secreta da República acumulava em grossos volumes sobre Portugal e sobre as suas lides marítimas e não só. Como exemplo da sua actividade, transcrevo o sumário do primeiro relatório que enviou aos seus chefes sobre toda a matéria que os seus ouvidos espalhados por Lisboa lograram obter acerca dos propósitos do descobrimento da rota marítima para a Índia, bem como sobre outros assuntos íntimos do nosso Reino:

         1 – Rota desta viagem, suas escalas, e localização dos muitos outros pontos onde se encontram as especiarias e outras mercadorias. Nome das regiões, moeda nelas utilizada, seu peso e outros pormenores; 2 – Maneira como são transportadas as especiarias para Portugal; 3 – Maneira como são vendidas as especiarias em Lisboa; 4 – Medidas a tomar pelo rei sobre a compra e venda dessas especiarias; 5 – Relação do que se pretende levar de Portugal (como moeda de troca para a compra das especiarias e outras mercadorias): 6 – Minhas opiniões sobre a viabilidade destas navegações: 7 – Locais onde encontrar a pimenta; 8 – O rei de Narsin; 9 – A minha chegada a Lisboa e a minha detenção; 10 – Residência do rei de Portugal; 11 – Informação sobre a vida em Lisboa; 12 – Duques do reino de Portugal; 13 – Marqueses; 14 – Condestáveis; 15 – Condes; 16 – Arcebispos; 17 – Viscondes; 18 – Priores; 19 – Alcaides; 20 – Natureza e aspecto físico do rei de Portugal; 21 – O discurso do rei de Portugal; 22 – O modo como são utilizadas as armas; 23 – A grandeza do reino de Portugal; 24 – Maneira como são armazenadas as mercadorias em Lisboa; 25 – A arte de marinharia em Portugal.

         Do documento com que o veneziano abriu aqui as suas actividades, transcrevo o ponto nove no qual relata a sua chegada à capital do Reino, a imediata detenção na Prisão do Tronco, bem como as conversas que teve com o rei de Portugal. Transcrevo aqui o documento tal como me chegou às mãos, por mim traduzido livremente do italiano dialectal do Véneto. Apesar das minhas deficiências em matéria linguística, o sentido conserva-se, permitindo-vos compreender o essencial:

         A minha chegada a Portugal à cidade de Lisboa foi no dia 3 de Outubro de 1484, vindo a pedido de Vossas Realíssimas Senhorias para ver e entender o sucesso destas viagens aos novos territórios recentemente encontrados e navegados por portugueses, sobretudo acerca dos seus intentos de encontrarem um caminho navegável até à Índia. Mas os malignos e inimicíssimos da nossa Nação, com a sua malignidade procuraram perturbar-me; e fazer-me padecer algum mal porque universalmente as suas condições são tão péssimas que não desejariam ver alguém naquela cidade, à excepção deles; de modo que informaram aquele Sereníssimo Rei dizendo que eu tinha chegado para causar dano àquele excelentíssimo rei, e muitas outras oposições, as quais não me alongarei a relatar particularmente agora, que me puseram em grande suspeição. No dia seguinte depois que cheguei a Lisboa – que foi no dia 4 dito, que é o dia de São Francisco – fui mandado chamar a Sua Alteza ao palácio que está no alto desta cidade, onde Sua Alteza estava só, ao fundo de uma sala, escrevendo sobre uma pequena mesa, e ali cheguei. Feita a devida reverência, perguntei o que desejava Sua Alteza. O qual me perguntou de que nação era, e donde vinha, e o que tinha vindo fazer naquela cidade. Não me alonguei na resposta: respondi o que era necessário. Depois de ter falado longamente com Sua Alteza, disse a um seu que estava ali pouco distante de nós, o qual se chama Pedro de Lisboa, o qual é como dizer capitão do Conselho dos Dez.

E disse-lhe que me maltratasse numa prisão horrível, sem que eu pudesse falar com pessoa do mundo. E neste tempo mandou Sua Alteza por mim e falou-me três ou quatro vezes, e vendo ultimamente Sua Alteza que eu estava firme e constante sobre as primeiras palavras, pôs-me em liberdade, e disse-me que estivesse naquela terra a meu prazer. E eu, libertado, quis entender quem eram aqueles que me tinham feito tal oposição. E ouvi de várias pessoas dignas de fé, as quais me disseram que já um mês antes da minha chegada ali tinha sido indicado a Sua Alteza, de Veneza, por um Benetto Tondo florentino, neto (sobrinho?) de Bortolamio florentino, o qual faz grandes negócios na cidade de Lisboa, que chegava um indivíduo, enviado pela Senhoria de Veneza e pelo grande Sultão para ver e entender, no seu reino, as coisas daquela viagem da Índia no seu reino, e que a Senhoria de Veneza mandava dois navios carregados de artilharia ao Grande Sultão para impedir a Sua Alteza a sua navegação.         Por este trecho, se depreende com zelo o veneziano cumpria a sua missão.

Porém, nem só os Venezianos se preocupavam com o que aqui se passava naqueles anos em que aumentávamos os limites do mundo. E nem apenas os florentinos se inquietavam com a chegada de um novo espia de Veneza. Outros «malignos e inimicíssimos» da República aqui instalados se agitavam e moviam influências. Muitas famílias de outras nações havia que aqui tinham instalado os seus tentáculos, as suas casas comerciais. Era o caso dos alemães, os Hirschvogel e os Imhoff, de Nuremberga, os Hoechstetter, os Welser e os Fugger, de Augsburgo. A chegada do veneziano agitara as águas subterrâneas, o turbilhão de interesses que corria sob a superfície aparentemente calma em que se moviam as pessoas simples. No entanto, a agitação desse subterrâneo caudal, afectava as vidas dos seres que se moviam à superfície e, caso fosse necessário, essas vidas simples podiam até ser suprimidas ou alteradas em nome de objectivos que, neste mundo em que vivemos, nós as pessoas sem importância, não logramos descortinar, quanto mais compreender.

Lá mais para diante hei-de tagarelar um pouco mais sobre esses germanos ricos que por aí andavam e andam.

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