Após terem bebido o refrescante hidromel, Navarro pô-lo ao corrente do objectivo da missão, alargando a resumida explicação dada por el-rei: tratava-se «simplesmente» – o livreiro riu – de recuperar um mapa roubado semanas antes na Casa da Mina, por espias venezianos. Tratava-se de um mapa-múndi com informações secretas:
– Terá sido devido à cobiça por este mapa que, há dois anos, o pai de vossa mercê, foi assassinado por indivíduos que se supõe ser gente a mando de Castela ou de Veneza, ou dos dois – Lourenço, sentiu uma forte emoção, não reparando por isso que o hebreu estava também comovido.
O livreiro prosseguiu – não deviam ter encontrado o que queriam na oficina, pois agora, uma das cópias do mapa entregue ao cuidado do rei por Vaz da Cunha, desaparecera da Casa da Mina e da Índia onde estava arquivada. O roubo coincidira com a presença em Lisboa de dois emissários venezianos que tinham, como é natural, estado em contacto com o legado da Sereníssima em Lisboa, um tal Dandolo que se sabia ser um informador da Chancelaria Secreta. Estivera com os dois emissários supostamente comerciais e com um ajudante na Casa da Mina agenciando a compra de uma avultada quantidade de especiarias e de outras mercadorias. Pensava-se que enquanto o legado e os emissários eram recebidos pelo senhor Ouvidor da Mesa, o ajudante, com ou sem cumplicidades internas, praticara o roubo. Era uma cópia, mas igual ao original pelo que os estragos produzidos pela sua chegada às mãos erradas seriam tremendos. Os Venezianos sempre haviam reclamado, de forma polida e pela via diplomática, a posse da carta, invocando a autoria original de Andrea Bianco, um filho da República. Por seu turno, os Portugueses alegavam que esse mapa fora comprado e, portanto, era propriedade do Reino. E, na realidade, tratava-se agora já de outro mapa, pois incorporava informação posterior a 1448, inclusivamente, dizia-se, resultante de viagens muito recentes. Em suma, Portugal não aceitou as ofertas de compra que de Veneza foi recebendo. E não se via possibilidade de chegar a um acordo. Como costumava dizer-se, dado que «não foi a bem, foi a mal», comentou Saul, concluindo:
Tivesse eu menos vinte ou trinta anos e, garanto-lho, não precisaria de ajuda, eu mesmo trataria de recuperar ou de roubar, como se prefira, o maldito mapa – e acrescentou – Mas como o meu amigo pode ver, estou já um pouco trôpego para aventuras e correrias, as minhas articulações emperram de dia para dia. Por outro lado, sendo judeu – tocou numa estrela de David em ouro que trazia ao pescoço e que espreitava sob a abotoadura da camisa – maiores seriam as dificuldades, pois é de noite que esses assuntos se tratam melhor e, de noite, não posso ser encontrado fora daqui. Por tudo isso, quando tive conhecimento da questão, fiz chegar a Lisboa a indicação de que deviam mandar alguém que fosse jovem, lesto, corajoso, destemido, mas prudente e assisado, pois este é assunto a ser tratado com audácia, mas com muito cuidado e a maior ponderação – riu-se. Meu jovem amigo, para não irmos mais longe, com o mesmo cuidado e ponderação com que os Venezianos roubaram o mapa em Lisboa. Pelos vistos, el-rei ou quem o informou, entendeu que o senhor é a a pessoa indicada, possuindo as qualidades requeridas.
Nos meios habituais – que Lourenço ignorava quais pudessem ser, mas que calculava serem os dos enculcas aninhados na cidade lagunar – correra a informação de que o mapa fora «recuperado» – eufemismo para roubado – comentou em jocoso aparte, o que confirmava os temores de el-rei de que o mapa viesse a ser vendido pelos venezianos a Castela, pois para a República, que pretendia sobretudo manter o que restava do seu domínio sobre a rota do Mediterrâneo, com a inter comunicabilidade entre os oceanos Atlântico e Índico agora quase confirmada, a informação de terras do outro lado do Atlântico era pouco relevante em termos práticos, mas importantíssima em termos de negociações políticas:
– Sabe-se por aqui, nesses meios, que, nos próximos dias, vão chegar a Veneza enviados de Castela. Não se sabe ao certo qual a natureza da sua missão, mas, segundo o que pude colher, tudo indica que seja para negociarem a compra do mapa que nos foi roubado. Há, pois, que trabalhar depressa, com eficácia e, sobretudo, no momento exacto. – Porém – acrescentou – o mapa tem de ser por nós recuperado de forma discreta, sem causar problemas diplomáticos entre Portugal e a República. Isto significa que, se o meu amigo fosse descoberto durante as suas diligências, não teria qualquer apoio, sendo tratado como um vulgar ladrão.
Saul disse que ainda lhe faltavam elos na cadeia informativa que deveria facultar a Lourenço para que este pudesse, com as necessárias eficácia e rapidez, obter a valiosa carta geográfica. Sabia já que o doge Agostino Barbarigo, por certo ao corrente do ínvio negócio, não se envolveria directamente no assunto, pois não queria que a República tivesse problemas com Portugal. Referiu então um comerciante rico e ligado ao poder, nomeadamente à Chancelaria Secreta, da qual seria um velho agente, um dos homens de mão do doge, o qual, segundo ouvira dizer, seria o mais provável negociador e iria agenciar a venda do mapa pelos Venezianos a Castela. Disse-lhe o nome do abastado comerciante – Piero Torriani, com um palácio situado nas proximidades da Piazza San Marco, na Calle Larga San Marco, rente ao Rio Canonica o di Palazzo. Mas, recomendou, Lourenço não deveria dar um passo sequer, sem receber mais instruções, pois esta informação poderia não passar de um rumor como tantos que circulavam nos «meios» e se verificava depois não passarem de boatos, muitas vezes espalhados com o intuito de confundir quem andasse à pesca de informações. Para actuar com rapidez e inteira segurança, precisava de dispor de dados muito consistentes e não de meros boatos que poderiam não passar de vulgares manobras de intoxicação e desinformação, lançadas por inimigos da Coroa portuguesa. Disse ainda:
– A questão não é encontrar o mapa, sabe-se onde está guardado o original. Está, sim, em que os castelhanos e os venezianos não possuam uma cópia que lhes irá dizer coisas que não sabem – Pedindo então desculpa para se ausentar por breves momentos, o livreiro ergueu-se da cadeira e, encaminhando-se para a escada de madeira, subiu ao andar superior, voltando depois com uma bolsa de pano contendo uma generosa quantia em ducados de ouro que entregou a Lourenço – para comprar roupas, armas, boas-vontades, tudo aquilo de que necessitasse, e também para poder mudar-se para alojamento condigno, disse, pois Lourenço tivera, durante a conversa, ocasião de se queixar da insalubridade e das más condições de segurança oferecidas pela estalagem onde ficara hospedado.
O livreiro pediu-lhe ainda que nessa tarde, cerca das sete horas e, portanto, uma hora antes de os portões da judiaria serem fechados, o voltasse a visitar, pois então estaria já seguramente de posse das tais indicações mais precisas sobre o possuidor do mapa e sobre o dia e a hora em que se esperava que fosse vendido. E repetiu que iria receber alguém, que estava muito por dentro daquela intriga e que lhe proporcionaria essas úteis e indispensáveis informações. Lourenço colocou então uma questão que muito o preocupava. E se a transacção do mapa viesse a ser realizada numa altura em que a carraca flamenga tivesse já partido, se ocorresse depois da meia-noite da próxima quarta-feira? O livreiro tranquilizou-o. Segundo julgava saber, tal não era provável. Em todo o caso, se assim acontecesse, providenciaria para que ficasse instalado em Veneza, com segurança e pelo tempo necessário até lhe conseguir arranjar transporte de confiança para Lisboa. Que não se preocupasse, insistiu.
Tudo estava esclarecido. Despediram-se, insistindo muito o livreiro em que o jovem apenas viesse à hora recomendada – por certo, deduziu o jovem, não queria que se cruzasse com a pessoa ou pessoas com que se ia encontrar. Saul veio acompanhá-lo à saída na altura em que uma mulher já avançada na idade, com cabelos brancos, com um balde e uma vassoura nas mãos vinha a entrar. Era, pelos vistos, Sara, que vinha limpar o estabelecimento. A mulher olhou Lourenço com curiosidade. Saiu, pois, para a estreita rua, onde um sol de um radioso esplendor contrastava com a penumbra reinante no interior da livraria.