
Depois de 2 000 anos de total humilhação-desprezo-fogueirasdeinquisição-crucifixãocontínua das mulheres, inclusive, das baptizadas por ela, a igreja católica romana continua a reincidir nessa sua macabra postura para com elas. Nem as profundas mudanças nas sociedades ocidentais e mundiais, nem a imparável luta das mulheres a nível continental e mundial pela igualdade entre mulheres e homens, sempre no respeito pelas diferenças, têm suscitado qualquer inquietação-acolhimento no seu interior, manifestamente, uma igreja de homens, mais machos do que homens, porque clérigos celibatários à força e completamente fora da realidade quotidiana dos povos que, como se sabe, é de sua natureza profana, secular, laica. Onde o sagrado-nãohumano, é, e bem, cada vez mais um gueto cercado de profano-humano por todos os lados, e que ela continua a ter como coisa impura, contaminada, da qual é preciso fugir e correr a refugiar-se nos santuários, nos conventos-mosteiros, de preferência, de clausura total e vitalícia. Sem nunca se chegar sequer a dar conta de que, assim, é uma igreja esquizofrénica, a suscitar dó e asco por parte das novas gerações saudavelmente pós-cristãs, laicas, seculares, ateias do sádico deus dela e dos seus clérigos funcionários.
Com a chegada do papa Francisco à frente da Cúria romana, houve, até há poucos dias, generalizada, ainda que ingénua, expectativa duma substantiva mudança no interior da igreja, nomeadamente, no que respeita à plena igualdade entre mulheres e homens baptizados. Mas até essa ingénua expectativa acaba, agora de sair escandalosamente gorada, já que o próprio papa Francisco, como, de resto, sempre tenho dito desde o início do seu pontificado, não passa afinal de um beato actor – que me perdoem os actores profissionais – puro jesuitismo em acção, lindas palavras, espectaculares gestos para tvs do mundo se entreterem-exibirem e, com isso, alienarem as populações e os povos, algumas encíclicas aparentemente contundentes, mas confrangedoramente vazias de práticas alternativas e jesuânicas, na linha do plena e integralmente humano.
Posto perante a realidade e a gritante necessidade de alterar de raiz o que tem estado em vigor na chamada Cristandade ocidental, no referente à possibilidade da ordenação de mulheres presbíteros e bispos, o papa Francisco remeteu cinicamente a jornalista para as demenciais decisões de um dos seus imediatos predecessores, o papa João Paulo II, já escandalosamente canonizado santo de altar e, com isso, deu a estucada final na recusa, por parte da igreja católica, de alterar uma multisecular situação que só mesmo clérigos frustrados, mantidos por toda a vida no infantil, são capazes de gostar e de justificar. À inesperada, mas mais do que oportuna pergunta da jornalista, formulada durante a viagem de avião, no regresso da recente visita papal à Suécia, onde ele próprio teve a co-presidir uma mulher bispo da igreja luterana, Se é legítimo esperar para breve na igreja católica romana a ordenação de mulheres presbíteros e bispos, o papa Francisco disse rotunda e ostensivamente, Não!!!
Até a Terra e todo o Cosmos tremeram com este seu rotundo e definitivo NÃO, com tudo de um sismo de máxima magnitude, que só deixou de pé, para sua vergonha, a Cúria romana, a praça e basílica de s. pedro e de s.paulo, as catedrais, os paços episcopais, os templos e residências paroquiais de cada uma das inúmeras dioceses do mundo católico, dentro dos quais tudo é crime e garotice, hipocrisia e tirania institucionais. De modo que aos seres humanos, mulheres e homens, com espinha dorsal e com um pingo de dignidade e de afectos, só resta fugirem a sete pés desses antros de abominação. Podem os clérigos continuar a congregar nesses lugares milhares, milhões de cegos-que-recusam-ver e que recusam assumir os seus destinos nas próprias mãos. Podem. Mas só para sua própria vergonha, vergonha do papa, da Cúria romana, das dioceses e das paróquias católicas que insistem em viver fora da história e da realidade dos povos.
São estas concretamente as palavras textuais do papa Francisco à pergunta da jornalista:“Quanto à ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra clara foi dada por São João Paulo II, e esta palavra permanece”.
Depois, como quem tenta juntar os cacos que este seu sísmico NÂO causou, Francisco, o jesuíta-papa, por isso, o maior desde a fundação da cristianíssima Companhia de Jesus por Inácio de Loyola, pôs-se então a divagar sozinho sobre a dignidade das mulheres, não as de carne e osso, mas as míticas, tal e qual como fez também o papa João Paulo II, numa encíclica com esse mesmo título (“Mullieris dignitatem”, em latim). Eis as suas moralistas e sádicas considerações supermoralistas: “A dimensão petrina, que é a dos apóstolos – Pedro e o colégio apostólico, a pastoral dos bispos – e a dimensão mariana, que é a dimensão feminina da Igreja. Já disse isto mais do que uma vez. Pergunto-me quem é mais importante na teologia e na mística da Igreja: os apóstolos ou Maria? Quem é mais importante no dia de Pentecostes? É Maria! Mais ainda: a Igreja é mulher. É «a» Igreja, não é «o» Igreja. É a Igreja; e a Igreja desposa Jesus Cristo. É um mistério esponsal. E, à luz deste mistério, compreende-se o motivo destas duas dimensões: a dimensão petrina, isto é, episcopal, e a dimensão mariana, com tudo aquilo que é a maternidade da Igreja, mas em sentido mais profundo. Não existe a Igreja sem esta dimensão feminina, porque ela própria é feminina”
Se com estas suas considerações, o papa quis emendar a mão, acabou por ficar sem mão. Se quis manter os pés no chão, acabou por ficar sem pés e sem chão. É que a igreja ou é jesuânica, animada pela mesma Ruah de Jesus Nazaré, o filho de Maria, ou não passa da Besta de que fala o Livro do Apocalipse ou Revelação, que existe na história com um único propósito: dominar as mentes-consciências das pessoas e dos povos. Ao contrário do que diz o papa, o petrino/episcopalino e o marianismo na igreja são a marca da traição, do assassinato do próprio Jesus e do seu Movimento político maiêutico. Os 4 Evangelhos canónicos em 5 volumes aí estão a revelá-lo/ denunciá-lo da primeira à última páginas.
Resta às mulheres, baptizadas ou não, decidir se ainda lhes interessa uma igreja assim, só de machos e machos celibatários à força, capazes de decisões deste calibre anti-humanidade, anti-mulheres e homens em indissolúvel unidade. Porque com este seu mais do que esperado NÃO à possibilidade de ordenar mulheres presbíteros e bispos católicos, o papa Francisco mostrou bem ao que veio, quando aceitou trocar Buenos Aires por Roma, o estatuto de arcebispo emérito pelo de bispo titular de Roma e papa universal. Os seus curtos anos de pontificado ficam para a história como os mais estéreis destes dois últimos séculos. Dificilmente, um outro papa conseguirá ser mais enganador do que ele. Tem tudo de papa cristão imperial, nada de Jesus Nazaré. Tem tudo de Cristo-poder invicto e de encenação, nada de Humano maiêutico e de fecunda fragilidade. É uma cana agitada pelo vento. Acaba, estes dias, de matar a esperança, o mesmo é dizer, Deus Abba-Mãe, o de Jesus e dos povos. Que chorem as pedras, já que os clérigos celibatários, totalmente desprovidos de coração, de afectos, de emoções, intrinsecamente machos, estéreis, obtusos, cínicos, cruéis, desconhecem as lágrimas. São talhas secas, como as da narrativa teológica das “bodas de Canã” do Evangelho de João.
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