
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O AfD: a outra Alemanha
Os alemães que menos gostam de migrantes
Thomas Girondel, Fotógrafo, L’AfD: l’autre Allemagne, Les Allemands qui aimaient moins les migrants
Revista Causeur.fr, 21 de Dezembro de 2016
Criado há três anos, o AfD (Alternativa para a Alemanha) está em plena ascensão, devido sobretudo à crise dos migrantes. Thomas Girondel foi à Berlim, onde este partido soberanista provocou uma surpresa obtendo 15% de votos nas eleições regionais de Setembro. Fotografou militantes e eleitores AfD, e fez-lhes as mesmas perguntas. Um retrato de grupo que nos reserva algumas surpresas.
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Herbert, 51 anos, engenheiro, vive a nordeste de Berlim.
“Votei AfD porque os outros partidos alemães pensam todos a mesma coisa: assemelham-se à União europeia. Os Alemães não têm necessariamente a mesma opinião que “a Europa”. Mas as suas ideias são rejeitadas pelos partidos de esquerda. Pelo menos o AfD tem a sua própria opinião, distante da maioria. Por conseguinte, ouvem-nos. Na semana passada, Hendrik Pauli, um professor, foi despedido porque tinha votado AfD, onde é que está então a democracia? A França tem a Frente nacional, a Áustria o Movimento para a Europa das nações e as liberdades. Somos uma das últimas nações a não poder exprimir-se, queremos mais democracia
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Hendrik Pauli, 38 anos, o professor de Biologia e de química, vive no bairro de Neukölln, em Berlim.
“Votei AfD aquando das últimas eleições locais de Berlim e participei mesmo enquanto candidato pelo distrito de Neukölln, mas não tive bastantes votos para ser eleito. Desde os seus inícios em outubro de 2013, vi o AfD crescer em força, não sabemos onde o vento nos vai levar mas estou convencido que esta subida está longe de parar. Nas últimas eleições obtivemos 14,2%de votos, e questiono-me como é que poderemos alcançar os 17/20% em setembro de 2017.”
Hendrik Pauli perdeu o seu posto de professor do liceu por ter abertamente falado abertamente das suas atividades políticas. Participou em 2016 em manifestações organizadas por PEGIDA (Europeus patrióticos contra a islamização do Ocidente). Afirma estar próximo do Bloco identitário (Identitäre Bewegung).
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Christian Buchholz, deputado AfD (Alternativa para a Alemanha) no Parlamento local de Berlim, foi eleito no distrito de Pankow-1 aquando das eleições do 18 de setembro de 2016, com 22,44% dos votos.
Entrevistador. Pode apresentar-se?
Christian Buchholz. Tenho 50 anos, nasci em Hamburgo e habito no bairro de PrenzlauerBerg em Berlim. A minha família é originária de Hanôver e Rostock. Juntei-me ao AfD há dois anos e meio. Outrora, fui oficial no exército alemão durante doze anos (continuo a ser capitão de reserva). Cheguei à Berlim em 2006 para trabalhar na Daimler. A minha família sempre votou CDU, mas nos anos 1980-1990 começou a pôr-nos perguntas porque nenhum partido representava a classe média e os cidadãos conservadores. Hoje, o AfD ocupa este espaço político. Temos a nossa própria cultura, temos experiência e armamo-nos intelectualmente contra o sistema atual. Somos uma verdadeira oposição.
Pensam obter tais resultados nas eleições locais de 2016?
Era pouco provável. Os meus resultados no distrito de Pankow-1, 22,44%, era inesperado.
Porque escolheram apresentar-se neste distrito?
Considerávamos, com razão, que as dificuldades deste bairro jogavam a nosso favor. Em primeiro lugar, há um grande problema de transporte em comum: é necessário cerca de uma hora e meia para chegarmos ao centro de Berlim. Seguidamente, um problema de imigração: conta-se já 8.500 imigrantes sobre 50.000 habitantes e espera-se 7.000 à 8.000 mais em 2017. Será necessário por conseguinte construir centros de acolhimento para refugiados que se irão acrescentar aos que existem já. Ora o governo não diz nada quanto aos seus projetos. Mas os habitantes não são estúpidos, e não suportam que façam isso nas suas costas, sem mesmo nos informarem seja do que for.. Aí está porque votamos AfD. Por último, Pankow-1 sofre de dificuldades económicas e de uma escassez de alojamentos. O governo enganou-se quanto a projetos: mais de 78 milhões de euros foram injetados em projetos de construção mas os preços são exorbitantes. Por último, há menos dinheiro para a educação. Pessoalmente, teria gostado pelo contrário de que Berlim renovasse as nossas escolas de Pankow-1, as quais estão muito degradadas.
De acordo com os senhores por conseguinte, há um problema de comunicação entre o governo e os cidadãos?
Exatamente. As pessoas ficaram surpreendidas, alguém lhes perguntou alguma coisa?
Qual é o perfil de um eleitor AfD?
Tem entre 30 e os 60 anos. Os mais jovens e os estudantes não se interessam pelo AfD antes de se confrontarem com a realidade dos mercados do trabalho e da habitação. É então que descobrem também que há mesmo impostos em grande demasia. Nós temos igualmente muitas pessoas procedentes da classe operária e dos trabalhadores independentes.
Politicamente, de onde vêm?
Essencialmente, vêm dos abstencionistas. Sobre os 231.000 votos a nosso favor nas eleições locais de setembro de 2016, cerca de 70.000 eram antigos abstencionistas.
Quais são as exigências do AfD para o futuro próximo?
Que o governo alemão respeite a lei e que Angela Merkel comunique mais com os cidadãos alemães. Depois dos atentados do Bataclan e de Nice, após os acontecimentos de Colónia, a chanceler praticamente calou-se! Queremos informar o povo e fazer ouvir a nossa crítica ao governo mas também em relação ao Parlamento. Ainda que não tenhamos muita força eleitoral, vamos despertar a população alemã.
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Warner Bruns, 53 anos, engenheiro em cálculo numérico à Berlim e em Losenstein na Áustria.
“Votei AfD em Charlottenburg para as eleições locais de Berlim, porque não tinha outras escolhas. Os outros partidos não têm nenhum sentido aos meus olhos. O AfD propõe uma verdadeira alternativa, porque aqui, em Berlim… não há liberdade de expressão com os partidos; é uma falsa democracia. Estamos já bem fartos do atual governo Merkel [Merkel], gozaram connosco e sentimo-nos excluídos da sociedade alemã, enquanto com o AfD somos escutados. Compreendem-nos. Este partido permite quebrar o silêncio que reina na sociedade alemã. Espero que nos faça sair da crise dos migrantes e da nossa economia em evidente estagnação devido à Grécia.”
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Beate Prömm, 42 anos, tradutora freelance francês-alemão, habita a norte de Berlim
“Votei AfD para reforçar a hegemonia alemã. De forma alguma não apreciei que Merkel tenha decidido ajudar a Grécia, em 2012, sem nos perguntar qual era a opinião dos cidadãos. Merkel prefere a União europeia. Não pensou um só um segundo nos Alemães. É necessário uma política para o povo e não contra ele, e falo mesmo dos Alemães que não vivem aqui.
Antes, votava pelo Partido pirata, um partido de extrema-esquerda ou mesmo anarquista, mas em 2013 deixei-o porque se tornaram anti-nação.
Tenho-me interessado pelo AfD em Agosto de 2015, quando a Alemanha decidiu abrir as suas fronteiras aos refugiados. Compreendo que as pessoas procurem uma nova vida porque eu próprio tenho origens romenas, mas não vejo porque é que se deixa entrar esta imigração de massa, está tudo fora dos limites.
As pessoas dizem que nós, os eleitores do AfD, somos o diabo. Lamento, mas somos uma comunidade onde há ideias diferentes, em que é necessário respeitá-las.
Não quero guerra com as outras nações, mas o AfD deve-nos fazer sair da União europeia que é, do meu ponto de vista, uma ditadura. Tenho medo de que as nações europeias se dissolvidas ao longo de décadas. “
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Sarah-Emanuela Leins, 30 anos, ex-conselheira em negócios, eleita AfD para o Parlamento local de Berlim, vive a Sul de Berlim, em Steglitz-Zehlendorf.
“Decidi votar AfD porque não suporto mais a política de Angela Merkel. Esta funciona contra nós, cidadãos alemães. Traiu o povo. É necessário acabar com os fluxos transfronteiriços da imigração. O problema, hoje, é que a política alemã é desequilibrada a favor da esquerda. Comportando-se como uma verdadeira oposição que controla o governo, o AfD vai restabelecer o equilíbrio político. Espero que daqui a cinco ou a dez anos o AfD seja o primeiro partido no Bundestag. Hoje, é ainda muito jovem, tem necessidade de aprender a governar o país antes que os Alemães lhes dêem a sua confiança, o seu voto.”
Publicação autorizada. Revista Causeur.
Thomas Girondel, Fotógrafo, Revista Causeur, L’AfD: l’autre Allemagne, Les Allemands qui aimaient moins les migrants. Texto disponível em:
http://www.causeur.fr/afd-allemagne-berlin-migrants-merkel-41723.html#

