CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – O RIGOR NÓRDICO
joaompmachado
Fui ao Ikea e num impulso comprei duas colheres de pau e um conjunto de seis copos de vinho.
Já completamente exaurido, farto e perdido naquele emaranhado florestal, inclinei distraidamente a caixa dos copos, esta abriu-se e um deles caiu, partindo-se pelo pé. Deitei os restos fora e lá fui pagar, cheio de vontade de me ver dali pra fora.
Resolvi usar uma caixa com menos gente (só para compras inferiores a 15 coisas!) que era um écran computorizado que propunha, explicava, dava ordens através de imagens, legendas e botões e ralhava se não fazíamos a coisa bem, o pagamento como deve ser, enquanto eu suava e lhe pedia vagamente desculpa. Felizmente um funcionário desembaraçado e prestável salvou-me da apoplexia evidente. Solícito, abriu a caixa, “só para ver se continha realmente seis copos e se estava tudo em ordem”, confidenciou-me. Expliquei-lhe o infortúnio vidral, mas que não tinha importância, que levaria cinco copos pelo preço de seis, pronto, paciência, aquilo até era barato, pois claro, muito obrigado e boa tarde.
Olhou-me de um modo diferente e grave. Que não, que não podia sair assim só com cinco copos, que contabilisticamente tinham ali entrado seis copos e teriam portanto de sair os mesmos seis, o sistema não aceitaria, a engrenagem iria emperrar, etc. Assustou-me, imaginei alarmes e sirenes, polícia de choque a entrar por ali dentro direita a mim, a multidão aos gritos, granadas de fumo, o caos instalado.
Ele telefonou, explicou, exigiu, deu ordens, transmitiu o código da caixa, pediu-me para esperar, calmo e propício, eficaz e telegráfico. Apareceu então um outro funcionário, que me deu uma outra caixa com os seis obrigatórios copos, eu devolvi-lhe a minha, a ele e ao sistema, com os cinco restantes copos, cumprimentaram-me, efusivos e eu pirei-me, antes que descobrissem mais alguma anomalia, sei lá, que as colheres de pau pesavam mais do que o previsto e referenciado ou outra coisa qualquer do género.
Para a outra vez levo uma gabardine, meto dois copos num seu bolso interior, aquela cena repete-se e eu, como bom português, saio mazé dali com oito copos pelo preço de seis e a enganar os vikings, olarila.