CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – CONSERTAÇÃOZÃO SOCIAL

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Estou excitadíssimo e oxalá eu vos consiga comunicar, propagar, entumescer e ensopar dessa minha excitação, ó pessoal de Esquerda, ó meus correligionários e amigos, sempre a apoiarem-me e a aplaudirem-me (coisa rara, eu sei, eu concedo, estava a brincar) nesta excitação incontrolável em que me encontro, desaustinado e eufórico a mais não poder, viva Portugal, éfe-érre-á.

O Rapaz da Intersindical e O Rapaz da CIP, estão mano a mano, no Canal 3, aos matraquilhos! À negra!

Cada um a puxar as inefáveis e desgastadas brasas às suas obsoletas, obsessivas e controversas sardinhas, tão queridos, tão giros, ambos os dois!

(Se calhar até irão jantar juntos, beber uns copos e contracenar, depois daquela mise-en-scène, depois daquele bate-papo educado, bem vestido e penteado, quem sabe).

E de que é que se tratava e de que é que se tratava e de que é que se tratava?

O Salário Mínimo, a Social Concertação, a Assembleia da República a anteCIPar-se, o gajo da dita CIP preocupado e cauteloso, a explicar tudo sem explicar nada, o Victor Mature (*) da Intersindical a pretender o já! do costume, porque sim, porque ele é o povo, ele é os trabalhadores – aquelas rendas velhas, aquele chá frio e desenxabido do costume.

Um queria 557 euros, o outro 530 euros, toma lá, dá cá, afinal há uma diferença, que diabo! Os “bons” pretendem 557 euros e os “maus” não passam dos 530! Por mês!

E isto é importante! Porque se a diferença (27 euros, para os mais aritmeticamente inaptos) representa, para os primeiros, mais umas bicas, mais umas bejecas e mais uma ou duas sandes de couratos ao fim do mês – para os segundos (é que eles são muitos, de ambos os lados) é uma verba natural e simples, rara e eventualmente empregue em um outro almoço mais frugal e mais à pressa, num intervalo das compras de Natal, por exemplo, nada de especial, também não vale a pena exagerar.

Agora a sério:

O que um e outro sabem muito bem é o conceito da Mais Valia, é a relação do Capital e do Trabalho, é o facto de tudo aquilo ser uma alimentada conversa de chacha, aquela discussão dos mais ou menos quinze ou mais ou menos vinte euros. É que nem um nem o outro fazem ideia do que é viver com 530 euros por mês. Ou mesmo 537.

Nem eu, aliás, nem os que me estão a ler  –  dita, educada e bem formada classe média  –  que percebem destas coisas que se fartam. Não fazem.

Quanto a vocês, quero que se fodam. Deixem-se estar, não se incomodem. A minha grande preocupação era o Povo, o tal dos 530 euros ou os milhares de desempregados sem qualquer subsídio de coisa nenhuma.

É que eles, povo, coitados, não sabem nem fazem qualquer ideia do que é isso da Mais Valia.

E quem lho devia explicar não o faz. Veste casacos de couro e vai a comícios e à televisão. Com aquele ar intersindicálico, irritante e eterno.

23 de Novembro 

Carlos

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(*) Péssimo actor americano dos anos cinquenta, que nunca mudava de expressão.

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