– Ia levar-lhe a informação sobre a chegada da San Miguel. Mas Julián ou outro, já lá tinha estado e assassinado – Lourenço comentou:
– Um assassino e um traidor – Porém, Jan Peter mostrou-se compreensivo com o andaluz. Coisa surpreendente, tendo em conta que o espancara brutalmente, só não o matando porque o português se opusera:
– Não é um traidor, é um espia. Lembra-te de que é súbdito de Castela e de que serve os interesses dos seus soberanos. Mesmo que dê informações sobre Castela a Veneza, serão informações pouco importantes e que apenas servem para o credibilizar. Eu já tenho feito o mesmo. Quem anda nesta vida não pode ter escrúpulos que só servem para dificultar e, às vezes, para conduzir ao fracasso. Só temos um objectivo, o cumprimento da missão – Diogo assentia com a cabeça e o flamengo acrescentou – Não teria hesitado em matá-lo se tu e o Van der Meer não o tivessem impedido. E não tinha ainda a certeza de que fosse um inimigo. Uma instintiva suposição foi suficiente para que decidisse suprimi-lo. Porque mais vale matar um inocente, do que correr o risco de deixar um inimigo vivo. Nesta actividade, vil por natureza, temos de estar preparados para, quando levantamos uma inofensiva pedra, encontrarmos um escorpião mortal – e prosseguiu – às vezes, são os outros que levantam a pedrinha e somos nós que lá estamos escondidos e que somos o lacrau mortal. O andaluz cumpre a sua missão, como nós – depois, concluiu com um malicioso sorriso – Mas mata-o logo que puderes, pois será menos um a atravessar-se amanhã no teu caminho. Se continuares nesta vida, vais perder esses princípios dos militares de profissão. Os nobres sentimentos, no nosso sujo mester, só servem para provocar atrasos, incómodos e fracassos – Diogo disse apenas:
– É verdade. Inimigo deve ser suprimido. Só temos deveres para com o nosso rei e para com a missão de que nos tenham encarregado. Tudo o resto são ninharias – Lourenço perguntou ainda a Peter:
– E os teus amigos? O «anão vermelho», o «gigante barbudo» e o «comitre careca»? Espiões também? – Jan Peter riu-se das alcunhas:
– Amigos fiéis, não eram espiões. O pobre Eduwart, além do grumete que nos foi buscar a garrafa, foi a única vítimas, embora acredite que o andaluz, o capitão ou ambos, nos queriam suprimir aos quatro de uma vez. Joris e Wouter estão já a caminho da Flandres a bordo de uma galé onde os consegui fazer embarcar.
Faltava uma revelação quanto a Jan Peter – a da sua verdadeira identidade. Era um súbdito de Portugal. Embora tivesse nascido na Flandres e o seu nome de baptismo fosse Johannes Peter von Olm, chamava-se agora João Dulmo. Fora quase vinte anos antes, ainda criança, com Ferdinand, o irmão mais velho, para Portugal. Ferdinand depressa se distinguira como navegador, procurando descobrir terras a Ocidente. Cinco anos antes, el-rei doara-lhe a posse das terras que viesse a encontrar. Em Julho de 1486, associara-se ao madeirense Afonso do Estreito na empresa de descobrir novas terras, tendo el-rei confirmado por carta régia esta associação. Ferdinand, que passara a chamar-se Fernão Dulmo, fixara-se depois nos Açores, sendo nomeado capitão das quatro ribeiras da ilha Terceira. João, ficara em Lisboa servindo na polícia do Reino, distinguindo-se como um dos melhores enculcas de que Portugal dispunha. A modéstia impedira-o de revelar este pormenor. Foi Diogo quem o referiu, concluindo:
– A minha história terá de ficar para depois, pois de momento temos a fazer coisas mais importantes do que a minha biografia que, em todo o caso, não é tão interessante como a do João.
– Fico à espera dela – Lourenço ficara surpreendido com o que ouvira sobre Jan Peter, ou melhor, sobre João Dulmo.
Calaram-se, pois ouviam-se mais perto os gritos dos perseguidores, acompanhados pelos ladridos e uivos de todos os cães de Veneza, alvoroçados com tanta agitação numa altura em que a cidade dormia.