O MAPA (A saga do anadel/75) – um aliado inesperado – por Carlos Loures

Lourenço nunca imaginara poder ser ajudado pelo feroz beleguim Diogo. Quanto a Jan Peter, sempre o vira como elemento hostil. Supusera que, embora ao corrente da missão e dalgum modo a ela ligado, a pretendia impedir ou prejudicar. O flamengo foi o primeiro a explicar a sua história. Era o agente ligado a Portugal a que el-rei se referira. Não fora ele quem o acolhera na carraca quando chegara rodeado de meirinhos? Recebera o dinheiro para custear a missão e a carta que credenciava Lourenço junto do livreiro. Dinheiro e documentos que o capitão lhe apreendera após a sua detenção na véspera da chegada. A Van der Meer dissera tê-lo engajado do modo habitual: os meirinhos tinham-no trazido, vindo da prisão devido a uma rixa numa taverna. O capitão pareceu acreditar. Porém, terá ido observando Lourenço, o facto de não beber vinho, o seu comportamento durante o assalto dos piratas, revelando valentia e bom treino militar. Tudo isto revelava um carácter incompatível com o de um aventureiro que se deixa prender em rixas de taverna – embora esse pormenor fosse o único elemento verdadeiro da história que Jan Peter contara.

O capitão também era agente de Portugal, embora Jan Peter sempre o considerasse, mais do que um espia, um mero colector e vendedor de informações a quem por elas mais pagasse. Perguntara a Jan Peter como é que um rapaz moderado em seus hábitos, que nem bebia álcool, fora preso numa rixa de taverna. O contramestre, com a boçalidade que adoptara como cobertura, limitara-se a encolher os ombros e a grasnar uma tolice do género de a pele de uma ovelha tanto pode esconder um lobo como um cachorro. O capitão não insistira. Juntando estes elementos, deve ter ficado convencido de que o rapaz era o enviado do rei português com o fim de impedir que a cópia do mapa chegasse as mãos dos castelhanos, enviado que sempre soubera trazer a bordo, informado por uma oculta fonte de Lisboa – os espias estavam infiltrados por todas as partes. A Alcáçova não era excepção.

         O capitão suspeitava da ligação de Jan Peter ao serviço de informações de Portugal. Suspeita recíproca, pois nem só o capitão sabia tirar ilações e de imbecil o contramestre apenas tinha o aspecto quando queria desempenhar esse papel. O lobo ocultara-se, não sob a pele de uma ovelha, mas sob as cerdas de um javali. O capitão, tal como Julián, eram dois espias dos reis Católicos, embora ambos recebessem de várias fontes – o capitão, de Portugal e de Castela e Julián, além de Castela, trabalhava para Veneza. O roubo da cópia do mapa na Casa da Mina, fora praticado por Julián que era, desde há meses, criado do espia veneziano, legado da República. A descrição feita pelos porteiros e alabardeiros da Casa sobre o moço que ficava esperando que Dandolo tratasse dos assuntos junto do Ouvidor, correspondia às características físicas do andaluz. Era mentira que tivesse sido engajado à força numa taverna de Sevilha, pois entrara a bordo em Lisboa, poucas horas antes de Lourenço.

Compreendera que estava a lidar com adversários astutos. Apesar das suas desconfianças, só teve a certeza de que eram justificadas quando o tentaram envenenar e quando, falhada a tentativa, na chegada a Veneza o expulsaram da carraca e lhe roubaram o dinheiro, os documentos e a carta, impedindo-o de contactar Lourenço. Não terão quebrado o selo porque estariam informados pela tal fonte de que a carta apenas apresentava o português a Navarro. Para acompanhar o evoluir da situação, sabendo que Lourenço iria à hospedaria indicada por Van der Meer, bastava segui-lo e revistar-lhe o quarto sempre que necessário. Quanto ao livreiro, tinha a convicção de que fora Julián que o degolara. Durante a luta com os piratas, observara que o andaluz era hábil no manejo da adaga. Neste ponto, Lourenço, interrompeu para dizer que se cruzara com um homem forte e alto quando chegou à livraria. Presumia que fosse o assassino. Diogo disse:

– Esse homem era eu – e perante o espanto de Lourenço, acrescentou – quando cheguei, já estava morto. Não toquei em nada.

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