O MAPA (A saga do anadel/78) – por Carlos Loures

 

 João Dulmo, que bem sabia quem ele era, dissera ao capitão da carraca que o árabe fora arrebanhado numa rusga realizada fora da mouraria de Lisboa, a uma hora a que muçulmanos e judeus não podiam já circular na cidade cristã, e lhe fora vendido barato pelos meirinhos que o tinham capturado. Era também uma história bastante verosímil. Sobre ele, Van der Meer não alimentara suspeitas, pois o seu feitio de índole aristocrática quase o impedia de ver pessoas que não fossem dignas da sua atenção. Aquele mouro, bisonho, trabalhador e mudo, tornara-se invisível, não merecendo interesse da sua parte. O que fora favorável à missão que Diogo desempenhava na operação. Ista era tudo, em traços muito largos, o que tinha para dizer sobre a sua pessoa. Mas a conversa não tinha ainda terminado, pois Lourenço tinha ainda uma pergunta a fazer. Perguntou-lhes se possuíam alguma informação que esclarecesse a expressão que Torriani usara para qualificar os assassinos de Lopo – «os homens do Ulrich». João e Diogo entreolharam-se. Foi Mendo quem falou:

         – O Torriani devia estar a referir-se ao mercador Ulrich Imhoff – Dulmo completou a informação:

         – É gente muito poderosa oriunda de Nuremberga e que está, desde há tempos, a instalar-se em Portugal e em Castela. Têm grandes feitorias em Amesterdão e em Antuérpia e entrepostos em várias cidades italianas, aqui em Veneza, em Milão, em Génova, em Florença, em Ferrara…

         – E também na Polónia, na Hungria… – acrescentou Diogo – é uma família importante e que além dos seus negócios, representa em Lisboa e em todo o Reino os interesses de outras famílias também poderosas, como os Hirschvogel, os Hoechstetter, os Fugger, os Welser e outras famílias germanas de menor monta. Estão interessados no comércio de especiarias e de metais preciosos que compram em Lisboa e em Sevilha e que vendem por todos os portos e feitorias da Europa. Gostam de estar ao corrente do que se passa, em Portugal, em Castela sobre a descoberta de novas terras, novas fontes de mercadorias e novas rotas. Estão sempre activos em Lisboa, em Sevilha, em Barcelona… – Dulmo completou a informação:

         – Em Veneza estão muito ligados aos Mocenigo e aos Querini, famílias antigas, que detestam o Barbarigo e que, portanto, combatem por todos os meios os interesses do seu sócio Torriani – João Dulmo fez um ar preocupado – Quando chegares a Portugal não te metas com essa gente. Ulrich Imhoff tem grande influência junto da casa real. Diz-se mesmo que se prepara a assinatura de um acordo entre a Coroa e as grandes famílias alemãs para que participem na armação de novas frotas.

         – Mas porquê assassinarem o meu pai? Que mal lhes fez?

         – Se o tivessem assassinado, seria por causa da cópia do mapa – Diogo pousou-lhe uma mão sobre o ombro – o mapa que teu pai copiou, igual ao que tu recuperaste em casa do Torriani. Nesse mapa, mostra-se uma nova rota marítima para a Índia. Os castelhanos e os venezianos, estão interessados nessa informação. É vital para os seus interesses comerciais – vai prejudicar uns, beneficiar outros. Mostra também um continente novo ou uma ilha desconhecida, a Oeste, o que pode condicionar o tratado que o nosso Reino vai assinar com Castela. Por isso, os castelhanos querem vê-lo, os venezianos e os alemães querem-no para o vender a Castela. É um segredo que vale muito ouro. Mas não acredito que o Imhoff esteja envolvido

         – Hei-de matar esse tal Ulrich! – Lourenço estava desesperado.

         – Não – Dulmo fitou-o bem nos olhos – Primeiro tens de ter a certeza de que foram os seus homens que mataram teu pai. Quem te garante que Torriani não estava a mentir? Olha, um dos homens do Ulrich Imhoff em Lisboa é pessoa que gozava da total confiança de teu pai. Um seu amigo.

         – Quem?

         – Martin Behaim ou Martinho da Boémia, se preferires.

         Lourenço lembrou-se que o germano, de todas as pessoas que chamou a depor, era o único canhoto. Tal como o assassino de seu pai e de Saul Navarro. Ao cabo de alguns momentos de reflexão, disse:

         – Martinho da Boémia, segundo me confirmou o livreiro, foi um dos sábios que colaboraram com meu pai na feitura do mapa. Não precisaria de matar para obter a informação secreta que ele contém. A não ser…

         – O quê – perguntou Diogo.

         – A não ser que matasse para que os segredos não sejam revelados.

         – E os outros dois sábios? – E Dulmo completou o raciocínio – para guardar o segredo, teria de matar os quatro que colaboraram com ele.

         – Ainda os pode matar. Ou talvez façam parte do mesmo bando.

         – Não sejas louco – Diogo estava escandalizado – É gente de confiança de el-rei. Nesse caso, el-rei estaria também envolvido.

         – Pois não, não faz muito sentido – Lourenço estava confundido.

         Diogo olhou para Dulmo e, após essa troca de olhares, garantiu-lhe:

         – Nós, te ajudaremos a descobrir a verdade e a fazer justiça – e acrescentou – Não faças nada sem a nossa ajuda.

         Chegara a altura de procurar o barco onde iam regressar a Lisboa. No molhe, entre numerosos navios, a poucas braças do ponto onde estava acostada a Leeuwarden, João localizou a fusta francesa, a Saint-Louis, com cujo comandante fizera o acordo. Um acordo que tivera de ser bem pago, como era natural neste tipo de negócios. Mas Dulmo parecia estar bem provido de dinheiro. Foram, portanto, percorrendo o molhe, temendo que os perseguidores tivessem tido a argúcia de ali os procurar. Felizmente para eles, a ideia ainda não ocorrera ainda à matilha de Torriani e seus aliados. Chegaram junto do barco e gritaram para bordo, pedindo autorização para subir. Identificados pelo marinheiro que estava de guarda, foram autorizados a entrar. Estavam mais a salvo do que estavam em terra, pois, para eles, o território da República: Mesmo o interior de um barco estrangeiro, deixara de ser lugar seguro. Em qualquer momento, os homens de armas do doge, a pretexto de qualquer vistoria, podiam subir a bordo e prendê-los. Um amável capitão, M. Antoine Perrin, recebeu-os, ofereceu-lhes uma sopa quente, pão, água e roupas limpas. Era um homem moreno, de baixa estatura e anafado. Marselhês, ainda jovem, era pessoa de carácter franco e alegre Mostrou-lhes o compartimento onde iriam ficar e onde dormiam já alguns outros homens. Tomaram um banho antes de comerem e mudaram as roupas. Lourenço comprou a um tripulante um par de botas e outros objectos de que necessitava.

           Pareciam terminadas as perseguições, mas só podiam ficar tranquilos quando a Saint-Louis zarpasse de Veneza. Os barcos estrangeiros não gozavam de imunidade, nem em Veneza, nem em qualquer outro porto. Nessa noite, Lourenço escondeu o mapa sob a sua esteira. No dia seguinte, teria de encontrar um lugar seguro. Apesar da amabilidade com que tinham sido recebidos pelo capitão e pelos tripulantes, aprendera já que, muitas vezes, debaixo de uma máscara de simpatia e afabilidade se escondem sentimentos diferentes. Nuñez era um bom exemplo da duplicidade de que as pessoas são capazes. E afinal, também não fingira ele estar apaixonado por Elisabetta para poder cumprir a sua missão? – Nesta parte, minha mãe erguera os olhos do bordado e esboçara um sorriso. Mas meu pai, simulando não ter reparado, continuara a sua história – Debaixo de uma inocente pedra está por vezes um letal escorpião.

 

 

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