CARTA DE BRAGA – “de papéis e pingalins” por António Oliveira
clara castilho
Naquele ano havia guerra!
Não era aqui, mas um ‘artista‘ que não entendia as mudanças dos tempos e da história, mandou que teríamos de a ‘cumprir‘ todos, a bem ou mal e em força!
Também por lá andei, mas isso não é para aqui chamado, por não querer mexer e arrastar memórias de muito penar, apesar de as ter tentado ultrapassar contando ninharias de só rascar curiosidades.
Mas uma imagem nunca mais me abandonou que me impede, ainda hoje, de me juntar a qualquer reunião, pública ou não, se me exigir uma qualquer ‘mostragem‘ pessoal.
Era tempo de verão e, manhã cedo, começaram a chegar aos portões da ‘unidade‘, designação que comecei a interiorizar naquele dia, ‘mancebos‘ (nem sabia pertencer a essa categoria!) rondando os vinte anos, quase todos ostentando uma timidez marcada pela origem, terras entre as pedras e árvores da serra e, ali na cidade, talvez pela primeira vez.
Quando entrámos, levaram-nos para uma caserna, mandaram que nos despíssemos e com o papel da inspecção na mão, passássemos para o enorme corredor do lado de fora.
Há coisas que não posso nem devo contar, mas não consigo esquecer ser mais um naquele monte de jovens tentando ‘tapar as vergonhas‘ perante o olhar escarninho de um oficial em cima de umas bem engraxadas botas de montar (até com esporas) e, na cabeça, um barrete também em forma de selim, com a ponta levantada em cada canto.
Um olhar que me fez sentir estar a viver a figura mais ridícula da toda a minha vida ‘um homem nu com um papel na mão, entre mais algumas dezenas igualmente ridículos‘ frente a um oficial com barrete em forma de selim e um pingalim metido na curva do cotovelo esquerdo.
Um ar que não abandonou quando se passeou em frente do alinhamento de todos os nus, armado com o tal pingalim, para deitar abaixo qualquer manifestação de masculinidade, própria de uma situação assim.
Estou convencido agora, que o nosso maior mal é guardar e não fazer desaparecer a memória das coisas, das mais importantes e das mais ridículas, por todas elas nos terem marcado a vida, com ou sem botas engraxadas, tendo ou não barrete em forma de selim.
A discutir a importância das recordações, alguém me disse uma vez, já nem sei quando nem onde, que a memória só guarda o que vale a pena, por não perder nunca o que merece ser salvo, apesar de deitarmos fora a maior parte delas!
Talvez por isso não consigo esquecer um monte de ridículos mancebos nus, armados de um mísero papel, frente a um capitão ufano do seu pingalim!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor