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Carta de Braga –“de Steiner, poemas e árvores’ por António Oliveira

Esta estória tem umas dezenas de anos, contada pelo grande e recentemente falecido filósofo George Steiner, que foi professor em Cambridge e outras universidades europeias, ensaísta, escritor e crítico literário.

Nascido em 1929, em Paris, licenciou-se em Chicago, fez o doutoramento em Oxford e é considerado hoje como um dos símbolos maiores da grande cultura europeia.

Tem um currículo imenso tanto em ensaios como em obras de ficção e esta estória contou-a ele ao jornalista e editor francês, Antoine Spire.

Seguindo a narrativa de Steiner, no tempo de Leonid Brézhnev, frequentava a universidade uma jovem russa especialista em literatura romântica inglesa.

Afirma Steiner que a meterem num calabouço, sem luz, sem papel nem lápis, devido a uma denúncia idiota e completamente falsa, mas já nem interessava esclarecê-lo.

Só que a jovem russa sabia de memória, os mais de trinta mil versos do ‘Dom Juan’ de Lord Byron e, na obscuridade, traduziu-o em rimas russas.

Quando saiu da prisão, já com a visão perdida por completo, ditou a uma amiga a tradução daquela obra e, afirma Steiner, ainda é hoje a grande tradução russa de Byron.

Uma outra estória li-a num jornal que dá conta de um cineasta ter feito um documentário sobre um homem com 67 anos que, todos os dias, faz oito quilómetros em cadeira de rodas, só um triciclo em madeira, puxado com as mãos e um volante rudimentar, para ir plantar árvores.

É a sua actividade há 50 anos e já deve ter plantado mais de um milhão e duzentas mil árvores. Uma doença infecciosa inutilizou-lhe as pernas mas, todos os dias percorre oito quilómetros no triciclo, para ir e vir ao viveiro onde planta as árvores.

Vive num povo ignorado do Burkina Faso, um país que a maioria das pessoas nem sequer deve saber que existe e faz aquele trabalho por ‘sentir que o necessitava’.O cineasta trouxe-o uma vez à Europa e Daniel Balimà espantou-se com a quantidade de rios a árvores e ‘vocês não são conscientes da riqueza da natureza que têm no vosso país’.

Hoje seria impossível pensar, por aqui, na existência de uma jovem ou um jovem como aquela russa, de um homem como Daniel Balimà pois, diz Zygmunt Bauman, já se apagaram as realidades sólidas de antes, para dar lugar ao precário, ao transitório e ao efémero.

Vivemos uma hibridação, uma mistura quase total da vida privada e da profissional, em que a privacidade corre sérios riscos de passar para segundo plano, numa sociedade onde não se pode confundir o híbrido com o líquido, como ele definiu a modernidade.

A modernidade, o híbrido, não é mistura, nem mestiçagem, nem fusão, é algo de novo que ainda vai precisar de muito tempo para o entendermos, pois tudo se fragmenta à nossa volta, com uma maioria a olhar para as coisas com dúvida e espanto.

E a pairar bem por cima disto, ainda as palavras de Bauman, ‘a cultura da modernidade líquida já não tem um populacho para instruir ou engrandecer, mas clientes para seduzir!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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