‘Esquecemos às vezes, que a vida é o que vivemos agora’
Já não sei onde li isto e se seriam estas as palavras exactas mas, a simplicidade e a justeza da frase, deixam entender um espírito atento às mudanças que as tecnologias introduziram no ‘modus vivendi’, independentemente dos sítios e das sociedades.
Ao mesmo tempo e num diário europeu, Henrietta Fore, directora geral da Unicef afirmava, nos primeiros dias do mês de Fevereiro, ‘O que mais impacto me provocou na vida foi observar que na relação entre as pessoas se perdeu a nossa ligação a «ser humanos»
– Somos não humanos?
– Não tratamos as outras pessoas, os animais e o planeta com o respeito e o cuidado que requerem. Este sentimento de humanidade é a maior das perdas e os jovens dizem-nos somos 25% do mundo mas 100% do futuro e têm toda a razão. Temos de os ajudar!
– As alterações climáticas prejudicam mais as crianças?
– Sim, as crianças são as primeiras a morrer devido às secas e à falta de água potável mas, se o resolvêssemos, acabariam as grandes epidemias. O ar é outro problema, pois se fosse mais limpo, não morreriam 800.000 crianças cada ano, só devido à pneumonia’
Frente a estas realidades que mostram como o mundo está prestes e pronto para aumentar a já enorme dimensão dos seus erros, George Steiner, na última entrevista concedida ao seu amigo e discípulo, o italiano Nuccio Ordine, não apelava à pena nem à raiva, só apelava ‘À inteligência e à função educativa da História’.
Steiner também lamentava que a cultura nunca tivesse mostrado força para ‘Confrontar esta desumanização difusa’, a que marca a lenta reprodução de uma barbárie, a que não é alheia a adolescência política de que padece o continente e se estende a todos os outros.
Estamos frente a enormes desafios, na sua maior parte devido a uma globalização pensada e levada a cabo visando apenas a maximização do lucro, como estamos frente a mudanças que as gerações anteriores nunca conheceram e que assustam muitíssimas pessoas.
Ao mesmo tempo, também podemos constatar a transformação da opinião pública em todo o mundo, devido à importância dada aos novos meios de comunicação, de tal maneira que ‘Se a Google não te cobra nada, o produto és tu’ garantiu recentemente um criativo publicitário, ‘pois passámos da liberdade de expressão à liberdade de propaganda’
E Wolfgang Schäuble, actual presidente do Parlamento alemão e antigo senhor dos dinheiros europeus, afirmou ao ‘El País’ já este mês, ‘Sem uma opinião pública conjunta é terrivelmente difícil ter uma democracia estável. Em toda a parte as instituições democráticas estão em crise e sob pressão’
Na verdade, parece estar a cumprir-se a frase inicial desta Carta e também o velho aforismo de Yukio Mishima, ‘Esta é a época em que, com base na liberdade de expressão, todos se sentem autorizados a dizer em voz alta opiniões próprias, imaturas e insubmissas, pondo de lado toda a reserva’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


