CARTA DE BRAGA – “sinto-me mal” por António Oliveira
clara castilho
Só sei que me sinto mal, mas não sei bem qual a razão!
Estamos(estou) a safar-nos de um ‘corona’, ainda não totalmente livres de um outro drama, a crise financeira de 2008 que nos (me) trouxe o ‘austericídio’ de 2011 e hoje fui ‘agredido’ pela leitura de duas notícias que, aparentemente desligadas, dizem muito do que já aí está a preparar-se para nos (me) apoucar, lesar e ofender no próximo ano.
A primeira, da primeira página do digital ‘Dinheiro Vivo’ de 31 de Maio, ‘O regresso da austeridade aos salários dos funcionários públicos em 2021, é um cenário que não pode ser afastado, disse a ministra da Administração Pública, Alexandra Leitão’.
A segunda, notícia também de primeira página no ‘Jornal de Negócios’ do dia 2 deste mês, reza assim ‘ANA já entregou 600 milhões de dividendos ao accionista, o grupo francês Vinci, mais de metade dos lucros obtidos desde a privatização, que ultrapassam os 1.170 milhões de euros’.
São 200 milhões já ‘distribuídos’ o ano passado e 400 milhões ‘distribuídos’ em 2018. Acho (sou obrigado a achar!) muita piada aos ‘distribuídos’, que os campeões das privatizações também ‘acham bem’ saírem do país, para ajudar ao regresso da tal austeridade que, só por um ‘mero acaso’, vai cair na função pública.
É óbvio que, de imediato também se vão seguir os ‘reformados’ (até poderá ser na ordem inversa!) por nunca deixarem de andar juntos, funcionários públicos e velhos, por ‘não serem produtivos’ e por isso também, não poderem ser privatizados!
Todas estas crises são ‘resultado de uma complexidade sistémica que não arranjamos maneira de compreender, pela debilidade sistémica da governação económica global, que não se pode reconduzir com as condutas individuais de consumidores e banqueiros’ faz notar o filósofo Daniel Innerarity.
Innerarity diz ainda ‘a confiança nos políticos está abaixo dos mínimos e o subconsciente político acredita que as mudanças da verdade se dão sempre no aproveitamento de uma qualquer catástrofe’.
Esta afirmação parece ser uma verdade incontestável, a ser espalhada mas recusada em todos os continentes, pelas mais diversas maneiras, pois afirmou um dia o escritor Upton Sinclair, ‘É difícil conseguir que um homem entenda alguma coisa, quando o seu salário depende de quem o não entenda.’
Não acredito que haja gente capaz de me explicar tudo isto, por não perceber nada de finanças, nem dos incríveis e aparentemente não muito limpos jogos que elas determinam (basta lembrar-me da cara de diácono do primeiro ministro holandês!), mas pergunto-me, (repito apenas) a pergunta que há pouco tempo se fez Pepe Mujica ‘Estamos, nós os humanos, a chegar ao limite biológico da nossa capacidade política?’
Vejam-se os perfis da maioria dos dirigentes políticos deste mundo, para ‘achar’ que até poderemos dar-lhe (nos) uma resposta e ‘achar’ que também poderemos entender os poderosos financeiros que estão sempre por detrás!
Talvez seja por isso que me sinto mal! É que 2021 já está aí, à esquina!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor