CARTA DE BRAGA – “da crise e de S. Mateus” por António Oliveira

Esta crise acabou por reduzir a importância das nossas misérias

Li isto não sei quando nem onde, nem sequer sei se foram estas as palavras usadas, mas sei que não perderam importância, antes a aumentou exponencialmente.

E, numa altura em que se discute por todo o lado (veja-se a ‘cara de diácono’ do primeiro ministro holandês), os impostos ou a fuga aos impostos de quem o pode fazer, não posso esquecer o ‘velhinho’ Bertrand Russell que, em ‘O Elogio do Ócio’, deixou algumas e, por vezes catalogadas ‘ingénuas e deliciosas maluqueiras’, como esta ‘A moral do trabalho é a moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão’.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1932 e, desde então até hoje, muitas crises, guerras e mudanças caíram em cima do homem, quando o tal ‘corona’ acabou por pôr a descoberto as debilidades da nossa sociedade, a maior das quais é termos ‘normalizado’ modos de vida social, económica e ecológica, muito mais num estilo roleta russa que em modelos de cálculo de probabilidades.

E Russel continua, parece mesmo que a propósito, ‘Movimentar a matéria para obter as quantidades necessárias à nossa existência, não é, decididamente, um dos objectivos da vida do homem pois, se assim fosse, teríamos de considerar um operador de britadeira superior a Shakespeare’.

Isto visto pelo lado dos mais fracos porque a necessidade de os manter ‘serenos’, continua Russell, ‘Levou os ricos a pregar, durante milhares de anos, a dignidade do trabalho, ao mesmo tempo que tratavam de se manter indignos sobre tal assunto e até acenando com o prazer do maquinismo, que os delicia com as espantosas transformações que podem fazer na superfície da Terra’.

E mais uma vez me vem à memória o tal ‘cara de diácono’!

A sofisticação também atinge métodos que sabemos acontecer a toda a hora e em todo o lado, quando se atribui a um trabalhador o falso estatuto de ‘empresário por conta própria’, para poder pagar outro tipo de imposto, pois por ser proprietário da sua própria força de trabalho, não teria um salário, mas ‘honorários’, tal e qual um qualquer médico, um advogado ou um perito em finanças.

De acordo com Dicionário Priberam da língua portuguesa a ‘honorários’ corresponde a seguinte explicação ‘Remuneração pecuniária de serviços prestados, em geral por profissionais liberais’.

Todos fomos confrontados com tal oferta para nos transformamos em ‘empresários’, que assim também mostra uma das origens sistémicas do desemprego, como revela a desconfiança das administrações em relação aos mais desfavorecidos, por sempre os enredarem numa teia complicada de normas burocráticas que, no limite, se pode ver como controlo e vigilância.

E, ainda Bertrand Russell, ‘Grande parte dos maiores males que o homem tem infligido sobre o homem, surgiu de pessoas que se sentiam absolutamente certas sobre algo que, na realidade, era falso’, mas tirado agora do ensaio ‘De homens, pessoas, realidade’.

E outra vez, a memória do ‘cara de diácono’!

Curioso é que todas estas ponderações me foram ‘facilitadas’ pela quarentena, ou melhor, pelos períodos de recolhimento que, ética e esteticamente me fui impondo, para entre outras coisas, poder avaliar a importância das minhas e das nossas ‘misérias’ e até, de alguma maneira, ver a infelicidade da redutora citação inicial desta Carta.

Mas, mais antigo que tudo o que Russell disse e o ‘cara de diácono’ possa vir a dizer ou a fazer, aqui fica a sentença perfeitamente adaptada a estes tempos, do ‘Evangelho segundo S. Mateus, 10

Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, pois o operário merece o seu sustento

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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