CARTA DE BRAGA – “meditação e confinamento” por António Oliveira

Quando as desgraças nos atormentam, quase sempre pelos nossos abusos, deitamos a culpa ao sol, à lua ou às estrelas, como se as nossos falhas fossem uma imposição dos deuses’ dizia ele por vezes, mormente quando a bebida já lhe aferventava a mente.

E acrescentava ainda ‘Shakespeare pôs estas palavras, ou outras parecidas, na boca do Rei Lear, que vocês até deviam ter lido!

Mas não era num sítio qualquer, tinha de ser num dos poucos cafés que frequentava, sempre que sentia alguma folga nas finanças, coisa que nem era frequente, mas por uma razão aceitável na sua linguagem simples e directa, ‘Um bar é como uma igreja, um lugar de meditação!

Naquele dia razoava-se sobre a linguagem impositiva da publicidade, que começou por exibir sensações, emoções e estilos de vida para depois, com a clientela já conquistada e devidamente ambientada, converterem a gente toda em consumidores, depois de terem afastado tudo, até um qualquer pensamento crítico.

É por isso que um bar é como uma igreja, aqui são permitidas meditações mesmo as espiritualistas, aquelas que não aparecem nas caixas das imagens, grande ou pequenas, para assim podermos subverter toda e qualquer inconveniência nas ordens do capitalismo!

Via-se que sabia o que dizia, que tinha bases para isso, mas faltava-lhe, como talvez lhe tenha faltado sempre, a coragem para dizer as coisas na hora certa e à pessoa indicada.

O confinamento e até as ‘poupanças’ vindas da limitação das saídas, levaram-no a ir àquele café com mais frequência, por não ser muito longe de casa e saber que ali sempre acharia um amigo com quem conversar.

Também sei que até devia ir dar uma volta no meio das árvores, como fazia dantes, por ainda pertencerem ao mundo fora das instituições, mas lá só já encontro eucaliptos nos caminhos! Também são palavras, mas ditas de outra maneira, para nos imporem emoções e excreções, nem que seja para gastarmos mais papel higiénico’.

Acho que falava mais para si que para os dois clientes e amigos que ali estávamos, mas nenhum de nós lhe dava uma ‘deixa’, para ele continuar o desenrolar os pensamentos que devia ter andado a juntar durante os confinamentos, sozinho em casa.

E assim, mansamente, com a ajuda das redes sociais, vão estatuindo um mundo de irmandades sentimentais, em que sempre se corre o risco de encontrar um cínico como Oscar Wilde, que afirmava, mesmo ainda bem longe de saber da vinda do Facebook, que um sentimental é aquele que só deseja gozar o luxo de uma qualquer emoção, sem ter de pagar por isso!

Pede mais uma bebida ‘macia’ por já estar a sentir a cabeça ‘leve’ e divaga sobre o fim do confinamento, da continuação da máscara e, ‘Já tenho alguma idade e não me sinto capaz de passar a ver a vida a dois metros de distância, sem um abraço e um copo, num grupo de bons amigos! Seria como se nos tirassem os corpos e, por muito que custe aos deuses, ao sol, à lua e às estrelas, que foi assim que comecei, a condição de um homem precisa sempre do outro!

E olhando de frente para nós os dois, debita esta sentença ‘Sei que vou primeiro e, como disse um cartoonista que já não me lembro quem foi, no dia em que eu morrer, se não couber na campa, com a confusão toda que por aí está e vai aumentar, lembrai-vos de pedir para me deixarem as pernas de fora!

Assim se mostra como é mesmo necessário instituir, ensinar e consagrar alguns tempos para a meditação, enquanto não se arranjar solução para arredar o ‘corona’ e acabar com os confinamentos!

E nem lhe perguntámos porquê!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply