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CARTA DE BRAGA – “da ordem, da palavra e da dignidade” por António Oliveira

Uma das mais glosadas máximas da vida, desde a biologia à política, ‘A tensão entre a ordem e aquilo que a desafia, é sinal da vitalidade, por não haver vida sem enfrentar um desafio lançado à própria identidade’, com estas ou outras palavras semelhantes, tem sido repetida por analistas e estudiosos de todos os ramos onde se desenrolam e analisam as actividades do homem.

Mas, reparando bem, tais actividades, bem como os desafios que lhes vão sendo propostos, dependem fundamentalmente do uso da palavra pois, desde a simplicidade do comentário filosófico de Tales de Mileto sobre a água, como princípio de todas as coisas, depois desenvolvido por outros e muito autores, ele ainda acrescentou, ‘O homem só se sentiu criador e dono da sua vida e responsabilidade, quando no mar das palavras, se soube livre’.

Paul Éluard explica tudo isto muito bem, no prefácio a ‘Poesia Involuntária Poesia Intencional’, por cá divulgado em 1952, no 3º fascículo, de ‘Árvore – folhas de poesia’, como se vê neste breve apontamento ‘Na boca dos homens, a palavra jamais se extinguiu: as palavras, os cantos, os gritos sucedem-se sem fim, cruzam-se, chocam-se e confundem-se. O impulso da função-linguagem foi levado ao exagero, atingiu a exuberância e a incoerência. As palavras dizem o mundo e dizem o homem, o que o homem viu e sente, o que existe, o que existiu, o que existirá, a antiguidade do tempo, o passado, o futuro da idade e do momento, o voluntário e o involuntário, o medo e o desejo do que não existe, do que vai existir’.

Tudo porque também todos, mas mesmo todos, sejam quais forem as suas origens, crenças, ideologias e o que inventarem para marginalizar ou acolher, participam na construção da Verdade, porque as ‘realidades’ e os ‘objectos’ deste mundo, estão sempre sujeitos à incontornável lei da obsolescência, válida tanto para ‘elas’ como para ‘eles’, mantendo-se apenas as palavras para os classificar, que servirão da mesma maneira, para assinalar a evolução do mundo, dos seres e das coisas.

Aparentemente, mas só na aparência, estará fora desta mutação contínua em volta do ser humano, a importância e o valor da sua própria dignidade, por ser uma questão ética, com uma universalidade que a isola e afasta das moralidades, onde ‘topo’, o elemento de composição que representa a ideia de lugar, ou de localidade, assume sempre importância primordial.

Hoje e de acordo com esta visão redutora da dignidade, estamos mergulhados em estruturas onde são maioritariamente valorizados os conceitos instrumentais do homem e da mulher, ‘quando a toda a dinâmica da evolução e desenvolvimento, que culminou no Iluminismo, se constrói e recupera o valor do homem (da mulher e do homem) como um fim em si mesmo, nunca como um meio, aliás a formulação kantiana’, de acordo com as palavras do filósofo Santiago Alba Rico.

As coisas desenrolam-se assim, pelo menos neste mundo ocidental nosso, pois a linguagem, o uso primordial da palavra, ‘sempre foi um jogo entre seres humanos, um jogo social sujeito a regras de silêncio, onde quando não se pode falar é melhor estar calado’, um dos últimos aforismos de Ludwig Wittgenstein no ‘Tractatus’, onde o filósofo quis deixar bem claro, nunca haver palavras bastantes para nomear a realidade.

Mas a concepção instrumental do homem tem marcado o mundo gravosamente, mormente a partir da revolução industrial, pois todas as crises históricas acabaram sempre numa redução do colectivo ao individual, uma espécie de retorno assustado ao interior de si próprio, dando a impressão de que esta sociedade tem medo da partilha, de compartir com os outros, da noção do comum e mais ainda, da construção da ‘polis’, a que seria a cidade dos cidadãos livres para os antigos gregos.

Uma situação bem conhecida depois da segunda guerra mundial, denunciada por muitos sociólogos, políticos e intelectuais, como Pasolini que, nos anos setenta já denunciava a ‘destruição das culturas populares de resistência, pelos efeitos daquilo que ele chamava hedonismo de massas: o que nunca tinha conseguido o fascismo, tinha-o conseguido sem violência, o carro e a televisão’.

Mas, ainda há muita gente que, como Santiago Alba Rico, pensa  ‘Homem livre é o que tem capacidade de se criticar a si próprio, de criticar o mundo existente e o que quer construir, à margem da dor que lhe tenham infligido. Chama-se a isso dignidade no plano ético e democracia, no plano político’.

E há dias, ouvi alguém dizer, numa mesa ao lado daquela onde eu estava sentado, qualquer coisa como isto (até parece que a propósito) ‘Não se admite que apenas um por cento dos humanos, tenha metade da riqueza toda da Terra, mesmo que seja legal e legítima, pois a legalidade nada tem a ver com direito. Só que esses ricaços, especuladores e ajuntadores de dinheiros, contribuem decisivamente para que milhões passem fome e vivam em condições que nem sequer aceitariam para os seus mastins’.

Também me lembro de ter ouvido a um velho angolano, carapinha já bem branca, um dito antigo do seu povo e que aqui, parece muito bem aplicado, para terminar esta Carta da melhor maneira, ‘Tudo o que fizeres por mim, mas sem mim, vai ser de certeza contra mim!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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